06/03/2018 às 21h39min - Atualizada em 06/03/2018 às 21h39min

Nomes de ruas da cidade têm predominância masculina

Levantamento do Diário mostra que há 1.966 logradouros com nomes masculinos, enquanto as homenagens às mulheres se restringiram a 561 vias

WALACE TORRES | EDITOR
 
No centro da cidade, o que não falta é história para contar através das denominações de ruas e avenidas. Personalidades que se destacaram em âmbito nacional ou local são homenageadas nas principais vias públicas de Uberlândia. Em cada esquina, uma página do passado é eternizada.

Coronel Antônio Alves se encontra com Cesário Alvim, Floriano Peixoto, Afonso Pena, João Pinheiro, Cipriano Del Fávero e por aí vai. Mais abaixo, Quintino Bocaiuva, Tenente Virmondes, Machado de Assis, Duque de Caxias, Olegário Maciel e Santos Dumont seguem o mesmo rumo.

Um pouco mais adiante, mas ainda na região central, Alexandre Marquez, Vasconcelos Costa, Fernando Vilela, Engenheiro Diniz, entre outras, cruzam com Artur Bernardes, Rodrigues da Cunha, Carmo Gifone, Vieira Gonçalves.

Reparou algo estranho nessa história, fora o fato de que as personalidades citadas nem sempre viveram na mesma época? Ao longo do tempo Uberlândia valorizou nomes que contribuíram para o desenvolvimento regional, do Estado e do País em diversos segmentos.

Mas, um olhar mais atento ao mapa da cidade e uma discrepância surge na lista de homenageados.

No mês – e especialmente na semana – em que se comemora o Dia Internacional da Mulher, uma comparação aparentemente peculiar mostra uma disparidade gigantesca para uma época em que a igualdade entre os sexos não é simplesmente uma conquista ou um direito, mas uma evolução.

Levantamento feito pelo Diário com base no Guia Sei (catálogo de logradouros) de 2017, aponta que há três vezes e meia mais vias públicas que homenageiam pessoas do sexo masculino do que o feminino no município de Uberlândia. São aproximadamente três mil ruas, avenidas, travessas, praças, pontes, viadutos que levam alguma denominação de pessoas, lugares, plantas, profissões, países, estados, datas, entre outros. Considerando apenas pessoas, há pelo menos 1.966 logradouros com nomes masculinos, enquanto que as homenagens às mulheres se restringiram a 561 vias.

Com raríssimas exceções, as principais vias de cada região homenageiam uma mulher. No Centro, por exemplo, a rua Princesa Isabel reina sozinha entre coronéis, tenentes e outros poderosos. Na região Sul, a Lidormira Borges Nascimento é referência, assim como a Professora Minervina Cândida Oliveira é para a região Norte.

Mais modesta em termos de trânsito, porém não menos importante na história, Ana Godoy de Souza corta boa parte do Santa Mônica, numa das poucas ruas e avenidas com nomes de mulheres na região Leste.

Até nos espaços mais charmosos, como as praças, eles prevalecem sobre elas. Na somatória de todas as cinco regiões da cidade, há 4,8 vezes mais praças que homenageiam homens (156 identificadas) do que mulheres (32 praças).

Nem mesmo nos nomes mais comuns elas levam a melhor. Nas homenagens masculinas, o nome mais usado é “José”, que batiza nada menos que 150 vias por toda a cidade. Já no feminino, as “Marias” sobressaem, num total de 79 ruas, avenidas e travessas.

A área da educação, onde as mulheres são maioria ampla, é basicamente a única em que as homenagens dadas a homens e mulheres se equiparam. Entre as Escolas Municipais de Educação Infantil (EMEIs), 28 levam nomes de mulheres contra 16 que recebem um nome masculino. Já nas Escolas de Ensino Fundamental do Município, 28 têm denominação masculina e 19, feminina.

A historiadora Jane de Fátima Silva Rodrigues cita que essa situação é uma característica geral existente em grande parte das cidades brasileiras. No entanto, ela esclarece que muitas mulheres foram importantes na construção de Uberlândia, mas não tiveram seus nomes valorizados ao longo dos anos. “Historicamente, as mulheres estiveram presentes desde o início da fundação, só que elas estão no anonimato, assim como nos nomes de ruas”, diz Jane, citando que os principais logradouros públicos de Uberlândia trazem homens como homenageados, com destaque para personalidades nacionais, enquanto que no caso das mulheres as homenagens basicamente se restringem àquelas que se destacaram em âmbito local.

A historiadora fez sua tese de doutorado em cima da questão do feminismo, na qual constatou uma participação ativa da mulher desde a construção do território de Uberlândia. Ela cita como exemplo Francisca Alves Rabelo, a segunda esposa e herdeira de João Pereira da Rocha, que foi o primeiro entrante e dono da primeira Sesmaria. Por volta de 1851, Francesca fez uma venda simbólica de glebas de terras para a Paróquia de Nossa Senhora do Carmo, dando início à construção do povoado.

No início do século XX, Leodegária de Jesus veio de Goiás ministrar aulas em Uberlândia durante três anos. Já na década de 1920, surgem as primeiras presenças da mulher na imprensa, por meio de artigos escritos por Antonieta Villela Marquez e publicados no jornal “A Tribuna”. Em 1925, Yolanda Paes e Maria Estephan lançaram outro período, “A Mariposa”, que também dava visibilidade às causas e interesses das mulheres.

Entre todas essas mulheres citadas acima, nenhuma leva o nome de algum logradouro público em Uberlândia. A única que chegou a ser homenageada foi Antonieta Villela, que deu denominação a uma unidade do Lions Clube que já nem existe mais. “Tivemos muitas mulheres que foram importantes nas artes, na literatura, na educação, no jornalismo e que levaram o nome de Uberlândia para fora, mas foram esquecidas”, diz Jane de Fátima.

Para o historiador Antônio Pereira, essa ausência da mulher na memória da cidade tem relação com a questão do preconceito e também da resistência da própria sociedade. “Até os últimos momentos do império não se colocava mulher na escola. Os pais tinham medo que elas aprendessem a ler e a escrever e passassem a mandar cartas aos namorados”, cita. “Para ter nome de rua só se tivesse algum destaque ou fosse parente de político importante”, completa.
 
CÂMARA MUNICIPAL

Só 13 mulheres ocuparam o cargo de vereadora

Em toda a sua história Uberlândia teve apenas 13 mulheres eleitas para a Câmara Municipal. Das que já deixaram a vida política, cinco permaneceram por apenas um mandato. Liza Prado e Jerônima Carlesso são as que mais tempo passaram no Legislativo – quatro mandatos cada.

Maria Dirce Ribeiro, a única já falecida entre as 13 representantes, foi a primeira mulher a assumir uma cadeira na Câmara. Ela foi eleita em 1954, ou seja, 20 anos depois que o país passou a reconhecer o voto feminino (em 1932, Getúlio Vargas liberou o voto apenas para as funcionárias públicas. O voto feminino só foi universalizado no país em 1934).

Depois de Maria Dirce, a população de Uberlândia só voltou a eleger uma mulher 28 anos depois, em 1982, quando saíram vitoriosas das urnas as candidatas Nilza Alves e Olga Helena.

“Nossa participação foi pequena em número, mas em trabalho foi muito bonita. Nosso papel foi muito importante na época, e até hoje faz história”, diz Olga Helena da Costa, que exerceu mandato entre 1983 a 1988.

Olga lembra que chegou a homenagear algumas mulheres educadoras enquanto exerceu o mandato – foi autora da lei que denominou a Rua Professora Nilda de São José, no bairro Santa Mônica.

Na época em que foi vereadora, a apuração dos votos ainda era feita manualmente, as cédulas eram contadas uma a uma. Ao tentar a reeleição, Olga afirma que foi dormir eleita e amanheceu sem a vaga na Câmara. “Tenho certeza que fui eleita, acompanhei a apuração a noite toda”, assegura a ex-vereadora, que disse não lamentar o fato de “questões internas” no partido ter lhe custado o segundo mandato. “Eu tenho consciência do que fiz. Trabalhei muito e acho que não decepcionei a cidade [...] A vitória talvez não seja só o ganho, mas o fato de sair bem e com a defesa da cidade, que ficou ao meu lado”, diz Olga, que ainda hoje permanece ativa na política, desta vez de bastidores.

Atualmente, a Câmara tem quatro representantes femininas, das quais Pâmela Volp é a primeira vereadora trans eleita na cidade e também no Estado de Minas Gerais. “Eu nasci no corpo masculino mas com a cabeça feminina. Lutei a vida inteira para ser reconhecida [...] Agora, com a decisão recente do Supremo Tribunal Federal (que permite alterar o nome no registro civil sem a necessidade de realizar cirurgia de mudança de sexo), são novas mulheres reconhecidas”, disse Pâmela.

ELEITORADO 

Maioria entre a população, as mulheres também representam a maior parcela do eleitorado uberlandense (52,9%). São 276.191 mulheres com títulos de eleitor ante 237.099 homens. A maior parte do eleitorado feminino está na faixa dos 45 aos 59 anos de idade (66.991 eleitoras). A segunda maior faixa do eleitorado feminino está entre os 25 a 34 anos (56.899 eleitoras).

Na última eleição municipal, em 2016, Uberlândia teve 671 candidatos a vereador. Desse total, 461 (69%) eram homens e 270 (31%), mulheres. Quatro foram eleitas.

Desde 2009, a legislação eleitoral estabelece que, nas eleições proporcionais cada partido ou coligação deverá preencher o mínimo de 30% e o máximo de 70% para candidaturas de cada sexo. Mas, a primeira vez que as candidaturas femininas alcançaram 30% do total de candidaturas no país foi nas eleições de 2012. Naquele ano Uberlândia teve 439 candidaturas masculinas e 202 femininas para vereador. Na ocasião, também foram eleitas quatro vereadoras.
 
Mulheres que já foram eleitas para a Câmara Municipal

- Maria Dirce Ribeiro (1955 a 1958)
- Nilza Alves de Oliveira (1983 a 1988 e 1989 a 1992)
- Olga Helena da Costa (1983-1988)
- Martha de Freitas Azevedo Pannunzio (suplente, exerceu o cargo em 1987 e 1988). Foi reeleita e cumpriu todo o mandato de 1989 a 1992
- Normy Barbosa Firmino (1989 a 1992)
- Liza Prado (1993 a 1996 / 1997 a 2000 / 2001 a 2004 / 2009 a 2012)
- Fátima da Renovação Crismática (1997 a 2000)
- Jerônima Carlesso (2001 a 2004 / 2005 a 2008 / 2009 a 2012 / 2013 a 2016)
- Dra. Flávia Carvalho (2013 a 2016 e 2017 até o momento)
- Glaucia da Saúde (2013 a 2016)
- Michele Bretas (2013 a 2016 e 2017 até o momento)
- Dra. Jussara Matsuda (2017 até o momento)
- Pâmela Volp (2017 até o momento)
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