31/12/2017 às 05h47min - Atualizada em 31/12/2017 às 05h47min

40% dos universitários da UFU abandonam curso antes do fim

Baixo índice de formação influencia no valor dos repasses à instituição

VINÍCIUS LEMOS | REPÓRTER
Apenas 18% dos alunos se formam no tempo previsto dentro da Universidade Federal de Uberlândia / Foto: Walace Torres

 

Quatro em cada 10 alunos da Universidade Federal de Uberlândia (UFU) abandonam seus cursos, de acordo com a própria instituição. O dado chama ainda mais atenção quando somado ao número de universitários que foram reprovados em seu ciclo acadêmico e não se formaram no tempo previsto, o que representa outros quatro em cada 10 estudantes. Estas questões são vistas com preocupação pela Reitoria, já que levanta questionamentos sobre o baixo cumprimento da finalidade da UFU, além de poder gerar problemas com o orçamento, já que baixos índices de formação levam à redução de repasses às unidades federais.

Os índices mais recentes da UFU sobre evasão e retenção (reprovação) de universitários são de 2016, mas dados da Pró-Reitoria de Graduação (Prograd) dos últimos dois anos mostram uma variação pequena. O acompanhamento mostra ainda que a tendência de 2017 é ficar próximo do que foi registrado desde 2015. Nos últimos dois anos, a evasão, por exemplo, teve crescimento de 1.3 pontos percentuais.

Os dados de 2017 serão fechados apenas em março de 2018, segundo a previsão da Prograd, mas se for feita uma projeção tomando como base os números mais recentes, teremos algo próximo de 8,5 mil universitários desistentes entre 87 cursos oferecidos pela UFU. Atualmente, são cerca de 21 mil universitários nos diversos campi, incluindo as unidades de Uberlândia, Ituiutaba, Patos de Minas e Monte Carmelo. Ainda nessa conta, outros 8 mil estudantes, que deveriam ter se formado em 2017, começarão o próximo período ainda nas cadeiras da UFU por conta de reprovações.

O pró-reitor de Graduação da UFU, Armindo Quillici Neto, afirma que os números de evasão e retenção são grandes e estão ligados a uma série de fatores de origem econômica, social, educacional ou psicológica. Ele explicou que uma das principais dificuldades está na diferença de acompanhamento do conteúdo dado em sala de aula entre parte dos alunos cotistas, sociais ou étnicos, por conta da formação anterior. “Aqui temos duas questões. Parte dos ingressantes cotistas acabou tendo formação de menor qualidade durante sua vida de estudante. Além disso, o corpo docente nem sempre está preparado para lidar com essa situação e dar a atenção devida a estes universitários”, afirmou.

Quillici Neto ainda lembrou que estes são apenas dois pontos que chamam atenção e podem explicar a evasão. Outros pontos citados foram a pressão econômica de quem não pode conciliar estudo e trabalho, a dificuldade de adaptação a um novo tipo de vida estudantil ou mesmo a simples percepção de escolha de um curso.

 

BOLSAS

A perda de cerca de R$ 1 milhão no Plano Nacional de Assistência Estudantil (Pnaes) também atrapalhou na retenção de estudantes. Essas bolsas de assistências de moradia, transporte e alimentação ajudam para que estudantes mais pobres se mantenham estudando.

A perda de recursos do Pnaes foi consequência de um corte ainda maior, que girou perto de 20% do orçamento que vem do Ministério da Educação (MEC), e que também levou ao atendimento de menos universitários.  Segundo Neto, alunos considerados da classe C, antes atendidos por bolsas, estão agora impedidos de receber a ajuda de custeio, em detrimento das classes D e E.

 

PROSSIGA

Entretanto, ao mesmo tempo, a UFU vai investir R$ 200 mil em edital para que os professores se inscrevam e recebam custeio para cursos de acompanhamento de estudantes com dificuldades. O maior interesse são os cursos nos campos de matemática e linguagem, uma vez que matérias que envolvem cálculo e interpretação levam ao maior número de reprovações. Dessa maneira, os cursos que envolvem esses tipos de matérias são os mais problemáticos na UFU em relação às retenções.

O Programa Institucional de Graduação Assistida (Prossiga) é o que fomenta o corpo docente a criar módulos de acompanhamento de universitários. Em 2017, foram oferecidos R$ 125 mil para os cursos de reforço, e para o ano que vem haverá um aporte de R$ 75 mil como forma de tentar reter os problemas de evasão e reprovação na universidade.

 

RETENÇÃO

UFU forma apenas 18% dos estudantes e perde verba

A Universidade Federal de Uberlândia (UFU) teve índice de formação de apenas 18,62% de seus estudantes. Isto quer dizer que de cada 10 pessoas que entraram na instituição anos antes, apenas dois se formaram sem qualquer atraso ou abandono.

Ainda que seja preocupante, de acordo com o pró-reitor de Graduação da UFU, Armindo Quillici Neto, o número é comum em muitas universidades do País. De toda forma, a reprovação leva à perda de parte do orçamento das instituições, uma vez que repasses de custeio são feitos pelo MEC a partir do número de universitários que se formam.

Não é possível calcular exatamente quanto a UFU perde em orçamento por ter formação tão baixa, já que o cálculo não é feito de forma isolada, mas em conjunto com todas as 63 universidades federais. Existe uma matriz de distribuição de recursos (matriz Andifes) que é utilizada pelo MEC para este cálculo. O certo é que com mais formandos, existirão mais repasses.

“Certamente se melhorarmos nosso índice, e todas as outras instituições federais de ensino superior permanecessem onde estão, teríamos uma melhora orçamentária. Mas se todas as federais melhorarem igualmente, não há incremento no orçamento”, afirmou o pró-reitor de Planejamento e Administração, Darizon Alves de Andrade.

 

EVASÃO

Ex-alunos abandonam cursos por falta de tempo

Uma história comum entre os estudantes que deixam a faculdade que cursam é a impossibilidade de se manter exclusivamente voltados para os estudos. Assim foi o caso da hoje estudante de Pedagogia de uma instituição privada, Larissa Nunes. Depois de cursar três anos e meio da faculdade de Matemática da UFU, ela teve que desistir para poder ajudar o marido nos custos de casa, em 2015.

“O curso era integral, o que dificultava trabalhar e estudar ao mesmo tempo. Sou casada e meu marido não estava dando conta de manter a casa sozinho. Eu não tinha bolsa nenhuma”, afirmou.

Mesmo faltando apenas três semestres para se formar, ela não conseguiu se reorganizar e voltar a cursar a faculdade federal. “Com certeza perdi muitas oportunidades. Vejo que alguns colegas da época hoje têm empregos melhores que o meu. Mas foi uma necessidade”, disse.

Para o redator publicitário Diego Araújo, a falta de vocação e de tempo o fizeram deixar de lado as faculdades de Administração e Direito da UFU. Hoje formado em Jornalismo, mas sem exercer diretamente a profissão, ele explica que em 2004, quando começou o curso para se tornar jurista, ingressou na UFU mais pela pressão social de ter que escolher uma faculdade, após a conclusão do Ensino Médio, do que por aptidão. Posteriormente ele se empolgou com a ideia de se formar em Administração por conta da função que exercia no trabalho, mas devido ao interesse de realizar outros estudos e atividades que eram impossibilitados por causa da rotina, em 2013 deixou outro curso da federal de Uberlândia. Isso aconteceu depois de se formar em Jornalismo por uma universidade particular. “Quando saí do Direito foi em crise existencial. Da Administração, foi tranquilo. Apesar de ter feito faculdade três vezes e ter tido boas experiências, acho que o meio acadêmico é um pouco superestimado como opção de vida”, explicou.


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