24/09/2017 às 05h25min - Atualizada em 24/09/2017 às 05h25min

Jacaré faz Futel suspender esportes na lagoa

Animal deve estar com mais de dois metros de comprimento e deve ser capturado em breve

WALACE TORRES | EDITOR
Jacaré-tinga capturado em 2015 na lagoa era macho e tinha mais de dois metros de comprimento / Foto: Arquivo Pessoal/Divulgação

 

Durante anos, a suspeita da presença de um jacaré na lagoa do Parque do Sabiá despertou curiosidades e fomentou a dúvida a respeito de ser verdade ou se tratar de mais uma lenda urbana. O Diário do Comércio foi atrás da história e depois de ouvir relatos e depoimentos constatou que o fato é real. E mais do que isso: o jacaré da lagoa não esteve sozinho. Eram pelo menos dois, e dos grandes. Um deles foi capturado em 2015 medindo mais de dois metros de comprimento. O outro continua por lá e, até onde se imagina, deve ter a mesma dimensão do antigo companheiro. 

A preocupação com a presença do bichano de boca grande é o principal motivo que levou a Fundação Uberlandense de Turismo, Esporte e Lazer (Futel) a proibir temporariamente a prática de esporte aquático com remo na lagoa. Desde novembro de 2015, adeptos do caiaque e do stand up paddle usavam a estrutura aquática do parque em passeios recreativos, treinos e até atividades sociais. Foi se preparando para uma dessas atividades que um grupo de idosos soube da novidade do habitante sinistro. Ao pedir autorização para levar um projeto social em parceria com um grupo de caiaqueiros, a turma teve o pedido negado junto com a notícia de que um jacaré fora visto por populares, inclusive tendo se aproximado de pedalinhos usados em passeios pela lagoa.

“Ano passado eles [idosos] apaixonaram pelo passeio de caiaque. Este ano, queriam novamente, mas havia o receio de que um idoso se assuste e caia na água”, diz uma integrante do projeto que pediu para não ser identificada, mas afirmou entender a situação. “Desta vez, vamos ficar só com a caminhada”.

De acordo com André Quagliatto, professor da Faculdade de Veterinária e coordenador do setor de animais silvestres da Universidade Federal de Uberlândia, a espécie que habita a lagoa é um jacaretinga ou jacaré-tinga, natural da bacia amazônica. Foi André quem capturou o primeiro jacaré, há dois anos, a pedido da própria Futel. Na época havia a preocupação por causa de um festival de pesca que atrairia milhares de praticantes. A equipe percorreu todo o lago e não encontrou nenhum outro jacaré.

O tempo passou e agora o veterinário foi chamado novamente depois que a notícia de um segundo jacaré, com as mesmas características, andou assustando os visitantes. O Ibama e o próprio zoológico do parque já deram autorização para a captura. O veterinário conta que o animal não tem o hábito de sair atacando as pessoas, a menos que seja provocado ou esteja à procura de alimento. Mas, neste caso, a presença do jacaré se tornou uma ameaça. “Por estar lá há muito tempo, ele adotou o lago como território e se entender que alguém ameaça o seu abrigo, ele pode reagir”, diz Quagliatto. “Como ele já perdeu o medo e tem relato de pessoas que disseram que o jacaré se aproximou dos pedalinhos, pode acontecer de alguém estar pescando e o animal se aproximar e atacar. Como medida preventiva é bom fazer a captura”, diz.

Em julho do ano passado, quando ainda não se tinha notícias de um segundo jacaré, nadadores da delegação do Egito usaram a lagoa do Sabiá para treinos visando as Olimpíadas. Foram várias voltas diárias de braçadas acompanhadas por um barco com salva-vidas e Corpo de Bombeiros. Na época, um dos acompanhantes chegou a dizer, em tom de brincadeira, para ter cuidado com o jacaré, sem saber que o predador poderia estar à espreita.

 

FUGA

Os jacarés foram trazidos da bacia amazônica para o zoológico do Parque do Sabiá. Há alguns anos, durante um forte temporal, a água invadiu a área dos animais e alguns jacarés conseguiram fugir. Desde então, eles cresceram e se adaptaram ao novo habitat. O veterinário André Quagliatto acredita que o jacaré ainda à solta seja um macho, assim como o outro que ele capturou. “O macho cresce mais e defende mais o seu território, por isso apresenta maior risco”, diz. As fêmeas, geralmente, chegam a 1,4 metro de comprimento, enquanto o macho pode chegar a 2,5 metros.

O jacaré-tinga tem uma alimentação bem diversificada. Entre suas presas estão espécies de crustáceos, peixes, anfíbios, répteis, aves e pequenos mamíferos. A maioria pode ser encontrada na lagoa do Sabiá e suas margens.

Apesar de estar há tanto tempo na lagoa, o jacaré raramente é avistado. O veterinário diz que ele deve passar boa parte do tempo na água e na margem contrária à entrada pelo bairro Santa Mônica, onde não há acesso de pessoas e a mata fechada ajuda na caça e no esconderijo.

“O local onde tende a se refugiar é no lago. O jacaré fica fora da água para se aquecer ao sol e aumentar o metabolismo e sair em busca de alimento”, diz André.

Sobre a possibilidade de um jacaré dessa espécie vir a atacar um caiaque, o veterinário disse que, sendo um macho, é possível que ele consiga virar uma embarcação. “Desde que ele se sinta ameaçado e as pessoas se aproximem”, disse. Em relação ao risco de deixar a área verde e invadir a pista de caminhada, o veterinário considera pouco provável a possibilidade. “Não é natural ele ir para o seco, no asfalto, onde não tem muita agilidade. Ele vai tentar fugir desse movimento [de pessoas]. Ele se sente mais à vontade dentro d’água”.

A data da captura ainda não está confirmada. Por enquanto, a recomendação é evitar a aproximação caso alguém o aviste por perto. “Pelo levantamento que fizemos e os avistamentos, parece que só tem mais um”, diz André Quagliatto.

 

PARQUE

Sempre teve jacaré na lagoa, diz ex-funcionário

Se para muita gente a presença de um jacaré na lagoa do Parque do Sabiá é algo estranho, para um funcionário aposentado da Futel esse convívio vem de anos. Sem se identificar, ele conta que há muitos anos era comum avistar jacarés tomando sol na estrutura erguida no meio da represa. “Já cheguei a ver três, quatro jacarés tomando sol no pirulito quando o nível da lagoa era mais alto. Hoje, por segurança, tá mais baixo e não tem como subir”, diz.

O  ex-funcionário confirma a história de que os jacarés-tinga escaparam do zoológico durante um temporal que alagou o cativeiro. Diz ainda que nas lagoas menores, formadas pelas nascentes dentro do parque, sempre teve jacaré. “Lá pra cima sempre teve. Só que era jacaré menor. Teve que capturar porque eles estavam comendo os patos”, diz.

O aposentado conta que havia duas espécies, uma preta e outra do papo amarelo. “Mas nunca machucou ninguém. Na minha época nunca vi pegar”, conta ele, que trabalhou na Futel por mais de três décadas. “Não é mito não, é verdade mesmo. Tem jacaré lá”.

 

PÓS-CAPTURA

Remo será retomado e com aulas para crianças

A Futel, responsável pela administração do Parque do Sabiá, irá liberar novamente a prática de esportes a remo na lagoa após a captura do jacaré. O diretor geral da fundação, Sílvio Soares dos Santos, adiantou que até o próximo ano será criada ainda uma escolinha de canoagem para incentivar a prática entre crianças e adolescentes de 7 a 17 anos. A Confederação Brasileira de Canoagem se comprometeu a doar 10 caiaques utilizados nas Olimpíadas do Rio para o projeto. Três barcos são adaptados para pessoas com deficiência. A entidade também irá ajudar na capacitação de pessoal. 

Além da presença do jacaré, Sílvio Soares disse que outros dois fatores contribuíram para a proibição temporária do remo. O barco usado pelos salva-vidas apresentou problemas no motor. Já as boias usadas na marcação do espaço onde é permitido andar de pedalinho serão substituídas por materiais padronizados, que serão doados pela Marinha do Brasil. “Depois que organizarmos toda essa estrutura e resolver esse conjunto de fatores, iremos liberar a lagoa”, disse.

O diretor informou que o pedalinho continua liberado para passeios por ser apenas num canto da lagoa, de menor profundidade, e que conta com a presença do salva-vidas. Sílvio Soares destacou ainda que a tradicional pesca na lagoa, que acontece todos os anos no mês de agosto por ocasião do aniversário de Uberlândia, foi realizada com a autorização e a presença do Corpo de Bombeiros.


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