10/12/2017 às 05h06min - Atualizada em 10/12/2017 às 05h06min

Mototaxistas relatam queda de 80% no volume de corridas

Chegada de aplicativos de transporte em Uberlândia modificou o mercado

VINÍCIUS ROMARIO | REPÓRTER
Ailton José Alves é mototaxista há 14 anos e defende preço único para viagens / Foto: Vinícius Romario

 

Os mototaxistas de Uberlândia afirmam que a procura pelo serviço caiu 80% desde que os aplicativos de transporte, como o Uber, começaram a funcionar na cidade, em setembro do ano passado. De acordo com a classe, algumas opções encontradas para continuar atraindo clientes são oferecer preços mais baratos ou tarifas únicas, mas que isso depende de cada profissional.

Na profissão há 15 anos, José Humberto Francisco Silva pensa em desistir do emprego e mudar de área, mas, devido à falta de oportunidades no país, segue como mototaxista. “Está complicado para a categoria, a queda foi grande para a gente. Eu mesmo pensei em comprar um carro e virar Uber, mas com a renda de agora, que caiu muito, ainda não é possível”, afirmou Silva.

Calmiro Silveira é mototaxista há cerca de 20 anos e também diz que a falta de oportunidades em outras áreas o mantém no emprego. “Tentamos fazer preços melhores. Uma pessoa quer ir do Centro para o São Jorge, zona sul, o preço seria R$ 15, mas o cliente diz que com o Uber ficaria R$ 12. A gente faz o preço, mas muitas vezes eles vão preferir ir de carro.”

Já Ailton José Alves, mototaxista há 14 anos, propõe mais união e mudanças na classe, o que, segundo ele, poderia atrair mais clientes novamente. “Acho que se tivéssemos pontos fixos maiores, com mais companheiros, seria melhor, porque ficam todos espalhados pela cidade.”

Ele diz ainda que a criação de um preço único para todas as viagens também seria benéfico, entre R$ 8 e R$ 10. “Teríamos um lucro menor por viagem, mas faríamos mais viagens, o que seria bom. Mas isso são ideias que agradam a poucos, falta mais união entre a gente”, ressaltou Alves.

 

APLICATIVOS

Atualmente em Uberlândia, além da Uber, funciona também o aplicativo 99POP.

 

CLIENTES

Apesar da queda na procura, algumas pessoas ainda preferem o serviço oferecido pelos motoxistas. O preço e a agilidade são os atrativos.

O estudando Bruno Silva de Tavares utiliza o serviço de mototaxi pelo menos quatro vezes por semana. De acordo com ele, por ter dois empregos, o tempo entre um e outro fica curto e a agilidade da moto é um benefício. “Utilizo Uber, taxi, mototaxi. Não tenho preferência, mas, quando preciso de agilidade, chamo sempre um mototaxista”, afirmou Tavares.

O atendente de telemarketing Flávio Marra diz preferir o mototaxi por causa dos preços oferecidos. “Uso muito para ir do trabalho para a faculdade, e, além de conseguir realizar o trajeto em menos tempo, como uso muito, consigo bons preços também”, disse.

Já a cabeleireira Maria de Lourdes Carvalho contou que faz parte daqueles que optaram por trocar o mototaxi pelo carro chamado por aplicativos. “Eu me sinto mais segura andando de carro. Como a diferença de preço é pequena, chamo sempre pelo aplicativo. Nunca mais usei o serviço dos mototaxistas”, afirmou.

 

REGULAMENTAÇÃO

Serviço segue irregular em Uberlândia

Apesar de haver uma lei federal de 2009 que permite a profissão de mototaxista no país, o serviço segue irregular em Uberlândia.

Desde dezembro de 2014, três editais de licitação para o preenchimento de concessões já foram publicados pela Prefeitura, o último deles em agosto do ano passado, mas todos foram cancelados, ou por falta de adesão ou por pedido da classe que solicitou mudanças no edital. As regras que os profissionais precisam seguir foram definidas.

Segundo o presidente do Sindicato de Transporte Alternativo do Triângulo Mineiro e Alto Paranaíba (Sindtransp-TAP), Heliomar Cândido, uma pesquisa realizada internamente mostrou que a maioria dos profissionais é a favor da regulamentação na cidade. Ele afirma ainda que teve uma conversa no início do ano com o secretário Municipal de Trânsito e Transportes (Settran), Paulo Sérgio Ferreira, sobre a possibilidade de haver um novo edital. Em resposta, de acordo com Cândido, o secretário teria pedido um tempo para resolver outras questões.

“Traria grandes benefícios para o profissional, que iria contribuir com a previdência e teria mais facilidade para se aposentar, além das questões de segurança do trabalho”, afirmou Cândido.

O presidente do Sindtransp-TAP diz ainda que a regularização do serviço também passaria mais confiança para os passageiros. “Hoje ainda há muita desconfiança da população em relação aos mototaxistas, e a regulamentação e o registro do motorista ajudaria a melhorar esse cenário”, ressalta.

Na profissão há quatro anos, Tobias da Silva afirma que era a favor da regulamentação antes da entrada dos aplicativos de transporte na cidade. “Agora, a concorrência está desleal, e com essa regulamentação, a gente que já ganha pouco, teria que contribuir ainda mais com impostos”, opinou.

A reportagem do Diário do Comércio de Uberlândia questionou a Prefeitura sobre a possibilidade de uma nova licitação, mas o Executivo não quis se pronunciar sobre o tema.

 

PÚBLICO SEGMENTADO

Empresária foca no atendimento de mulheres

Visando um segmento novo na cidade, a empresária Shinaydher Alves Ribeiro resolveu abrir, em agosto do ano passado, o Moto Girls, uma equipe de mototaxistas mulheres que também só aceita passageiras. Porém, Shinaydher afirma que ter iniciado o negócio do mesmo momento em que a Uber chegou à cidade impactou negativamente o empreendimento. “Eu estava iniciando um projeto, tentando fidelizar clientes, mas com a entrada do aplicativo ficou muito difícil”, disse.

Ele conta que atualmente, além dela, mais duas mulheres trabalham no Moto Girls, mas que, se não fosse a queda na procura pelo serviço, a equipe seria de pelo menos sete pessoas.

Para tentar atrair as passageiras, a empresária conta que oferece promoções e preços fixos para clientes que utilizam o serviço com frequência. “Outro ponto que nos ajuda são as buscas e entregas de documentos, que têm representado boa parte do nosso rendimento”, afirmou.

A auxiliar de cozinha Larissa Cristina Dantas é umas das passageiras que utilizam o serviço e se fidelizou. “Saio tarde do serviço e procuro uma opção mais barata e segura para ir para casa. Quando soube desse mototaxi de mulheres acionei e agora uso sempre. Passa mais segurança para nós, mulheres”, disse.

 

TAXI E UBER

Taxistas também relatam prejuízos

Um levantamento realizado por economistas da Universidade Federal do Rio Grande (Furg) apontou que a entrada no Uber não afetou a renda média por hora dos taxistas em sete capitais brasileiras, entre elas, Belo Horizonte. Porém, de acordo com o Sindicato dos Taxistas de Uberlândia, a realidade na maior cidade do interior do estado é diferente.

Segundo o vice-presidente do sindicato, Jean Cláudio da Silveira, inicialmente, o aplicativo impactou em uma queda de 70% na renda e corridas dos taxistas de Uberlândia. Ele conta que houve uma retomada no cenário, mas que a demanda pelas corridas de taxi ainda está entre 40% e 50% abaixo em comparação com o período anterior à chegada do Uber na cidade.

“Alinhado a isso, ainda passamos por um período de crise, então, esses dois fatores foram ruins para a classe de maneira geral”, afirmou Silveira.

Ele diz ainda que para atrair o cliente, alguns motoristas vêm se readequando. “É interessante e já notamos que muitos mudaram e melhoraram o procedimento de atendimento ao passageiro, o que é bom e pode fidelizar”.

 

SAIBA MAIS

Regras para regulação do serviço de mototáxi e motofrete

– Ter completado 21 anos

– Possuir habilitação, há pelo menos 2 anos, na categoria A

– Ser aprovado em curso especializado, nos termos da regulamentação do Contran

– Estar vestido com colete de segurança dotado de dispositivos retrorrefletivos

– Ter motocicletas e motonetas autorizadas pela Settran

– Registrar o veículo na categoria de aluguel

– Instalar protetor de motor mata-cachorro no chassi do veículo

– Instalar aparador de linha antena corta-pipa

– Fazer inspeção semestral para verificação dos equipamentos obrigatórios e de segurança

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