07/12/2017 às 12h04min - Atualizada em 07/12/2017 às 12h04min

Mulher mata mãe, rouba bebê e dá quatro versões para o crime

Jovem estava grávida de 8 meses e morreu após parto forçado

ISABEL GONÇALVES E VINÍCIUS LEMOS | REPÓRTERES
Apresentada à imprensa, suspeita culpou ex-amásio por mentira sobre gravidez /Foto: Vinícius Lemos

 

Após apresentar quatro versões diferentes em depoimento, Aline Roberta Fagundes, de 37 anos, suspeita de ter matado uma grávida de 18 anos e aberto a barriga da vítima para tomar o bebê, teve ontem o flagrante ratificado pela Polícia Civil e continua presa. O ex-companheiro dela, que também chegou a ser detido por suposta participação no crime, contudo, foi liberado por falta de provas.

A Delegacia Especializada de Homicídios trabalha com a tese de que toda a ação que levou à morte de Gabrielle Barcelos Silva, na última terça-feira (5), esteja ligada a um tipo de amor doentio da principal suspeita. Até o fechamento desta edição, a filha arrancada da mãe seguia internada na UTI Neonatal do Hospital de Clínicas da Universidade Federal de Uberlândia (HC-UFU) em estado grave.

O crime ocorreu no bairro Monte Hebron, na zona oeste de Uberlândia. Gabrielle Barcelos estava no oitavo mês de gestação e foi atraída até a casa da suspeita com a falsa informação de que receberia doações para o bebê, perto das 10h30 de terça. No local, ela ingeriu um suco com o tranquilizante e passou mal. Foi quando crime teria acontecido, perto das 13h30. A barriga foi aberta com um estilete e o bebê retirado.

Aline Roberta Fagundes foi presa durante a noite no HC-UFU, em posse do bebê, após alegar que havia feito um parto em casa. Os médicos do HC-UFU suspeitaram do parto e acionaram a Polícia Militar (PM), que deslocou militares até o hospital. Questionada, a mulher acabou confessando o crime e alegou que o marido, que também estava no hospital, a auxiliou. Ele foi preso, mas negou participação

O corpo de Gabrielle Barcelos foi encontrado pelo filho da suspeita. Ele acionou a PM após chegar em casa, ver sangue espalhado pelos cômodos e encontrar a garota no quintal.  O corpo da vítima estava em uma vala nos fundos da residência, encoberto por um colchão, uma bicicleta e um carrinho de bebê velho.

 

SUPEITA MUDA DEPOIMENTO

O delegado à frente do caso, Rafael Herrera, afirmou que o relato de Aline Roberta Fagundes foi mudado constantemente entre conversas com a PM e as oitivas na Delegacia de Homicídios. No último deles, a quarta versão apresentada à Polícia Civil, ela disse que tudo foi arquitetado pelo ex-marido, que a teria obrigado a mentir que estava grávida e, nas últimas três semanas, procurava por uma gestante para roubar o bebê e validar a história.

Apresentada à imprensa, Aline Roberta disse que o ex-marido criara a fantasia de que ela esteve grávida de gêmeos. O objetivo seria competir com a irmã dele, que tem dois filhos, e ter a atenção da mãe. “Nunca estive grávida de gêmeos, eu menti a pedido dele. Quando falamos que tínhamos perdido os gêmeos, a mãe ficou fria (com o filho), ele mandou que falasse que perdi apenas um e que ainda tinha filha viva”, disse a suspeita.

Sobre o assassinato, a mulher ainda afirmou que um terceiro homem, um suposto traficante do bairro Dom Almir conhecido apenas como Neguinho, foi quem matou a jovem supostamente asfixiada, enquanto ela estava dopada, e retirou o bebê. O ex-marido estaria junto e era amigo de Neguinho.

 

FOTO DO BEBÊ

O delegado Rafael Herrera afirmou que tudo teria sido premeditado pela suspeita nas últimas semanas. “No nosso entender, Aline Roberta manipulou toda a situação para tentar com que essa empreitada maluca e criminosa dela desse certo. Acreditamos que ela o envolveu (o ex-amásio) dentro de um amor doentio. Inventou um golpe da barriga e para sustentar essa mentira raptou a grávida”, afirmou.

Herrera ainda disse que, durante a tarde de terça, a suspeita mandou mensagens para o ex-marido como se estivesse em trabalho de parto, inclusive com a foto do bebê que havia acabado de retirar da vítima, informando ser o filho deles. Ela será indiciada pelos crimes de homicídio qualificado, aborto sem consentimento da gestante e ocultação de cadáver.

A Polícia Civil rebate a versão final da suspeita e disse que a cena do crime não tem indícios da presença de um terceiro homem e nem do ex-marido de Aline Roberta Fagundes, de acordo com levantamentos da perícia. O que chama a atenção é que, de acordo com o laudo inicial do médico legista, Gabrielle Barcelos morreu devido à hemorragia do corte no ventre. Ela não apresentava lesões na garganta, descartando, assim, a hipótese de enforcamento.

 

“BIBI”

Gabrielle Barcelos revelou a gravidez não esperada aos quatro meses de gestação. Tinha outros quatros irmãos, sendo três mulheres e um homem. No final de 2016 tinha conseguido ingressar na faculdade de Engenharia Agronômica em uma universidade particular de Uberlândia. A gravidez adiou os planos da jovem, que focaria os gastos com o cuidado de Sophia Gabrielle, nome já escolhido para a bebê que esperava.

Até a terça-feira, ela morava com o pai de Sophia e a família dele, no bairro Monte Hebron. Antes disso, viveu a maior parte dos seus 18 anos no bairro São Jorge, onde estudou e terminara recentemente o Ensino Médio na escola estadual mais próxima de casa. Durante esse período conviveu de maneira muito próxima com a prima Jéssica Cristina Barcelos e com a amiga Michelly Mariano, que conversaram com a reportagem do Diário do Comércio durante o velório da jovem na tarde de quarta-feira (6).

“Ela era conhecida por todo mundo como Bibi. Era uma criança com outra criança, por ser feliz. Não foi planejado, mas ela se voltou por completo para isso (gravidez)”, disse Michelly Mariano sobre a amiga de infância. Descrita como alegre, humilde e que gostava de dançar, a prima relembrou o amor e vontade que ela tinha de ser mãe. “Um dia antes dela falecer, postou (em rede social) uma foto com contagem regressiva para o nascimento da Sophia. Faltavam 28 dias”, afirmou Jéssica Barcelos.

 

CASO SEMELHANTE

Em 2015, Greiciara Belo Vieira, de 19 anos, foi morta no nono mês de gravidez em Ituiutaba. Ela morava no bairro Minas Gerais, zona norte de Uberlândia, e foi atraída para a cidade no Pontal do Triângulo com a falsa promessa de que receberia roupas para sua filha.  

O corpo foi encontrado em uma represa na zona rural de Ituiutaba, com um grande corte na barriga. Ela estava amarrada e dentro da região abdominal da vítima havia uma pedra de aproximadamente 10 kg.  Seis pessoas foram presas e duas já foram julgadas. Shirley Benfica, apontada como a mandante do crime, e a enfermeira Jacira Santos de Oliveira, que teria realizado o parto clandestino, ainda estão entre as que aguardam julgamento. A bebê foi encontrada com vida e ficou sob a tutela da avó materna. 


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