15/04/2018 às 05h48min - Atualizada em 15/04/2018 às 05h48min

Estimulantes: a ajuda que pode ser problema

De estudantes a atletas, o uso é comum entre grupos que fazem grandes jornadas

VINÍCIUS LEMOS | REPÓRTER
A rotina de Udiones Ferreira o levou a um quadro de insônia | Foto: Vinícius Lemos

De um simples cafezinho para despertar, como diz a tradição, até ao uso de medicamentos baseado em anfetaminas vendidos ilegalmente na internet, a busca por burlar cansaço e melhorar a performance nas atividades diárias é um tipo de hábito apontado por especialistas ligado a três grupos principalmente: atletas de academias, estudantes e trabalhadores com longas jornadas. Os efeitos colaterais são conhecidos, que vão desde a perda do sono até dependência química ou psicológica, ainda assim medidas de contenção e controle de uso não impeçam que muitos tenham acesso às substâncias por corrupção de profissionais que têm acesso aos estimulantes ou por conta do acesso fácil na internet, onde sites que oferecem medicamentos sem a necessidade de receituários.

Os estimulantes, a grosso modo, podem ser definidos como qualquer substância que traga entre seus efeitos o aceleramento do metabolismo, que traga algum de energia com o corte dos efeitos do cansaço, além de mudanças cognitivas que podem lhe ajudar na concentração. Elas atuam no sistema nervoso central, produzindo alterações de comportamento, humor e cognição. A reportagem do Diário de Uberlândia conversou com farmacêuticos e médicos, além de trabalhadores e estudantes, a respeito do assunto e o perfil traçado por eles mostra que a exigência diária leva o usuário a preferir consumir as drogas, naturais ou sintéticas, para potencializar a própria produtividade do que buscar hábitos saudáveis que lhes ajude.

Por vedação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), as farmácias de manipulação não podem oferecer nem aceitar o pedido para que manipulem medicamentos que contenham anfetaminas ou derivados  como femproporex ou anfepramona, muito utilizadas em emagrecedores. O que não impediu que nos últimos anos a farmacêutica Edjane Maria Arantes Leal Gonçalves tivesse a procura por fórmulas que as continham. O que sempre foi negado. Ela explica que na última década era comum a prescrição desse tipo de medicamento para pessoas que estavam não só em busca do emagrecimento, mas também para uso em busca do efeito colateral de estimulação. “Quem procura diz que se sente mais animado e com grande disposição. Anos atrás (quando ainda era liberada a manipulação) entrávamos com anfepramona, mas ele desencadeava insônia, a pessoa ficava irritadiça e o médico associava outros medicamentos para dormir e acalmar. Recebíamos bastante esse tipo de pessoa”, disse.

Edjane Gonçalves ainda contou que não faz muito tempo uma antiga cliente, que por muito tempo fez o uso de fórmulas baseadas em anfetaminas, procurou o balcão de sua empresa e pedia a venda do antigo medicamento. Isso gerou um conflito entre a farmacêutica e a mulher, uma jurista que procurava no remédio uma maneira de emagrecer e manter o ritmo da rotina como advogada. “Ela estava descontrolada e queria a qualquer custo o medicamento, mas era impossível fazer. Ela dizia que o medicamento lhe ajudava a perder peso e se manter acelerada”, afirmou.

TDH

Medicamentos ligados ao controle do Transtorno de Déficit de Atenção (TDH) também são muito usados por estudantes que dizem trazer concentração para suas atividades acadêmicas. O mais famoso é Ritalina, cuja procura fez o médico psiquiatra Tiago Couto presenciar algumas tentativas de prescrição com a desculpa do déficit de atenção. “Nem sempre é por maldade, mas já aconteceu sim de procurarem o consultório com esse relato. Para ter um diagnóstico mais fechado é preciso fazer um estudo mais aprofundado, inclusive com familiares, para saber se a pessoa tem mesmo o TDH”, afirmou.

Outras drogas da moda, principalmente para estudantes são a lisdexanfetamina e o modafinil, também ligadas ao TDH. Enquanto a cafeína vendida em cápsulas, em concentrações que variam de 100mg a 400mg, são muito usadas por atletas de academias.

DESCOMPASSO

Muito trabalho e pouco sono

O hoje microempresário Udiones Eduardo Narciso Ferreira contou que durante uma época, em que além do emprego em horário comercial, o segundo emprego durante a noite o fez usar por diversas vezes substâncias estimulantes desde a cafeína, por meio de cápsulas ou bebidas, e o pó de guaraná. A rotina de mais de cinco anos o levou a um quadro de insônia, resolvida como medicamentos para indução do sono. “(Os estimulantes) Não resolvem seu problema, porque você fica cansado depois do efeito. A solução é simplesmente descansar e dormir. Hoje durmo muito bem”, disse ele, que aboliu, inclusive o café preto da dieta.

A solução caseira de misturar refrigerantes com café, além do onipresente pó de guaraná, entre os entrevistados do Diário dessa reportagem, foram a solução da estudante Nayane Pena, durante o período inicial da universidade. Ela afirmou que o trabalho de segunda a sábado e os estudos consumiam não só o tempo, mas sua energia, o que a fez apelar aos estimulantes para manter a rotina de noites com apenas três ou quatro horas de sono. “Logo parei de fazer uso destas substancias, porque sentia mais efeitos negativos do que positivos. Eles me mantinham acordada que era o que precisava, porém acabava tendo efeitos colaterais, taquicardia, tremura”, afirmou.

REBITE

Conhecidas popularmente como “rebites”, as substâncias que são usadas por motoristas para conseguirem dirigir durante uma noite inteira, não são exatamente difíceis de se encontrar quando você está inserido no grupo. Carlos* (nome fictício) contou à reportagem que tomou por várias vezes o estimulante, que cortava por completo seu sono por até cinco horas. O efeito posterior à euforia causada pelo medicamento era cansaço extremo, que demandava o descanso obrigatório ou mais uma dose do “rebite”. Mas ele chegou a um limite. “Nunca passei nenhum perigo por ter tomado, me ajudou a cumprir o horário, a não deixar eu dormir. Parei de tomar porque não era isso que queria para minha e saí da empresa. Mas não aconselho ninguém a tomar, acaba com a sua saúde”, afirmou.

EXIGÊNCIA DA EMPRESA

Ele explicou que muitos colegas de trabalho são levados ao uso pelas exigências das empresas com relação aos horários. Grandes distâncias devem ser cobertas em pouco tempo para que as cargas sejam entregues na hora certa. “Só dirigindo a noite toda assim, mão tem jeito”, disse Carlos. O que ainda viola a Lei para a categoria, a qual exige que A cada 24 horas, o motorista tenha 11 horas de descanso, que podem ser fracionadas, garantindo-se o mínimo de oito horas ininterruptas.

EFEITOS COLATERAIS

Entre os efeitos colaterais mais comuns ao uso associados aos estimulantes, sem necessidade e por longos períodos, estão a dependência química e ou psicológica, alterações como a redução da libido, irritabilidade, insônia e aumento da pressão arterial. O que, segundo o médico Tiago Couto pode ser grave, se somados a problemas de saúde anteriores. “O aumento da pressão pode fazer com que problemas como aneurisma sejam desencadeados”, disse.

A dona de casa Ana Gilse Pereira explicou que quando trabalhava durante a madrugada, com turnos começando às 4h, consumia o pó de guaraná, o que trazia, além da Insônia, aceleramento dos batimentos cardíacos e fazia com que o corpo tremesse. Anos depois ela descobriu que a reação exagerada á substância estava ligada também a um problema de arritma cardíaca que ele tinha. “O médico disse que tudo que é estimulante eu não posso, por acelerar meu coração, inclusive um energético comum eu não posso beber”, explicou.
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