21/05/2017 às 12h56min - Atualizada em 21/05/2017 às 12h56min

Área urbana tem mais de 20 espécies de cobras

Répteis são cada vez mais frequentes na cidade; ano passado foram 258 ocorrências e este ano, 111

WALACE TORRES | EDITOR
Vera Lúcia fez o primeiro estudo sobre serpentes na área urbana do Brasil na década de 1980 / Foto: Walace Torres

Eles estão mais próximos do que a gente imagina. E surgem com uma frequência que chega a assustar, principalmente para quem não é acostumado a ver de perto o que até então se conhecia apenas pela televisão ou por fotografias. O aparecimento de animais silvestres na área urbana é consequência de ações provocadas pelo próprio homem, como a devastação de florestas, queimadas, uso exagerado de defensivos agrícolas. Em busca de alimento e tentando sobreviver diante da mudança de seu habitat, aves, mamíferos e repteis estão cada vez mais se adaptando a área urbana.

Um dos animais que mais assusta, seja pela facilidade de se esconder no ambiente ou pelo grau de periculosidade, é a serpente. Um estudo feito em meados da década de 1980 por uma equipe da Faculdade de Biologia da Universidade Federal de Uberlândia identificou 58 espécies de serpentes em Uberlândia. Pelo menos 29 dessas espécies foram encontradas na área urbana. “Tem muita serpente na área urbana. Quando fiz o levantamento eu fiquei apavorada de ver”, conta a bióloga Vera Lúcia de Campos Brites, autora do estudo. Foi o primeiro inventário sobre serpentes da área urbana feito no Brasil. E também o único desta dimensão realizado até hoje em Uberlândia. “Hoje a realidade deve ser outra, mas, infelizmente, não temos recursos suficientes para realizar um novo estudo”, conta. Ela acredita que outras espécies não catalogadas podem ter surgido nos limites da cidade.

Enquanto um novo estudo não acontece, o fato é que esses repteis estão por toda parte. Nos últimos anos, já houve ocorrências de cobras capturadas em residências, na rua, dentro de veículos e até mesmo no interior do Terminal Central.

Serpentário na Faculdade de Biologia recebe animais para fins científicos / Foto: Walace Torres

No ano passado, o Laboratório de Animais Peçonhentos da Unidade de Vigilância de Zoonoses atendeu 258 ocorrências envolvendo aparecimentos de cobras em Uberlândia. Somente este ano já foram registrados outros 111 casos. “A maioria encontrada na área urbana são cobras não peçonhentas”, diz a coordenadora do programa de animais peçonhentos da Unidade, Juliana Junqueira. Quando acionado, o Laboratório ajuda na captura desses animais, numa parceria com a Polícia de Meio Ambiente, que é o órgão que mais recolhe bichos na cidade. Só no ano passado foram 844 animais recolhidos pelas guarnições ambientais, entre aves, mamíferos e repteis (as estatísticas do órgão não distinguem as espécies). Este ano, houve o recolhimento de outros 381 animais. Além da captura, a Polícia de Meio Ambiente dá a destinação para esses animais, seja para um centro de pesquisa, hospital veterinário ou o regresso ao meio ambiente.

No caso das serpentes, a maior preocupação é com as venenosas. O estudo feito pela bióloga Vera Lúcia identificou oito delas tanto na área urbana quanto rural. Entre elas, espécies de urutu, jararacuçu patrona, jararaca pintada, coral verdadeira, cotiarinha e cascavel, que é a mais comum. No setor de manutenção de repteis da Faculdade de Biologia da UFU há uma sala só de cascavel. Em outra sala, há espécies silvestres e exóticas. São mais de 150 cobras que vivem em caixas separadas e são objetos de estudos científicos. Uma delas está no cateiro há 17 anos. Alguns desses estudos até já foram premiados em congressos nacionais e internacionais. Outros, contribuíram para aprimorar o conhecimento sobre os repteis. “Num estudo de quantificação de veneno, conseguimos extrair 594 ml de uma espécie de jararacuçu cabeça patrona. Até então, tínhamos informação de no máximo 300 ml de veneno seco”, conta Vera Lúcia. Em outro estudo, que foi tese de doutorado e apresentado no Chile, a bióloga também descobriu três tipos de veneno na mesma espécie (cascavel).

 

SORO

Pronto Socorro da UFU é referência no atendimento

O Pronto Socorro do Hospital de Clínicas da UFU é a referência em Uberlândia no caso de acidentes envolvendo animais peçonhentos. A unidade é a única que tem o soro capaz de combater o veneno de cobra, além de ter profissionais especializados neste tipo de atendimento, identificando a espécie que infectou o paciente de acordo com os sintomas apresentados. “Uma mordida de cascavel, por exemplo, deixa a pessoa com a visão turva e sem expressão facial. Já uma pessoa mordida por coral tem dificuldade de falar, salivação intensa e fica com o pescoço caído”, cita a bióloga Vera Lúcia.

Segundo dados da Vigilância Epidemiológica, da Secretaria Municipal de Saúde, no ano passado foram registradas 56 ocorrências de mordida de cobras de pessoas que procuraram a rede pública. Este ano já foram 15 casos. Todos foram encaminhados para a UFU.

De acordo com a bióloga Juliana Junqueira, os acidentes são frequentes nas áreas rural ou silvestre. “Em caso de mordida, a pessoa deve procurar atendimento imediatamente. E não adianta colocar torniquete, passar pomada, pó de café ou qualquer outra substância que pode mascarar a situação”, diz. Ela frisa que sugar o sangue também não é recomendável, até porque a boca da cobra é cheia de bactérias.

 

TRILHAS

No meio do caminho tinha uma cobra

O empresário Wagner Ferreira Borges tem um grupo de mountain bike que faz pelo menos três trilhas ao longo da semana em trajetos da zona rural. Em dois dias, as trilhas são feitas à noite, justamente o período que mais aparecem cobras. Já houve situações em que os ciclistas depararam com duas cobras na mesma noite. “Antes a gente andava no meio do mato, em single track (caminho único, em inglês). Agora, já avisamos ao pessoal para evitar alguns trechos à noite e só passar pela estrada. Assim, dá pra ver de longe e desviar”, conta.

“À noite é mais comum elas deixarem o mato e saírem para a estrada, devido ao tempo mais fresco”, explica a bióloga Vera Lúcia.

O vendedor Patrick Leonardo sentiu na pele a dor de uma picada de cobra. Há um ano e meio atrás, ele e um amigo retornavam de uma trilha na região da Tenda dos Morenos e não perceberam a presença de uma cascavel na estrada de terra. “Eu passei de lado e ela assustou e deu o bote. A sorte é que pegou entre dois dedos. Se tivesse picado no meio do pé, ela tinha injetado mais veneno. Mesmo assim doeu bastante e o pé voltou a inchar no outro dia”, conta. O socorro foi rápido porque o amigo havia deixado o carro no vilarejo. “O fato de não precisar de movimentar até chegar no atendimento ajudou bastante”, diz Patrick, que não deixou de pedalar na zona rural, mas passou a prestar mais atenção durante a trilha. “Cascavel nessa região é igual mato, tem demais. Todo cuidado é pouco”.

 

O que fazer no caso de acidentes com animais peçonhentos:

- Lave o local da picada apenas com água ou com água e sabão

- Hidrate o acidentado com goles de água

- Não fazer sucção do veneno

- Não espremer o local da picada

- Não dar nada alcoólico, querosene ou fumo para o acidentado

- Não fazer torniquete, impedindo a circulação do sangue: isso pode causar gangrena ou necrose local

- Não cortar ou queimar o local da ferida

- Não fazer aplicação de folhas, pó de café ou terra sobre a ferida, sob o risco de infecção

- Manter a pessoa em repouso, evitando o seu movimento para que não favoreça a absorção do veneno

- Manter a região picada no mesmo nível do coração ou, se possível, abaixo dele

- Cobrir o local com um pano limpo

- Remover anéis, pulseiras e outros objetos que possam prender a circulação sanguínea, em caso de inchaço do membro afetado

- Levar a pessoa imediatamente para o pronto-socorro mais próximo ou ligar para o serviço de emergência (em Uberlândia, a referência é o PS do HC/UFU)

- Tentar identificar que tipo de animal atacou a vítima, observando cor, tamanho e características dele

- Se possível, levar o animal causador do acidente para identificação

- No caso de acidentes causados por escorpiões, aranha-armadeira e viúva-negra, recomenda-se fazer compressas mornas no local e analgésicos para alívio da dor.


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