21/01/2018 às 05h47min - Atualizada em 21/01/2018 às 05h47min

Novo Fórum muda cenário na Rondon

Imóveis nas proximidades do Palácio da Justiça tiveram valorização de 400% na última década

WALACE TORRES | EDITOR
Edmar investiu numa carretinha onde produz garapa em frente ao Fórum / Foto: Walace Torres
 
O comerciante João Carlos Marquini Filho morou a vida inteira na avenida Rondon Pacheco, na região do bairro Tibery. “Sou da época que não havia nem luz na Rondon”, diz ele, que há 14 anos tem um pet shop na avenida, a um quarteirão do novo Fórum.

A mudança do Palácio da Justiça do Centro de Uberlândia para o bairro Tibery trouxe novas transformações para aquela região. Uma das principais mudanças provavelmente seja a valorização dos imóveis, que tiveram um salto de 400% na década passada, antes mesmo do anúncio da construção da nova sede da Justiça Estadual. “Quando o Fórum começou a ser construído, [aqui] virou uma loucura. Só achava terreno de R$ 480 mil pra cima”, conta João Carlos citando o valor de terrenos com dimensão de 10x40m que chegaram a custar R$ 100 mil há mais de dez anos.

A construção do Fórum teve início em 2011. Em 2013, a obra foi paralisada e o trabalho só retomado em 2015. Nesse intervalo, houve uma estagnação nos investimentos, parte em função da crise e também da indefinição sobre a conclusão da obra.

Hoje, segundo o comerciante, não se acha mais terreno para vender nas imediações por menos de R$ 800 mil. “Dentro de um ano deve melhorar, agora tá muito especulativo”, avalia João Carlos.

O empresário Vilmar Borges tem sentido esse momento de especulação. Ele conta que recebe ao menos duas propostas por dia tanto de pessoas físicas quanto de empresas interessadas em adquirir seu imóvel, que tem uma fachada para a Rondon Pacheco em torno de 50 metros. São dois terrenos anexos onde estão instaladas sua oficina mecânica e uma loja de autopeças, quase de frente o Fórum novo, do outro lado da avenida.

“Estou vendo que meu futuro não vai ser aqui (...) Mas não vou sair tão fácil, tudo que eu tenho foi tirado daqui”, diz Vilmar, que tem o negócio instalado na avenida em sociedade com o irmão há 31 anos.

Nos últimos tempos, o empresário tem recebido oferta de vários segmentos, entre eles, alimentação, banco, hotelaria e profissionais autônomos. Tem investidor de Uberlândia e até fora do Estado.

A atração pelos imóveis na região do Tibery também foi motivada com a chegada de outros órgãos públicos que se instalaram no entorno, como o Teatro Municipal, a nova sede do Dmae, do Ministério Público Federal, Ministério Público Estadual e, em breve, do Procon. A inauguração do Fórum em dezembro, no entanto, reascendeu o interesse de vários segmentos justamente por atrair um maior público, uma vez que o novo prédio unificou o atendimento da Justiça Estadual. Só de funcionários são aproximadamente 460.

“Vou esperar mais uns dois anos para ver como vai ser o movimento daqui pra frente. Até lá, vou ficar quieto, não vou vender”, diz Vilmar Borges.

Imóveis ociosos ou fechados nas proximidades do Fórum já quase não existem mais. O terreno bem em frente, por exemplo, virou estacionamento que começa a funcionar esta semana e tem como principal cliente a OAB ,que firmou convênio para atender seus associados. Somente advogados ativos são 5,6 mil em Uberlândia. “A tendência em breve é a gente construir o nosso estacionamento perto do Fórum”, disse a presidente da OAB Uberlândia, Ângela Parreira Botelho.

A menos de 500 metros do novo Palácio da Justiça o comerciante Clóvis dos Reis Silva faz os últimos retoques no imóvel que alugou para abrir uma quitanda. Ele investiu cerca de R$ 30 mil no novo negócio apostando no fluxo de pessoas trazido pelo Fórum. Clóvis conta que tem outra lanchonete no Centro, a um quarteirão do antigo prédio da Justiça Estadual. “Lá, o movimento caiu 20% com a saída do Fórum”, diz. Agora, ele espera que o novo ponto seja mais atrativo. “Além do pessoal que vem ao Fórum, a gente tem esperança de captar clientes que passam pela Rondon”, diz.

É na sombra, debaixo de uma árvore do outro lado da avenida Rondon Pacheco, bem em frente ao novo Fórum, que o caminhoneiro aposentado Edmar Luiz da Silva escolheu como ponto para sua nova profissão. O agora vendedor ambulante investiu R$ 10,5 mil numa carretinha reboque, devidamente equipada com todo o maquinário para produzir caldo de cana na hora. Ele ainda vende água mineral e água de coco. “Com o Fórum funcionando parcial o movimento já tá bom. Espero que seja melhor ainda a partir do dia 22 quando tudo tiver funcionando”, diz Edmar se referindo ao fim do recesso forense.

MAIS PRÓXIMO

Advogados transferem escritório

A procura por imóveis para locação por profissionais de advocacia também movimentou a região do novo Fórum. Várias casas em ruas próximas à avenida Rondon Pacheco se tornaram escritórios particulares ou de sócios.

Boa parte dos profissionais chegou bem antes da inauguração do novo prédio. Foi o caso do escritório que Manoel Tiago Luiz Neto mantém com outros três sócios numa rua que termina na Rondon Pacheco, a menos de mil metros do Fórum. O escritório que funcionava no bairro Brasil atende desde junho do ano passado no novo endereço. “Aqui facilita o acesso aos processos físicos e às audiências. A gente acredita que a mudança também vai impactar na captação de novos clientes, não só pela localização mas por termos uma sociedade que atende a quatro áreas específicas”, diz Manoel, que é da área criminal e tem outros sócios nas áreas previdenciária, trabalhista e cível.

CENTRO

Prédio antigo ainda não tem destinação

Se nas imediações do novo Fórum a chegada de novos negócios dita o ritmo de desenvolvimento na região, na área central, onde está o prédio antigo, o sentimento é de partida. E também de indefinição. Uns dizem que lá irá abrigar a Faculdade de Direito da UFU. Já teve boato também de uma faculdade particular. Outros ouviram dizer que será um Centro Cultural a ser implantado pelo Município. Tem gente ouvida pela reportagem que garante que o prédio será para arquivo de processos forenses. A destinação para escola também já foi ventilada.

Boatos à parte, o fato é que até o momento não há nada oficial quanto ao destino do imóvel, que é de propriedade do Governo do Estado e ainda está cedido ao Tribunal de Justiça de Minas Gerais (TJMG).

Em contato com o TJMG, a reportagem foi informada de que o prédio será devolvido em breve ao Estado. Já a Secretaria de Estado da Fazenda, responsável pelos imóveis, informou que ainda não há definição sobre a destinação do prédio.

A Prefeitura e a UFU também não oficializou nenhum interesse.

Enquanto o futuro do imóvel é incerto, na redondeza, a alternância de espaços continua. Especialmente envolvendo os profissionais da advocacia. O Edifício Executivo, em frente ao antigo Fórum Abelardo Penna, tem 237 salas das quais cerca de 70% era ocupada por advogados. Na última quarta-feira (17), o quadro de avisos do Edifício tinha 13 salas individuais para alugar e outras duas conjugadas. Todas de advogados que deixaram o prédio. “A procura agora tem sido por profissionais de outros segmentos, como contador, psicólogo”, conta a secretária do condomínio, Suyanne Amélia Medeiros Torres, frisando que até o movimento no prédio, que recebe em média duas mil pessoas por dia, já reduziu.

O estacionamento do Fórum ainda é utilizado pela OAB, mas por pouco tempo. A lanchonete em frente estava em reforma na semana passada e o espaço foi desmembrado em dois ambientes para oferecer mais opção ao público que frequenta o Centro. Já a loja de empadas ao lado tinha como principais clientes os funcionários e pessoas que utilizavam o Fórum, mas a circulação de pessoas na região ajuda a segurar o faturamento.

O ponto de mototáxi já não teve tanta sorte. “Cheguei a fazer 15 corridas por dia, hoje eu faço duas. Tá certo que a Uber também contribuiu para essa redução, mas tinha muito advogado que precisava sair às pressas até o presídio e voltar e fazia a corrida com a gente”, diz Joaci Paulino, um dos cinco mototaxistas. “Ainda bem que arrumei outro serviço de armador. Tô de partida daqui”, completa.
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