20/03/2018 às 05h31min - Atualizada em 20/03/2018 às 05h31min

Sete em cada 10 acidentes na cidade envolvem motos

Rede de saúde fica estrangulada na assistência às vítimas

VINÍCIUS LEMOS | REPÓRTER
Corpo de Bombeiros registrou 2.941 acidentes com motos no ano passado em Uberlândia | Foto: Vinícius Lemos

Sete em cada 10 acidentes de trânsito com vítimas em Uberlândia envolvem motociclistas. Números do Corpo de Bombeiros mostram que a média de casos se manteve nos últimos dois anos, mas que quantidade absoluta cresceu. Foram 2.835 acidentes com motos em 2016 e outros 2.941, no ano passado. Na maior parte desses acidentes, os motociclistas são as principais vítimas, o que gera, inclusive, gargalos para a rede de traumatologia do Sistema Único de Saúde (SUS): a recuperação é lenta, exige cuidados de média e alta complexidade e é cara para o sistema. Para o condutor, na maioria das vezes, são meses fora do mercado de trabalho em busca de recuperação.

Em todo o ano de 2017, os bombeiros fizeram 4.025 atendimentos a vítimas em acidentes de trânsito. No ano anterior, foram 3.851 chamados. Em ambos os anos, 73% desses casos envolviam motos, sejam em quedas, colisões ou atropelamentos. “O que é complicado é que muito dificilmente um acidente de moto deixa de ter uma vítima. É gritante, principalmente se a gente levar em conta que um automóvel tem uma série de itens de segurança, o que a moto não tem”, disse o comandante do 2ª Comando Operacional do Corpo de Bombeiros de Uberlândia, tenente-coronel André Casarim.

Ele ainda lembrou que os ferimentos mais comuns nesses casos são escoriações e traumas de diversas gravidades, principalmente nas pernas e nos braços. Os horários das 7h, das 12h e das 17h são os que concentram a maior parte das ocorrências. Motos de baixas cilindradas e que transportam trabalhadores que dependem do veículo são as mais envolvidas, ainda de acordo com informações dos bombeiros.

CUSTO

O custo para o sistema de saúde com acidentes chegou a R$ 146,8 bilhões em todo o País, de acordo com estudo de 2016 do Centro de Pesquisa e Economia do Seguro (CPES), da Escola Nacional de Seguros.

Já para o motociclista ou passageiro pode custar a vida ou sua incapacitação. Sobreviventes de acidentes graves normalmente passam meses ou mesmo anos em recuperação de politraumatismos de graus diferentes, como explicou a coordenadora da Liga de Trauma da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Uberlândia (UFU), Miriam Rizza Campos Reis. “Existe relativa incidência de óbitos [em acidentes com motos], mas a incapacitação é muito grande. A recuperação pode demorar e tira a vítima do mercado de trabalho”, afirmou.

O Hospital de Clínicas da UFU (HC-UFU) é referência no atendimento de traumatismos na região do Triângulo Norte e atendeu no ano passado a 605 feridos em casos de acidentes envolvendo motociclistas. A maior parte das vítimas foi composta pelos próprios condutores, que representam 83%. Em 2016 os números foram semelhantes, quando dos 603 atendidos, 507 conduziam as motos no momento dos acidentes, 84% do total de vítimas.

O acompanhamento dos feridos começa na recepção e posterior cirurgia, caso necessário, e vai terminar no acompanhamento em ambulatórios e fisioterapias. O trabalho envolve uma equipe multidisciplinar, que inclui ortopedia e traumatologia, normalmente os que têm maior demanda de trabalho, e também neurologia e cirurgia geral, oftalmologia, otorrinolaringologia, além de fisioterapia.

LIGA DE TRAUMA

A partir do terceiro período do curso de Medicina, os estudantes podem participar da chamada Liga de Trauma, que é um grupo que foca na área de traumatologia. Junto a professores, o grupo frequenta o HC-UFU para o estudo de casos, o tipo de encaminhamento e como conduzir um atendimento. O estágio na Liga pode durar até dois anos.
 
REDE MUNICIPAL

Urgência dos casos pressiona atendimento nas UAIs

Os gargalos na rede de Saúde gerados por casos que normalmente envolvem o atendimento a uma vítima de acidente motociclístico passam desde a mobilização de equipes dentro de uma Unidade de Atendimento Integrado (UAI), até a dificuldade em transferência do paciente para um hospital capaz de fazer procedimentos cirúrgicos.

Quando uma vítima chega à UAI, que é uma das portas de entrada à rede pública de saúde, técnicos e médicos tratam o caso como prioridade, o que, por si só, pode gerar demora no atendimento aos demais casos de menor gravidade.

Exames, internação e até mesmo recuperação do paciente nesses locais também são problemáticos.

O assessor técnico da secretaria de Saúde, Clauber Lourenço, afirmou que é difícil, por exemplo, estimar um prazo médio para transferências para hospitais capazes de fazer procedimentos de maior complexidade. “Um tempo médio de transferência é relativo e depende de uma série de fatores”, disse, incluindo a disponibilidade de vagas em unidades como o próprio HC-UFU e o Hospital Municipal.

Mutirões vêm sendo feitos no Municipal no intuito de diminuir esperas em UAIs. Como a unidade não é credenciada junto à União para procedimentos complexos, as forças-tarefa dependem de verba municipal e disponibilidade no hospital.
 
RELATO

“Nunca mais andei de moto”, diz acidentado

Em agosto de 2015, o pedreiro Arnaldo Moreira de Jesus bateu em um carro quando voltava para casa, no bairro Umuarama, zona leste de Uberlândia. Ele diz não se lembrar de como foi a batida, uma vez que os faróis do carro ofuscaram sua vista, mas se recorda bem de quando viu a mão direita afetada e uma fratura exposta na pena esquerda.

Após o acidente, Arnaldo de Jesus chegou a tentar se levantar, mas não conseguiu. O primeiro atendimento foi feito por uma pessoa que testemunhou o acidente e tinha treinamento para o socorro.

Durante mais de um ano, Jesus fez fisioterapia para se recuperar e ainda hoje precisa de muleta para deslocamentos maiores.

A perna ferida, hoje, está três centímetros menor. O ex-motociclista afirma que teve sua história transformada por causa do acidente. “Parou a minha vida e perdi muitos clientes. Não voltei a trabalhar e hoje quem custeia a casa é minha esposa. Nunca mais andei de moto e até vendi a que tinha”, disse.
 
ACIDENTES COM MOTOS

Ocorrências do Corpo de Bombeiros

2017
Total de acidentes – 4.025
Sendo 2.941 com motos
 
2016
Total de acidentes – 3.851
Sendo 2.835 com motos
 
Atendimentos HC-UFU

2017
Total – 605
Condutor – 500
Passageiro – 86
Pedestre – 14
Não especificado - 5
 
2016
Total – 603
Condutor - 507
Passageiro - 82
Pedestre - 12
Não especificada – 2
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