22/10/2017 às 05h38min - Atualizada em 22/10/2017 às 05h38min

10,5% dos alunos abandonam a escola

Em Uberlândia, número representa cerca de 4,7 mil desistências no ensino médio; no País, taxa é de 27%

LAURA FERNANDES | APRIMORAMENTO PROFISSIONAL
Vitor Jesus é estudante do 3° ano e já pensou em abandonar a escola / Foto: Laura Fernandes

 

A cada ano, quase 3 milhões de jovens na faixa etária entre 15 e 17 anos abandonam a escola no Brasil. A taxa nacional de abandono da sala de aula nesta fase representa 27% dos estudantes. Isto é o que aponta o estudo Políticas Públicas para Redução do Abandono e Evasão Escolar de Jovens, elaborado pelo Ensino Superior em Negócios, Direito e Engenharia (Insper) e divulgado nesta semana. Em Uberlândia, os dados mais recentes são do Censo Escolar realizado em 2015, que apontava uma taxa de abandono de 10,5%, o que representa 4.725 alunos. 

Em Minas Gerais, ainda de acordo com o Censo Escolar realizado em 2015, a taxa de abandono no Ensino Médio do Estado é de 8,8%, inferior à taxa registrada em Uberlândia no mesmo período. 

Na cidade, a Escola Estadual Messias Pedreiro, localizada no bairro Cazeca, setor central, tem o maior número de estudantes matriculados no ensino médio. De acordo com a diretora da instituição, Mirian Antônia dos Santos, são 2.016 alunos distribuídos em turmas do matutino e noturno e que apresentam, devido à mudança de período, variações da taxa de abandono. No turno da manhã, o número de alunos que deixam de frequentar a escola é de aproximadamente 3%. Já no turno da noite, a taxa varia entre 10% e 12%, segundo Mirian, devido, principalmente, ao acúmulo de atividades extraescolares, uma vez que grande parte dos alunos desse período tem a necessidade de trabalhar.

O superintendente regional de ensino de Uberlândia, Jakes Paulo Félix dos Santos, acredita que a situação econômica força o jovem a se inserir no mercado de trabalho para complementar a renda familiar, por isso “muitos jovens procuram um emprego ao contrário de frequentar a escola”, argumenta ele.

Santos acredita que os jovens são interessados no estudo, mas como a maioria precisa fazer uma opção entre trabalhar e estudar ou mesmo deslocar para ir às escolas, acabam desestimulados. “Alguns fatores, principalmente econômicos, acabam forçando este abandono”, explica o superintendente, citando ainda que bullying, a LGBTfobia e o racismo também afastam os jovens da escola.

Para trabalhar as questões que pesam no abandono do escolar, Santos aponta alguns dos projetos da secretaria de Estado e Educação (SEE) implementados nas escolas: o Programa de Convivência Democrática, que visa fazer com que a instituição seja um espaço que aceite todas as pessoas dentro das suas diferenças; a “Virada Cultural”, que propõe entender como é a escola que as juventudes desejam e como ela pode ser construída para garantir a sua permanência e o seu direito à aprendizagem;  e o projeto de adesão a esta última proposta, a campanha “Vem”, que visa o chamamento para os jovens que se encontram fora da escola e desejam retomar os estudos.

O superintendente também afirma que os projetos tiveram bons resultados, refletindo em uma ampliação das matrículas do Ensino Médio e Ensino e Jovens e Adultos (EJA) de mais de 11%. “Tivemos um acréscimo muito grande nas turmas do EJA, tanto no ensino fundamental quanto no ensino médio, trazendo esses jovens de volta para a escola”, afirma.

 

ACOMPANHAMENTO

O superintendente explica que a Secretaria de Estado e Educação tem mecanismos legais de parceria com o Conselho Tutelar e Ministério Público da Infância e Juventude para conter a evasão escolar. Desta forma, em caso de abandono escolar dos alunos, os diretores das escolas entram em contato primeiramente com os pais e, caso o problema não seja resolvido, notificam ao Conselho Tutelar e ao Ministério Público de que estes alunos estão ausentes. 

Após a orientação e procedimentos praticados pelo Conselho Tutelar, caso percebam que não estão sendo cumpridas as solicitações, a família é denunciada junto à Delegacia de Proteção à Criança e ao Adolescente sob argumentação de abandono intelectual e responde a processo judicial respondendo à legislação em vigor. 

Santos afirma que os resultados são favoráveis após esse procedimento. “A partir do momento que são notificados (os pais) a taxa de retorno é muito grande”, diz.

 

INSTITUIÇÃO

Vice-diretora considera ausência familiar um complicador

A Escola Estadual Bueno Brandão, localizada no Centro de Uberlândia, apresenta taxa de abando de alunos do Ensino Médio de 4%, de um total aproximado de 1,1 mil alunos matriculados. 

Lá, a maior parte dos abandonos acontece no 1°ano do colegial. A vice-diretora da escola, Maristela Borges de Moraes, acredita que a maior incidência do abandono está neste período do ensino médio por causa da acentuada cobrança comparada ao ensino fundamental. “No 1° ano eles estão muito crus e percebem mais dificuldades. No 2°ano já percebem que conseguem e permanecem”, explica.

Maristela afirma que os alunos não costumam procurar orientação antes de abandonarem a escola, o que dificulta o contato para saber os motivos que os levaram à desistência. Ainda assim, a vice-diretora conta que enquanto os estudantes estão frequentando o colégio os professores abordam a questão do abandono escolar e da importância da educação, trabalhando inclusive textos com essa temática. 

Além das orientações, Maristela conta que desenvolve na escola o projeto da secretaria estadual de Educação “Vem”, na tentativa de ajudar os alunos evadidos. A proposta é desenvolvida na escola aos sábados, mas há baixa adesão dos estudantes e aqueles que participam das atividades são alunos regulares e não evadidos. “Enquanto a família não acompanhar, esse menino só vai voltar à escola quando todas as empresas exigirem frequência escolar”, defende Maristela sobre a possível solução para os alunos menores de idade evadidos que se encontram no mercado de trabalho.

A vice-diretora afirma que procura sempre orientar os pais sobre o comportamento irregular e ausência do filho à escola, mas muitas vezes esse contato não surte efeito. Esse descompromisso dos responsáveis pelos alunos, segundo ela, talvez seja o principal fator do abandono escolar. “O adolescente muitas vezes prefere estar na rua a frequentar a escola. Mas onde estão esses pais que não obrigam esses filhos a vir?”, argumenta ela, que ainda afirma que a intimação tem impactos positivos. “Se o pai exige que o filho venha, o menino brilha”, defende.

 

DESISTÊNCIA

Estudantes explicam os motivos do abandono

Naydiane Cristina Rosa de Oliveira tem 17 anos e no ano passado abandonou o 1° ano do ensino médio. A jovem alega que o afastamento da escola se deu por dificuldades com as notas e maior exigência cobrada nesse novo período. "As matérias comuns estavam mais complicadas. Quando chegou o 3° bimestre, fiz as contas para ver se tinha passado, só que fiquei em algumas disciplinas e não fui mais para a escola", conta. 

A adolescente diz que sua mãe chamou bastante sua atenção sobre essa decisão e disse que a jovem não arrumaria emprego sem estudo, mas nunca a obrigou a voltar para a escola. "Ela disse que a escolha é minha e que é o meu futuro que está em jogo", afirmou a jovem, que pretende voltar para a escola no ano que vem para concluir o colegial e iniciar os cursos de Biologia ou Música.

Já Vitor César de Jesus tem 18 anos e termina o ensino médio este ano. Ele conta que já pensou em largar os estudos para trabalhar e deixar de depender financeiramente dos pais, mas o apoio da família e sua pretensão em seguir os estudos pesaram na decisão. “Pensei no meu futuro e para isso preciso permanecer”, diz ele Vitor, que pretende cursar Educação Física ou Medicina. 

O estudante afirma que vários amigos deixaram a escola para procurar emprego e diz que conversou com alguns deles orientando sobre a necessidade da educação, explicando que “na escola, se você conseguir concluir tudo você consegue um futuro, no serviço você não quanto tempo vai ficar”. Ainda assim, o adolescente disse entender a necessidade do trabalho na vida de alguns desses amigos.


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