03/09/2017 às 05h12min - Atualizada em 03/09/2017 às 05h12min

Arquiteto de Uberlândia projeta Memorial do Holocausto na Polônia

Luiz Márcio fala sobre seu primeiro projeto internacional e da arquitetura em Uberlândia

ADREANA OLIVEIRA | EDITORA
Em seu escritório, Luiz Márcio Carvalho mostra alguns de seus projetos / Foto: Adreana Oliveira

 

O tipo de construção não importa, muito menos onde, mas o comprometimento e a paixão são os mesmos, seja na edificação de um colégio, de uma churrascaria, de um templo de orações, de um laboratório, seja de uma residência. Mas alguns projetos fazem com quem brilhem mais os olhos do arquiteto Luiz Márcio Carvalho, radicado em Uberlândia desde criança. Nascido em Tupaciguara (MG), ele assina um projeto de repercussão internacional: o Holocaust Memorial Center na cidade onde tudo aconteceu: Birkenau, Polônia, mais conhecida como Auschwitz.

Aquele que foi o maior campo de extermínio do regime nazista, que deixou 6 milhões de judeus mortos, ganhará um espaço para reflexão. “O mundo não pode esquecer o que houve ali, e o maior desafio foi honrar os que sofreram com aquele regime e transformar em um lugar de introspecção genuína”, comentou o arquiteto, que assina seu primeiro projeto no exterior. Um vídeo está disponível no canal do escritório do arquiteto no YouTube e mostra de forma detalhada todo a área do prédio, que ainda não tem uma data exata de inauguração. O trabalho é desenvolvido com uma equipe multidisciplinar com profissionais da Inglaterra e da Alemanha e tem apoio também dos Estados Unidos e do Brasil.

O conceito da obra já foi aprovado pela prefeitura de Birkenau e aguarda agora autorização da Organização das Nações Unidas (ONU). “São muitos os processos, por se tratar de um sítio histórico. Existe uma equipe que está na Inglaterra e na Polônia fazendo levantamentos de dados de patrimônio histórico, legislação e cultura geral para implantação do Memorial”, contou Luiz Márcio. “Existe memorial do holocausto na Alemanha, em Israel, nos Estados Unidos, mas não existe onde aconteceu. Estou muito honrado com essa oportunidade”, disse o arquiteto, que tomou conhecimento da proposta por uma pessoa da ONG internacional Ashes to Glory. “Em 2015, estavam em Brasília e nos encontramos por acaso em um congresso. Eu quis saber mais sobre o projeto e perguntaram se eu gostaria de ajudar. Falei que doaria o meu trabalho, afinal, algo assim não tem preço”, contou Luiz Márcio.

O prefeito de Birkenau, Alberta Bartosz, veio visitar o arquiteto em Uberlândia no fim de maio. “Ele conheceu um pouco da nossa cultura, visitamos o prefeito Odelmo Leão. Bartosz se encantou com frutas como a mexerica. É um homem simples e de bom coração. No início do próximo ano, vamos visitar a área onde será construído o Memorial”, contou Luiz Márcio.

 

UBERLÂNDIA

Luiz Márcio afirma ser um homem de fé. De família humilde, graduado em 2000 na primeira turma de Arquitetura e Urbanismo do Centro Universitário do Triângulo (Unitri), sempre trabalhou muito – até limpador de túmulo de cemitério já foi. “Posso te dizer que hoje só acredito em milagres. Tudo é possível, se você tem fé e trabalha com empenho em tudo que faz”, disse ele.

O arquiteto entregou, neste ano, mais uma obra em Uberlândia. A sede da Associação Mineira dos Produtores de Algodão (Amipa) e laboratório de análise de algodão Minas Cotton, um dos mais modernos do mundo, foi um grande desafio. “Eu pedi a eles a chance de estudar sobre o que eles precisavam e me debrucei nisso por dois meses. Me levaram aos outros laboratórios em outros estados e, a partir daí, desenvolvi o projeto”, contou o arquiteto, que sugeriu um museu espelhado que contasse a história do algodão – ideia aceita pela Amipa.

Cursando MBA em Construções Sustentáveis, Luiz Márcio fez um prédio que utiliza energia solar, tem reaproveitamento de água e se destaca na avenida que dá acesso ao aeroporto. “Hoje, mais do que algo bonito, quero construir algo que dialogue com a região em que está, que cause menos impacto ambiental. Minha assinatura é o sorriso do meu cliente. Quando faço um projeto, quero que seja algo que conte a história daquela pessoa, daquela empresa, é um sonho construído em duas vias”, comentou.

Luiz Márcio não é adepto do “menos é mais” e, para ele, Uberlândia preserva pouco do seu patrimônio arquitetônico. “Uberlândia não é conhecida por uma expressão arquitetônica. É uma cidade com muitas construções e pouca arquitetura. É como uma massa cinzenta e branca de obras construídas simplesmente com valor e apelo imobiliário e financeiro”, lamentou.

Ele acredita que, com o seu trabalho, poderá mudar um pouco isso. “É uma luta, porque escolhi ter obras arquitetônicas mais expressivas. Para isso, tem-se que romper as barreiras de terrenos, de limites culturais. Quero que meus projetos tenham um compromisso público com a cidade. A obra tem que passar uma mensagem”, finalizou.


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