26/11/2017 às 05h29min - Atualizada em 26/11/2017 às 05h29min

Data promove debate sobre violência contra a mulher

Cerca de 50 agressores são presos todo mês em Uberlândia

VINÍCIUS ROMARIO | REPÓRTER
Delegada da Mulher em Uberlândia afirma que lesão corporal e ameaça correspondem a 70% das notificações / Foto: Vinícius Romario

 

Ontem foi celebrado o Dia Internacional da Não Violência Contra a Mulher, data que tem ganhando cada vez mais importância diante dos quadros de violência de gênero registrados em todo mundo. Para se ter uma ideia, apenas em Uberlândia são instaurados cerca de 100 inquéritos para investigar casos de violência contra mulher, com a prisão de 50 agressores em flagrante. Os dados são da Polícia Civil.

O número de inquéritos abertos, no entanto, é muito menor que o de registros de violência de gênero. Uma pesquisa divulgada neste ano pela Secretaria de Estado de Segurança Pública (Sesp), que contempla o último triênio, mostra que na 9ª Região Integrada de Segurança Pública (9ª Risp), que integra Uberlândia e outras 17 cidades da região, foram registrados 5.769 casos de violência doméstica ou familiar contra mulheres em 2014. Em 2015 foram 5.130 casos, e em 2016, 4.841.

Os números apontam queda a cada ano, o que ajuda a manter a região de Uberlândia com os menores índices do estado, com média anual de 445 registros de Maria da Penha a cada 100 mil habitantes. Em contrapartida, a região de Uberaba é, pelo segundo ano consecutivo, a que apresenta maior número de registros (796 a cada 100 mil habitantes).

Dentro desses casos, as violências físicas (lesão corporal, homicídio, tortura e agressão) e psicológicas (abandono material, ameaça, atrito verbal, constrangimento ilegal, maus tratos, entre outras) são as mais registradas em todas as Risps do estado. Na região de Uberlândia foram contabilizados 2.481 casos de violência física e 1.916 casos de violência psicológica em 2016.

“Crimes de ameaças e lesão corporal correspondem por 70% de todas as denúncias que recebemos”, afirmou a delegada da Mulher da Polícia Civil de Uberlândia, Ana Cristina Bernardes.

Em relação aos homicídios, na região de Uberlândia foram 31 mulheres assassinadas em 2014, 28 em 2015, e 20, em 2016. No estado foram 611 mulheres assassinadas em 2014, 590 em 2015 e 494 em 2016.

 

PERFIL DO AGRESSOR

O estudo da Sesp também traz uma análise dos perfis das mulheres vítimas de violência doméstica e familiar no Estado. Em aproximadamente 38% dos casos os agressores são cônjuges e companheiros, e, em 31%, ex-cônjuges e ex-companheiros. A maior parte das vítimas são pardas (46%), seguidas das brancas (33%).

Quando a escolaridade das vítimas é avaliada, pode-se afirmar que 23% delas possuem ensino fundamental incompleto, seguido de 19% de alfabetizadas e 18% que possuem ensino médio completo. A faixa etária prevalecente entre as mulheres vítimas, com 30%, é de 25 a 34 anos de idade.

 

ATENDIMENTOS

Uberlândia conta com um Centro Integrado de Atendimento à Mulher, onde trabalham em conjunto servidores municipais, Defensoria Pública e a Delegacia da Mulher. Segundo Ana Cristina Bernardes, o atendimento psicossocial oferecido no local tem papel muito importante na resolução de alguns casos, como em crimes de ameaça, por exemplo.

“Nessa situação a gente chama as partes e tenta uma resolução sem que seja necessário o inquérito policial. Tanto o agressor, quanto a vítima passam por atendimento com psicólogo e outros profissionais. Geralmente 90% dos casos nessa situação saem daqui sem que seja necessária a ação criminal”, afirmou.

 

SOS MULHERES

ONG promove 3º simpósio sobre violência de gênero

A ONG SOS Mulheres realizou na última sexta-feira (24), na Universidade Federal de Uberlândia (UFU), o 3º Simpósio Regional com o tema “Quem cala, consente? Afetos, poderes e políticas sobre violência de gênero”, com o objetivo de aproximar a sociedade da temática da violência familiar.

Presidente da entidade, que atende cerca de 2 mil pessoas por ano, Cláudia Guerra afirma que a violência de gênero precisa ser cada vez mais discutida e abordada. “O Brasil é hoje o 5º no ranking mundial de feminicídio e assassinato de mulheres por questão de gênero, portanto trata-se de uma questão de educação formal e informal”, diz.

Sobre o Dia Internacional da Não Violência Contra a Mulher, celebrado ontem, Cláudia afirma que é um momento de reflexão, mas que o tema precisa ser trabalhado durante todo o ano. Ele ressalta ainda que é importante que haja mais divulgação sobre o problema na mídia.

“Apenas um terço das mulheres que são vítimas de violência buscam ajuda. Nos casos de estupro é menor ainda, somente 10%. Então devemos trabalhar para que as mulheres tenham cada vez mais condições de saírem dessas situações.”

O evento também contou com a palestra da presidente da Associação Brasileira de Antropologia, Lia Zanotta Machado. A antropóloga falou sobre os trabalhos realizados por ela em juizados e com mulheres vítimas de violência.

“Atualmente falamos muito sobre como as mulheres ficam em relações de violência, quando na verdade deveríamos perguntar por que os homens são violentos”, questiona Lia.

Ela diz também que o afeto, muitas vezes, é o motivo para manter mulheres em relações em que são agredidas. “Muitas não denunciam ou quando denunciam ficam sempre assoladas pelo medo. Também pensam afetivamente, se vão perder o companheiro, o pai de seus filhos. É uma relação muito complexa”, afirma.

Em relação a isso, a antropóloga fala que a Lei Maria da Penha tem papel importante. “Não é uma Lei apenas punitiva, mas também estabelece que os agressores podem ser encaminhados para atendimentos psicossociais, para que possam trabalhar maneiras de, talvez, trazer paz para aquele relacionamento. Mas, o enfrentamento a violência é o principal caminho hoje”, ressalta.

A mestranda em psicologia Raianne Silva Calixto esteve presente no simpósio. Para ela, é importante que o tema seja cada vez mais debatido. “Debates como esses incentivam novas e boas práticas, além de ajudar em uma causa que deve ter mais espaço dentro das discussões atuais”, disse.

 


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