11/02/2018 às 05h08min - Atualizada em 11/02/2018 às 05h08min

70% dos partos na cidade são cesáreas

Dos mais de 9,5 mil nascimentos registrados em Uberlândia no ano passado, apenas 2,7 mil foram por parto normal

ISABEL GONÇALVES | REPÓRTER
Hospital Municipal é a principal referência em partos normal em Uberlândia / Foto: Marco Crepaldi/Secom PMU

Cerca de 70% dos bebês nascidos em Uberlândia em 2017 são fruto de cesáreas, segundo dados da Secretaria Municipal de Saúde (SMS). Esse número ainda é distante da orientação da Organização Mundial da Saúde (OMS), que indica como ideal uma taxa 10% e 15% dentre todos os partos realizados. Ao todo, os hospitais públicos e particulares de Uberlândia registraram 9.523 partos no ano passado, sendo 2.784 normais e 6.739 cesáreas. Pelo SUS, as gestantes passaram por 2.558 partos normais e 2.928 cesárias. Já na rede privada, 226 bebês nasceram por parto normal e 3.811 por cesáreas. A cidade também contou com 39 partos domiciliares.

Para Maria Aparecida Gomes, assessora técnica da Secretaria de Saúde, apesar do número de cesáreas ainda ser alto, é nítida uma retração nesse cenário e uma maior realização de partos normais na cidade. “Vejo uma melhora dos indicadores no SUS em Uberlândia. No Hospital e Maternidade Municipal, o número de partos normais já é de 50%. Em 2011, ano de abertura do hospital, essa taxa não chegava aos 15%”, disse. Conforme a assessora, no Hospital e Maternidade São Francisco de Paula, que atendia parte dos partos realizados pelo SUS em Uberlândia antes da abertura do Hospital Municipal e já foi extinto, as cesáreas representavam 99% dos procedimentos.

Para que o número de partos normais e humanizados atinja a meta estabelecida pela OMS, Maria Aparecida defende que as faculdades da área de saúde mudem o perfil de ensino, que os hospitais contem com um número maior de enfermeiros obstétricos e apoio de doulas, além do fornecimento de informações sobre as possibilidades de parto durante o pré-natal. “Através de profissionais do SUS que também atuam na rede particular, temos notado um aumento nos partos normais não só nos hospitais públicos da cidade, mas também nos particulares. O intuito é fazer com que as mulheres tenham acesso à informação e acompanhamento que as permitam ter toda a segurança para escolher o tipo de parto que preferem fazer, ao invés de serem induzidas pelos profissionais e conhecidos de que a cesárea é mais segura em todos os casos, o que diferentes estudos mostram não ser verdade”, afirma.

A profissional também reiterou que a Secretária Municipal de Saúde já desenvolve, desde 2011, o Projeto de Estímulo ao Parto Normal (Pepan), que conta com reuniões e orientações nas unidades de saúde, além de uma visita à maternidade do Hospital Municipal. As gestantes conhecem todas as etapas ao darem entrada no hospital no dia de dar à luz. Passam pelas salas de pré-parto (que é onde vão ficar até o nascimento do bebê), conhecem a sala cirúrgica, os leitos de internação e o setor de UTI Neonatal.

HOSPITAL MUNICIPAL

Em muitos casos, gestantes atendidas na rede particular de saúde acabam desistindo do parto normal pelo fato dos médicos cobrarem taxas de disponibilidade para realizar o procedimento. Essa taxa, que custa em torno de R$ 2 mil a R$ 3 mil não é cobrada caso o profissional realize uma cesárea. Por esse motivo, mesmo tendo convênio médico, algumas mulheres optam por realizar o pré-natal e o parto na rede pública de saúde em Uberlândia.

Para Uanisleia Lima, enfermeira obstétrica e mestre em Psicologia, e Kelly Mamede, bacharel em Direito, psicóloga em formação e doula desde 2010, o Hospital e Maternidade Municipal apresenta uma proposta mais humanizada, com equipe médica disposta a realizar partos normais, estrutura física e doulas voluntárias. “Em relação ao Hospital de Clínicas da Universidade Federal de Uberlândia, por exemplo, o Municipal realiza práticas mais voltadas para comprovações científicas e recomendações da Organização Mundial de Saúde (OMS)”, disse Uanisleia Lima.  Segundo Mamede, o volume de profissionais que realizam e encorajam o parto normal no local são determinantes para que o número de cesáreas na cidade diminua.

PLANO DE PARTO

Acompanhamento de doulas é garantido por lei

Em março de 2017, o Governo Federal lançou diretrizes de assistência ao parto normal no Brasil, no intuito de garantir que as mulheres possam elaborar seu próprio plano de parto, escolhendo como, onde e de que forma elas desejam vivenciar esse momento tão importante. O documento também enfatiza que as gestantes deverão ter o direito garantido de serem acompanhadas por doulas - acompanhantes de parto, que oferecem assistência para a mulher no pré-natal, durante o parto e após o nascimento do bebê. Essas profissionais não substituem a presença do médico ou do profissional responsável pelo parto, mas oferecem apoio à mulher e à família.

Conforme essas diretrizes, as gestantes também podem escolher a melhor posição para o parto, dieta livre (com a não obrigatoriedade do jejum) e acesso a alternativas para aliviar a dor, como massagens e imersão em água. Além disso, por lei, as mulheres possuem o direito de serem acompanhadas durante todo o parto.

Já em Uberlândia, desde 2015, a Lei 12.314 garante que maternidades, casas de parto e os estabelecimentos hospitalares congêneres das redes pública e privada permitam a presença de doulas durante todo o período de trabalho de parto e no pós-parto imediato, sempre que solicitada pela gestante ou parturiente.

Para a doula Kelly Mamede, a procura por um parto normal sofre influência direta de questões culturais, mas ela enxerga que as diretrizes do Governo Federal e a lei vigente em Uberlândia impactaram de forma positiva na escolha por procedimentos humanizados e, consequentemente, numa retração no número de cesáreas. “É visível uma maior procura por partos com menos intervenções, além de uma adaptação de alguns médicos, que hoje entendem melhor esse processo de humanização da gestação e do papel das doulas. Esses profissionais mudaram suas práticas no intuito de apoiar a decisão da mulher pelo parto normal e as funções exercidas pela doula”, disse.
 
Neste sentido, Mamede pontua que o fato dos hospitais serem obrigados a permitirem o acompanhamento das doulas é importante, mas a conduta dos médicos também é fundamental para que essa vontade pelo parto normal, em condições que não apresentem riscos para a gestante e o bebê, seja respeitada. “Antes, médicos se esbarravam em regras hospitalares e, apesar da gestante desejar o acompanhamento da doula e haver o consentimento médico, os hospitais podiam não aceitar. Hoje, como existe essa garantia por lei, pesa bem mais o estilo de atendimento do médico, com caráter humanizado ou não”, afirma.

Além de questões físicas, muitas mulheres optam pela cesárea por medo ou falta de informação sobre partos normais e humanizados. Segundo Mamede, em Uberlândia, as gestantes sofrem um “terrorismo” sobre esse processo e acabam acreditando que as cesáreas trazem menos riscos.

Em geral, as mulheres também são levadas a acreditar que os partos normais ou humanizados devem acontecer obrigatoriamente em casa, mas isso varia conforme o plano de parto individual e das condições de cada gestação. Ou seja, a gestante pode optar por um parto domiciliar planejado ou em um hospital.  
 
DIREITO DE ESCOLHA

Profissionais defendem mais informação às gestantes

Para que o parto normal corra da forma mais tranquila possível, profissionais da área defendem o acesso à informação sobre cada etapa da gestação, do nascimento e do pós-parto. Essa preparação pode ser realizada de modo individual, através da equipe contratada por cada mulher, ou em grupo, por meio de cursos e aulas disponibilizadas por empresas de orientação profissional para parto e pós-parto.

A Floreser, fundada por Kelly Mamede e Alessandra Araújo, psicóloga e doula, promove cursos e palestras entre mulheres sobre cuidado e preparação da gestação, parto, pós-parto e relação pais/mães e filhos. “Através da divulgação de informações e de um acompanhamento com doulas e profissionais da área da saúde, a mulher obtém uma satisfação no parto e acontece um empoderamento familiar”, afirma Kelly Mamede.

Atualmente, além da garantia de acompanhamento de doulas em hospitais, as mulheres também encontram mais profissionais que trabalham com partos domiciliares. Segundo Uanisleia Lima, enfermeira obstétrica e mestre em Psicologia, esse momento em casa é realizado de forma segura, buscando autonomia feminina e respeito pelo processo fisiológico da mulher. “Trabalhamos com mulheres em trabalho de parto com risco habitual, ou seja, cujo parto não é de alto risco. Caso haja alguma mudança nesse quadro durante a gravidez ou no decorrer do parto, realizamos uma transferência para os hospitais”, afirma Uanisleia Lima, integrante do grupo PeroLar, também composto pela obstetra e ginecologista Luanda Cabrália e pela enfermeira obstétrica Luana Silva.

A proposta do trio, formado por profissionais da área da saúde, é garantir um acompanhamento durante a gestação, parto e puerpério que respeite a intimidade da mulher, o que muitas vezes não acontece em hospitais, e trazer uma sensação de aconchego, propiciada pelo próprio lar da gestante. “O ‘Inquérito nacional sobre parto e nascimento’, de 2015, mostra que muitas gestantes declaram ter vontade de ter um bebê por parto normal, mas acabam sendo dissuadidas por equipes médicas e familiares. Em muitos casos, mesmo mantendo essa intenção, elas não tem o desejo respeitado nos hospitais”, afirma.

Assim como Kelly Mamede, a enfermeira obstétrica Uanisleia Lima acredita que as mulheres ainda encontram certa resistência por parte de profissionais em Uberlândia quando optam pelo parto normal e humanizado. “Vejo Uberlândia à frente de outras cidades do Brasil, mas alguns médicos ainda relutam contra essas mudanças no cenário obstétrico. Por conta de um histórico com muitas intervenções e desrespeito com as mulheres, existe uma ‘nuvem negra’ sobre o parto normal, que precisa ser desmistificada. As pessoas levam a gestante a acreditar que a cesárea é mais segura para mãe e filho, mas isso não é uma realidade”, afirma.  

Além das doulas voluntárias em hospitais públicos de Uberlândia, a mulher pode contratar as profissionais. De acordo com Mamede, o valor varia entre R$ 800 (profissionais em início de carreira) e R$ 1,2 mil (doulas com mais experiência).
 
FORTALECIMENTO PÉLVICO

Em Uberlândia, gestantes também podem receber um auxílio no âmbito fisioterapêutico. Há quatro anos, as professoras Ana Paula Rezende e Vanessa Baldon, do curso de Fisioterapia da Universidade Federal de Uberlândia (UFU), criaram o Núcleo de Estudos e Pesquisas em Fisioterapia da Mulher (Nufism). Hoje as duas coordenam o grupo, que reúne 18 pessoas, entre alunos de graduação e pós-graduação, que pesquisam e estudam sobre a fisioterapia na saúde da mulher, mais precisamente, na área obstetrícia (ramo da medicina relacionado à reprodução feminina).

O grupo, desde 2013, passou por um aprimoramento na sua linha de estudos, que hoje engloba temas referentes a gestantes, principalmente sobre o assoalho pélvico, que é o períneo feminino, envolvendo a vagina, a uretra e o ânus.

O Nufism tem trabalhado na área fisioterápica que envolve o assoalho pélvico, anterior e posteriormente ao parto. Rezende fica responsável pela reabilitação, quando se tem problemas no períneo. Já Baldon, a outra coordenadora, trabalha na prevenção. “Este é um trabalho pioneiro em Uberlândia de preparação de períneo pro parto, que visa mostrar para as mulheres, auxiliá-las a preparar este períneo de uma maneira natural, para que não tenha lesão”, completa Rezende.

Segundo Rezende, o parto normal geralmente é melhor, tanto para mãe quanto para o bebê, por se tratar de um procedimento natural, e as gestantes têm noção disso. Mas existe um temor em relação às consequências desse tipo de parto para o períneo feminino, principalmente no que se refere à deformação da vagina. “Têm estudos novos, bem recentes, mostrando que não é bem assim. O assoalho pélvico, como qualquer músculo esquelético, é passível de fortalecimento. Você vai na academia e fica forte. Se você fizer um alongamento, você fica flexível. Isso também vale pro assoalho. Ele pode ser forte, ele pode ser flexível”, explica a docente.

Conforme informações de Sissi de Freitas, mestranda que integra o grupo, o projeto é de caráter contínuo e as gestantes precisam começar as atividades antes de completarem 33 semanas de gravidez. “O ideal é começar esse trabalho entre 30 e 33 semanas”, explica. A expectativa é de que os atendimentos sejam realizados pelo Núcleo de estágio do curso a partir de maio.

Para realização da prevenção e reabilitação, o grupo recebe gestantes de várias partes de Uberlândia. Elas são encaminhadas do ambulatório de ginecologia do Hospital de Clínicas de Uberlândia (HCU/UFU), e também por meio de divulgações através de mídias sociais, como Facebook (https://www.facebook.com/nufismufu/) e Instagram. O grupo coleta dados dessas pacientes para as pesquisas científicas.

O grupo publicou um estudo sobre o assoalho pélvico em diferentes trimestres da gestação, no qual se percebeu que, no final da gestação, a força muscular do períneo é mais fraca do que no ínicio. Segundo Rezende, o estudo foi importante para mostrar que a mulher precisa de atendimento nesta área e ter consciência de que o músculo precisa se fortalecer para que não haja complicações futuras.
 
Grupos para cursos e parteiras

Perolar Parteria: http://perolarparteria.com.br/parto-domiciliar-planejado.html
Floreser: https://www.floreserpartoecrias.com/quem-somos
Blog Kelly Mãe e Doula: http://kellymaedoula.blogspot.com.br/p/videos.html
Hospital e Maternidade Dr. Odelmo Leão Carneiro: (34) 3253-5678
Nufism: https://www.facebook.com/nufismufu/
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