20/11/2017 às 13h26min - Atualizada em 20/11/2017 às 13h26min

Dia da Consciência Negra dá visibilidade à questão racial

Em Uberlândia e em mais de mil cidades brasileiras a data é feriado

LAURA FERNANDES | APRIMORAMENTO PROFISSIONAL
Dandara Castro faz parte do Movimento Negro Organizado em Uberlândia / Foto: Arquivo Pessoal

 

O Dia da Consciência Negra, celebrado hoje, é um feriado de luta e mobilização. Instituído em âmbito nacional em 2011, é considerado feriado em mais de mil cidades brasileiras, sendo ao menos 13 delas mineiras.

A data é lembrada sempre em 20 de novembro, data da morte de Zumbi dos Palmares, liderança do Quilombo dos Palmares, para simbolizar a luta do negro contra a escravidão e evidenciar o debate racial nos diferentes âmbitos da sociedade.

Para entender a representação deste dia, a reportagem do Diário do Comércio conversou com alguns representantes do Movimento Negro Organizado de Uberlândia.

De acordo com os entrevistados, 20 de novembro é uma data que traz reflexões sobre o diverso e a diversidade, com o intuito de discutir a cultura, a luta e a resistência do povo negro. Eles explicam que, apesar de ter um dia especial, o trabalho contra o preconceito, o racismo e a busca pela valorização identitária são lutas diárias e que já acontecem há anos.

Ainda assim, José Amaral Neto, jornalista e coordenador do Movimento de Articulação e Integração Popular (Maipo) de Uberlândia, afirma que falta entendimento da população sobre a representatividade desta data. “Nós queremos um feriado para a Consciência Negra para melhorar o impacto junto ao trabalho que fazemos (as organizações) contra o preconceito e o racismo, mas muito mais do que isso, nós queremos valorizar a identidade brasileira”, explica.

Conforme o coordenador do Maipo, a luta segue objetivando mudanças. "Enquanto nós não tivermos esse debate em aberto, as pessoas vão ter uma visão diferente do que acontece, que é o fato da gente sempre falar que existe uma democracia racial no Brasil e isso não é verdade", afirma.

Dandara Tonantzin Silva Castro é pedagoga pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU), membro do Coletivo Nacional de Juventude Negra - Enegrecer e conselheira nacional de Promoção da Igualdade Racial e acredita que algumas formas de celebrar a Consciência Negra não contemplam as necessidades por trás da homenagem. “O dia 20 de novembro não é fazer desfile de beleza negra e samba. 20 de novembro é dia de luta, de resistência, de celebrar e dizer que Zumbi dos Palmares ainda vive em nós”, explica

Ela concorda que falta conhecimento da população sobre a representação desta data como um momento de reflexão, combate ao racismo e promoção da igualdade racial. Dandara conta que este é um desafio diário e que medidas como conscientização, reconstrução de valores, assim como políticas públicas de acompanhamento e monitoramento social são mecanismos que podem auxiliar para a mudança dessa realidade.

Apesar dos desafios, ela percebe que hoje os jovens estão cada vez mais engajados na luta contra o preconceito, tanto em debates nas mídias, quanto em movimentos e no próprio poder jurídico – o que ela credita como resultado das gerações passadas. “Nosso papel enquanto renovação geracional é não deixar a luta acabar, e que possamos ser peça fundamental dessa construção coletiva”, defende.

A pedagoga afirma que o tema tem que ser mais discutido nas escolas e que a discussão da Consciência Negra e da África deve acontecer ao longo de todo o ano letivo e em todas as disciplinas, sem restrição de data. “Acredito que precisamos aprofundar mais esses debates na educação, porque ela é a principal ferramenta de mudar o mundo”, explica Dandara, referindo-se à baixa aplicabilidade da lei que prevê o ensino da história e cultura afro-brasileira nas escolas.

Jeremias Brasileiro, integrante do Associação Religiosa e Cultural Irmandade do Rosário de Uberlândia há mais de 20 anos, também acredita ser essencial trazer essas discussões ao longo do ano. Ele afirma, inclusive, que procura sempre em novembro e maio (mês de comemoração da Abolição da Escravatura) se ausentar de discussões da temática “justamente para quebrar essa ideia de que chegou novembro ou maio é mês de negro”. “As escolas querem fazer tudo nesses meses e esquecem que esse debate é uma discussão do cotidiano”, diz.

Brasileiro afirma que há avanços, mas que ainda há várias frentes de luta a serem mantidas: educação, trabalho e cultura. “Temos que pensar o que estamos deixando para uma geração futura. Ou será que o tempo todo nós vamos reproduzir esse preconceito?”, finaliza.

 

FERIADO QUESTIONADO

Desde o ano passado, o Dia da Consciência Negra é feriado municipal em Uberlândia – em 2016 o dia foi um domingo. Neste ano, a Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg) ingressou com uma ação no Tribunal de Justiça mineiro (TJMG) questionando a constitucionalidade da Lei Municipal 12.441/2016 que instituiu o feriado na cidade, mas até o momento ela não foi julgada. A entidade sustenta que, ao editar a referida lei, o Município extrapolou sua competência por legislar sobre direito do trabalho, o que é competência privativa da União.

 

ATIVIDADES PROGRAMADAS

Em comemoração ao Dia da Consciência Negra, hoje (20) haverá apresentação musical, Feira Afro empreendedora, Tendas Pedagógicas e Prêmio Pena Branca e Xavantinho no Terreirão do Samba, em Uberlândia, a partir das 11h. Ao longo da semana acontece várias atividades no Center Shopping em celebração à Consciência Negra. Todas as 14 organizações que congregam o Movimento Negro Organizado em Uberlândia estão envolvidas nas atividades.


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