22/05/2017 às 13h53min - Atualizada em 22/05/2017 às 13h53min

A Educação em tempos de conexão

Professores e psicólogos afirmam que internet não deve ser considerada a vilã dos nossos tempos

ADREANA OLIVEIRA | EDITORA
Vanessa Matos é integrante do Grupo de Pesquisa em Tecnologia, Comunicação e Educação da UFU / Foto: Adreana Oliveira

Basta acompanhar os noticiários para se deparar com reportagens a respeito de crianças e adolescentes que de certa forma seriam “vítimas” da internet. E aqui, o assunto vai além da polêmica do jogo baleia azul e do bulliyng ou cyberbulliyng. Professores e psicólogos, especialista em Educação, afirmam que o problema não está na internet ou em qualquer equipamento eletrônico. A internet pode ser boa ou ruim dependendo do uso que se faz dela.

Os efeitos do uso exagerado da internet por crianças e adolescentes é tema de estudos no Brasil e no exterior. A professora de Telejornalismo da Universidade Federal de Uberlândia (UFU), doutora em Educação e Meios e Processos Audiovisuais, Vanessa Matos dos Santos, é pesquisadora da área. Ela faz parte do Grupo de Pesquisa em Tecnologia, Comunicação e Educação (GTCom). Institucionalizado em 2016, os estudos no grupo começaram há pouco mais de quatro anos pela professora Diva Silva.

Para Vanessa, os pais devem supervisionar o uso dos aparelhos e ensinar sobre privacidade, que nem tudo deve ir para as redes sociais até para evitar atitudes como o cyberbullyng. “Quando a criança fica muito tempo nestes ambientes virtuais pode ter problema de socialização. Ela usa esses espaços como refúgio e pode vir a ficar mais vulnerável a jogos, por exemplo, como baleia azul”, explica. Vanessa diz ainda que uma criança que não consegue socializar com os colegas e vai para um espaço virtual carrega junto os problemas que tem. “A tecnologia reflete muito do que nós somos. Nós produzimos a tecnologia que utilizamos”, comenta.

SUPERVISÃO

Eliete Silva e o filho, Herbert, que está em constante supervisão quando conectado à internet / Foto: Acervo Pessoal

Há estudiosos mais radicais que não concordam que crianças menores de três anos tenham contato com qualquer aparelho eletrônico. “Nesse caso é mais por uma questão dos estímulos. Uma criança que assiste televisão desde muito cedo fica extremamente estimulada e pode ser, veja bem, pode ser que ela tenha dificuldades para dormir por conta destes estímulos. Até os 5, 6 anos de idade as crianças estão em um período de desenvolvimento no qual estão abertas a tudo”, disse Vanessa Matos.

Para Vanessa, o ideal é que os pais escolham bons programas e mostrem o que não seria um bom programa, porque se não mostrarem, a criança descobre fora de casa. “A tecnologia faz parte da sociedade. É complicado você tentar privar a crianças deste convívio porque tira dela uma possibilidade de socialização. É mais fácil ensinar a fazer um bom uso dessa tecnologia”, explica. Deixar o computador na sala é uma boa maneira de acompanhar, mesmo que parcialmente, o que a criança faz.

Os pais devem dar um limite de tempo para os filhos usarem smartphones ou tablets e depois acompanharem o que fizeram pelos históricos. “Os pais têm dado celular para a criança como forma de monitoramento, até por questões de segurança. Quando isso acontece o ideal é pegar o aparelho de volta à noite para supervisionar o sono da criança. Temos casos de crianças que desenvolvem esse vício do aparelho e que não dormem à noite”, explica a especialista.

Na mesa de um restaurante de um hotel me deparei com uma cena que ilustra o que os especialistas tentam explicar. Mãe, avó, e duas crianças jantam. Um dos meninos, que não deve ter mais que sete anos de idade, pergunta à mãe o que é sódio. Ele perguntou duas vezes. A mãe respondeu: “muito sal”. O menino parecia querer mostrar que já conseguia ler e também já arranhava no inglês. “Ice cream é sorvete. Mas eu sei que ice sozinho é gelo.” “Para um pouco, estou ocupada”, disse a mãe ao garoto. Ela estava ocupada vendo um vídeo no telefone celular. Não adianta falar para as crianças que elas precisam usar menos os smartphones ou tablets, que devem socializar mais com outras crianças se o exemplo não condiz com o discurso.

A auxiliar de dentista Eliete Silva e o motorista Johnson Ramos Carvalho são pais de Herbert Ramos Carvalho Silva. Ele tem 11 anos e perguntou aos pais sobre o jogo baleia azul. Na escola havia colegas curiosos, ele cursa o 6º ano da rede pública. “A gente conversa com ele sobre esses assuntos para alertar. Da mesma forma que ensinamos que no dia a dia não se deve pegar carona com estranhos, falamos sobre o que postar e como se comportar nas redes sociais e programas de troca de mensagens. Ele não apaga o histórico e não fica o tempo todo conectado. O diálogo e o olho no olho são importantes”, afirma Eliete.

Herbert disse que quando algum colega comenta sobre o jogo ele avisa a um dos professores. “Meus pais conversam muito comigo e não tenho curiosidade para entrar”, disse o menino.

Vanessa Matos diz que os pais precisam entender e explicar aos filhos que o ambiente virtual é outra instância da vida, e não a vida. Mas é preciso dar o exemplo. Ela pode e deve aprender a conviver com esses dois mundos e saber distingui-los. É como querer culpar a televisão pela má qualidade dos programas quando você tem o controle remoto nas mãos. “No final da década de 90 se falava que quando os pais eram ausentes enchiam os filhos de dinheiro. Hoje eles enchem os filhos de aparelhos tecnológicos para o filho não pedir tanto a atenção deles. Mas essa presença, o toque, o olho no olho, é fundamental para o desenvolvimento da criança. Você não pode negar o uso da tecnologia ao seu filho, mas deve acompanhá-lo. Esse tipo de educação vem de casa, não de outro lugar”, disse Vanessa.

Ela percebe que alguns pais estão preocupados em ensinar os filhos a registrarem momentos mais do que vivê-los, como se depois, ao ver uma foto ou um vídeo, fosse ter a mesma sensação da vivência daquele momento, o que é uma mentira. “Você está deixando de viver um momento para registrá-lo. É preciso se questionar até que ponto você tem momentos de desconexão em casa para estabelecer vínculos com seu filho”.

ADOLESCENTES

Christiano Mendes de Lima pouco antes de palestra para educadores / Foto: Adreana Oliveira

O psicólogo, mestre em Educação e coordenador do programa de Saúde Mental de Uberlândia, Christiano Mendes de Lima,  afirma que é preciso cuidado na hora de tomar um objeto tecnológico qualquer - televisão, smarthphone, internet - como se isso indicasse um mal em si. “Nada é um mau em si, tudo depende do uso e do contexto do uso. A passagem da infância para a adolescência e da adolescência para a idade adulta são períodos de grande vulnerabilidade, e para o adolescente tem muita coisa em jogo”, comenta Cristiano.

O especialista explica que há muita coisa em jogo: a imagem de si, a relação que se tem com os adultos de referência - educadores, pais, etc -, muda a relação que ele tem com o outro, de uma forma geral de modo intenso, e muitas vezes vivido pelo próprio adolescente como uma coisa muito rápida para ele. “O adolescente tem que passar por essa fase sozinho, o que não quer dizer que ela tem que ser vivida em solidão no sentido de sem parcerias. Existem parceiros que podem favorecer esse processo e parceiros que quando encontrados podem dificultar e aprofundar os impasses já vividos neste momento”, diz o psicólogo.

Para ele, a internet pode ser um bom parceiro naquele momento porque uma das coisas fundamentais que está em jogo na adolescência é o temor ou a ansiedade que a pessoa vive no encontro com o outro, com o outro sexo, com a questão do amor, do desejo, as inseguranças em relação ao próprio corpo e o encontro com o corpo do outro.  “A internet pode ser um ponto de passagem, porque ali o outro é um outro virtual. É uma espécie de treino para que ele possa desenvolver estratégias para fazer suas escolhas no mundo real. Neste sentido a internet pode ser interessante. Crianças que às vezes são tímidas ou têm vergonha de si podem encontrar uma possibilidade de vinculação a partir do mundo virtual. Quando isso funciona com possibilidade de vinculação que favorece a vida é ótimo, podem surgir ali amizades, relações amorosas no mundo real”, afirma o especialista.

Pessoas que podem ajudar ou atrapalhar o adolescente nesta fase não estão somente na internet, podem estar em qualquer lugar, dentro de casa, na rua, na escola, em um shopping. O jovem está em situação de vulnerabilidade pela própria condição de ser jovem. “Nesse momento ele vive algo na ordem do desamparo. ‘E agora, o que é que faço? Com quem posso contar?’ Se ele encontrar pais, educadores, colegas que o ajudem a atravessar esse momento, que compartilhem experiências que podem auxiliar no delicado momento de transição, de metamorfose, isso favorece a vida. Se encontra parceiros que complicam o processo pode ser lançado a um desamparo ainda maior”, disse Cristiano.

Por isso é importante que os pais e professores estejam realmente atentos aos jovens que apresentam uma situação mais vulnerável e não minimizem o problema. O diálogo e a presença de qualidade podem ser a diferença no caminho que este jovem vai querer seguir.

PAPEL DA ESCOLA

A preocupação com o tema levou profissionais da rede municipal de ensino a uma palestra com o psicólogo Christiano Mendes de Lima, oferecida pela Secretaria Municipal de Educação, que se mostra atenta ao cenário atual. “A ideia é abordar como os educadores que estão na lida diária com crianças e adolescentes podem perceber esse momento de delicada transição e como identificar aqueles que podem estar vivendo isso de um modo mais problemático. A partir daí, eles poderão dar o suporte necessário, ser um bom parceiro. E, quando precisar, encaminhar para a rede de saúde ou para a rede de saúde mental os casos que precisam de cuidado especializado e que não podem ser resolvidos no campo da educação”, disse o especialista.

Casos de depressão entre crianças e jovens têm preocupado os professores, e o bullying pode acontecer em qualquer lugar – na internet e fora dela. Quando é dentro da escola é preciso estar preparado para lidar com a situação. Laudeli Rodrigues Ladico é pedagoga, há 24 anos é professora na rede municipal. Ela é mãe de uma menina de 11 anos. Hoje aluna do 6º ano, ela sofreu bullyng ao sair da rede particular para a rede pública. Por se destacar na nova turma gerou ciúmes em outras meninas que a isolaram e proibiram outras garotas de falarem com ela. Graças à presença e ao diálogo que a menina tem com os pais, eles resolveram que o melhor era a mudança de escola. Hoje a menina tem muitos amigos e está feliz.

Atualmente no corpo docente da Escola Municipal Mário Alves de Araújo Silva, Laudeli trabalha com os colegas a defesa da paz e dos direitos humanos dentro da escola. “Isso inclui repúdio a qualquer tipo de violência, discriminação e preconceito de qualquer tipo. As bases que dão sustentação ao projeto da escola estão no projeto de diretrizes básicas nacionais de educação e em trabalhos preventivos com os alunos”, disse.

Por exemplo, quando a escola recebe uma criança com algum tipo de deficiência professores, supervisores e alunos envolvidos na recepção para incorporar o novo aluno em todas as atividades da escola. Quando acontece algum caso de bullying, a supervisora conversa com os envolvidos para apurar os fatos e falar sobre os danos que o ato causa à vítima e ao agressor. “Depois os pais são chamados para ficarem cientes da situação e ajudarem para que algo semelhante não volte a acontecer”, disse a pedagoga.

TECNOLOGIA NO BRASIL

- 280 milhões de dispositivos móveis conectáveis à internet

- 198 milhões de smartphones

- Projeção para 2019: 236 milhões de smartphones

- 166 milhões de computadores (desktop, notebook) em uso

- 4 computadores para cada 5 habitantes

Fonte: Centro de Tecnologia de Informação Aplicada da Escola de Administração de Empresas de São Paulo da Fundação Getúlio Vargas (GVcia) FGV EAESP

 


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