03/09/2017 às 05h14min - Atualizada em 03/09/2017 às 05h14min

Casa Santa Gemma e o acolhimento que faz a diferença

Por meio de doações, local serve de base para trabalhadores em busca de trabalho e melhores condições de vida

ADREANA OLIVEIRA | EDITORA
Jack e Ditão em frente à sede da Casa Santa Gemma, no bairro Aclimação / Foto: Adreana Oliveira

 

No ano de 2009, José Alves veio de Goiânia para Uberlândia em busca de trabalho. Ouviu dizer que “a cidade era boa”. Porém, encontrar trabalho na cidade mineira não estava tão fácil como fizeram parecer. Quando o dinheiro acabou, ele não tinha onde ficar. Sem casa, sem trabalho, ficava nos arredores da praça Nossa Senhora Aparecida, no bairro Aparecida, sujeito às intempéries do tempo, a fome, a frio, a sede... Mas na antevéspera de Natal daquele ano, ali, diante da imagem de Nossa Senhora Aparecida, começava a acontecer um milagre.

Naquela noite, voluntários da Casa Santa Gemma Galgani (ONG Missão de Acolhimento Fraterno dos Povos de Rua) estavam fazendo um trabalho iniciado em 2003: oferecer a mão ao próximo, ao excluído, ao invisível. “Eu estava sentado no banco da praça e eles chegaram brincando, amigáveis. Eles fazem o jantar de Natal na casa e saem chamando o pessoal que está na rua. Eu estava muito desacreditado e, quando cheguei lá, quis saber se poderia ficar”, recorda Alves.

A partir do momento em que tinha um endereço fixo, José Alves ficou um pouco mais tranquilo. Insistiu em procurar trabalho e, em seis meses, estava de mudança para sua própria casa, com a mulher e os cinco filhos que vieram de Goiânia. “São pessoas muito boas, não sei o que teria sido de mim, se não fosse por eles”, finaliza o pedreiro.

A Casa Santa Gemma foi inaugurada em março de 2003, mas seus fundadores, Sílvio Expedito Cardoso (Ditão) e Jefferson Albernaz (Jack), já se incomodavam há muito tempo com a situação dos moradores de rua da cidade. Tanto que, desde 1997, os levaram para dentro das próprias casas. “Era muito complicado, nossos próprios familiares não entendiam, os vizinhos falavam que estávamos colocando nossas famílias em risco, coisas desse tipo”, conta Jack. Era como se a maioria das pessoas só esperasse coisas ruins do morador de rua.

“É muito triste. Já chegamos a acolher e ajudar pessoas a terem atendimento médico que morreriam, se não chegássemos até eles”, conta Ditão. Hoje, ele passa pelo comércio do bairro Aclimação com novos moradores e percebe desconfiança. Depois, volta com eles após um banho. É outra coisa. Muitas vezes, para quem vive na rua, um banho é o início da restauração da dignidade.

Jack e Ditão têm orgulho de dizer que todo o projeto sobrevive sem financiamento público ou privado. A compra do terreno, a construção da casa, tudo foi feito com ajuda de doações da sociedade civil, grupos de orações, grupo de jovens, pequenas empresas. “Não temos pretensões políticas nem queremos ser usados por esses propósitos. A independência é algo importante aqui. Nossos portões estão sempre abertos. Aqui não é uma clínica, é uma casa de acolhimento. Ajudamos quem quer ser ajudado”, conta Jack. A Santa Gemma é ligada à Pastoral de Rua.

Claro que há regras: álcool e drogas são proibidos. “Não estamos aqui para doutrinar ninguém também, cada um tem sua crença, sua religião. A maioria é católica. Caridade é algo que vem de dentro. Todos deveriam praticar. Não esperamos nem pedimos nada em troca, além de cumprir regras da casa, que é mantida por voluntários”, diz Ditão.

Daniel Simões Moreira, 36 anos, mora em casa própria e se mantém como motorista profissional. Natural de São Paulo, ficou 31 dias na Casa Santa Gemma, depois de um período conturbado de sua vida, em 2006. Ele morava em Uberlândia com a mãe, que resolveu voltar para São Paulo. Ele foi e não se readaptou, pegou o carro financiado pela mãe e voltou para Uberlândia. Viu-se perdido, durante seis meses morou dentro do carro. “Perdi as esperanças, não tinha quem procurar até ver uma reportagem sobre a Santa Gemma.” Na véspera da mudança para a Santa Gemma, Daniel havia consumido drogas. E foi a última vez. “Foi a melhor coisa que aconteceu na minha vida, foi ali que a transformação começou, até do cigarro eu larguei e hoje são 11 anos sóbrio”, conta ele e acrescenta que, dentro da casa, não existe uma doutrinação. “Presenciei momentos lindos de espiritualidade, a prática do catolicismo em si, que é o amor, o servir o outro. Ali descobri que ainda é possível ter fé no ser humano”, comenta.

Daniel diz ainda para quem encontra-se em uma situação como a que ele já esteve, que o primordial está dentro da pessoa. “É uma luz interior, você tem que acreditar que pode vencer e no caminho encontrar pessoas que são verdadeiros anjos no seu caminho, cabe a você não virar as costas para elas”.

 

AÇÃO CONJUNTA

Jack e Ditão, da Casa Santa Gemma, afirmam que a maior parte das pessoas em situação de rua vem de outros estados, principalmente do Nordeste, e chega com promessas de trabalho. Nem todos conseguem ou, quando conseguem, não recebem o que foi combinado. “O viaduto da Rondon Pacheco com a João Naves de Ávila foi construído por maranhenses. Depois que a obra acabou, muita gente foi parar na rua, porque não conseguiu juntar dinheiro nem para trazer a família, nem para voltar para casa”, conta Jack.

Eles comemoram que há esforços do Ministério Público e da Diretoria de Proteção Social à Pessoa em Situação de Rua e Migrante da Secretaria de Desenvolvimento Social, Trabalho e Habitação (Sedesth), da prefeitura de Uberlândia, junto a outras entidades assistenciais. “Lembro de uma audiência em que tivemos e essas pessoas, mais do que reclamarem da falta de comida, casa e trabalho, reclamavam da abordagem que recebiam nas ruas, muitas vezes violenta, por parte de agentes públicos ou da polícia. Em alguns casos comprovados de violência, dois policiais foram afastados”, conta Jack.

Em março deste ano, a Sedesth começou o trabalho com representantes de 12 entidades assistenciais e religiosas que atuam voluntariamente em prol das pessoas em situação de rua de Uberlândia. A proposta é conhecer os serviços prestados por essas entidades, estabelecendo parcerias entre o poder público e privado, numa ação conjunta que visa a promover a saída dessa população das ruas. Outro ponto importante discutido entre os parceiros refere-se à organização dos serviços: o intuito é que sejam realizados em espaços adequados, oferecendo condições de segurança, com mais qualidade e conforto aos atendidos.

 

ESTATÍSTICA SOCIAL

Pessoas são tratadas como pessoas, não como números

Claudemir da Silva, Ditão, José Acácio dos Santos, Marcelo Lourenço Rodrigues, Orídio, Marco de Oliveira, Edilson de Oliveira e Jack Albernaz / Foto: Adreana Oliveira

Uma manhã normal de feriado na Casa Santa Gemma, no bairro Aclimação, é, como diriam na linguagem popular, “um entra e sai danado”. É gente levando e trazendo panelas, mantimentos, cobertores, ou só dando uma passada para ver como estão as coisas. Atualmente com 19 homens maiores de idade estão abrigados na casa. Às 11h o almoço é servido. Antes tem uma oração em agradecimento pelos alimentos. Nos pratos, arroz, feijão, macarrão, frango com batata e salada de tomate e alface que deixam no ar aquele cheirinho de comida de vó.

Todos recebem bem a reportagem do jornal Diário do Comércio, que aceita o convite para o almoço. Marcelo Lourenço Rodrigues, o Fom Fom, diz que é de Passos (MG) e é um dos mais animados. Perto dele está o Orídio, que não sabe o sobrenome nem de onde vem. São muitas as histórias vivenciadas pelos voluntários da Casa Santa Gemma e, se fosse por números, o projeto não existiria. Ali, os homens são tratados como pessoas e não como números. “A cada dez que chegam aqui, sete voltam para as ruas. Dois seguem seus caminhos encontrando os familiares e um jamais volta para a rua e se estabelece com trabalho, família e casa própria”, conta Jack.

Uma vida que faz a diferença para outras duas. Há poucos metros dali, em uma casa pequena, mas bem cuidada, está a família do pedreiro José Roberto da Silva. Ele não está em casa, apesar de ser feriado, ele está trabalhando. “Ele veio para cá em abril, em busca de trabalho. É uma pessoa que foi muito judiada pela vida e hoje teve uma segunda chance com a ajuda do pessoal da Santa Gemma. “Falamos com o Ditão por telefone e soubemos que ele estava aqui. Foi um alívio e, mesmo ao telefone, o Ditão já passava confiança. Vim com nosso filho para cá e, aos poucos, vamos nos reerguendo. Nosso menino até chama o Ditão de Vô”, conta a esposa de José, Rosângela de Souza.

Dois quarteirões adiante, Ditão mostra um sacolão ao ar livre embaixo de uma árvore, uma bancada que ele abastece duas vezes ao dia com frutas e verduras que recebe de doações e ficam ali para quem precisar.

 

MENINADA

Novo projeto contempla crianças do bairro

Obra do projeto Meninada, que já consumiu cerca de R$ 500 mil, tudo conquistado com doações da sociedade civil / Foto: Adreana Oliveira

Na mesma rua da Casa Santa Gemma, no bairro Aclimação, começa a tomar forma um outro projeto da Casa Santa Gemma, o Meninada. Quando estiver pronta, a obra, que ocupa um prédio de dois andares, oferecerá atividades para crianças e jovens do bairro com aulas de música e dança.

Um dos parceiros certos do projeto é o bailarino Marcos Bertoldo, da Cia. Balé de Rua, na dança. Outro é o Instituto Alexa que doou instrumentos e fará a triagem dos alunos de música. A Santa Gemma já tem apoio de projetos de alunos da Universidade Federal de Uberlândia (UFU) e do Centro Universitário do Triângulo (Unitri), principalmente na área de saúde.

“Estamos abertos a todos os universitários que tiverem projetos sociais e queiram trabalhar com nosso centro de formação”, diz Jack Albernaz. O terreno foi uma doação de funcionários do Banco Bradesco.

Para saber mais sobre o Projeto Meninada, clique aqui.


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