17/04/2017 às 08h44min - Atualizada em 17/04/2017 às 08h44min

Ozires Silva, o visionário da avião nacional

Fundador da Embraer e responsável pela equipe que construiu o Bandeirante participou de homenagem em Uberlândia

Walace Torres - editor
Da Redação
DIVULGAÇÃO/BETO OLIVEIRA

Na noite da última terça-feira (11), o Center Convention em Uberlândia recebeu um público superior a três mil pessoas que acompanharam um evento sobre empreendedorismo, promovido pelo Grupo Ânima, considerado uma das maiores organizações educacionais particulares de ensino superior do país, com mais de 100 mil alunos. O grupo recentemente adquiriu as unidades da Faculdade Politécnica em Uberlândia e Catalão (GO), que a partir de agora passam a fazer parte do Centro Universitário UNA.

Mas o que chamou a atenção do público logo no início foi o primeiro palestrante da noite, que foi recebido de pé pela plateia. Ozires Silva não dava nome apenas ao prêmio que foi entregue a seis empreendedores de Uberlândia, mas também simbolizava o próprio empreendedorismo brasileiro.

Oficial da Aeronáutica e engenheiro formado pelo Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), Ozires Silva liderou, entre as décadas de 1960-1970, a equipe que projetou e construiu o avião Bandeirante. Liderou ainda o grupo que promoveu a criação da Embraer, uma das maiores empresas aeroespaciais do mundo e que deu início à produção industrial de aviões no Brasil.

Foi presidente da Petrobras nos quatro últimos anos da década de 1980, depois na década seguinte passou pelos comandos dos ministérios da Infraestrutura e das Comunicações, chegando a assumir a presidência da Varig por três anos. Em 2003, criou a Pele Nova Biotecnologia, primeiro fruto da Academia Brasileira de Estudos Avançados, empresa focada em saúde humana voltada à pesquisa, desenvolvimento e produção de tecnologias inovadoras na área de regeneração e engenharia tecidual.

O currículo conta ainda com participações em mais de 40 Conselhos e Associações de Classe, dentre eles o Conselho do Grupo Algar, de Uberlândia. É ainda autor de seis livros e tem uma biografia escrita por Décio Fischetti, em 2011, intitulada “Um líder da inovação – Biografia do criador da Embraer”.

Pouco antes de subir ao palco, Ozires Silva atendeu aos pedidos da imprensa e concedeu uma breve entrevista exclusiva ao Diário do Comércio.

 

Diário - Até que ponto o empreendedorismo está mudando o Brasil e até que ponto essas transformações estão sendo absorvidas também na área pública?

 

Ozires - A sua pergunta rende um simpósio [risos]. Se você observar o que está acontecendo no mundo hoje, esse telefone que está na sua mão, por exemplo, sabe quem criou? Ele saiu da chamada tecnologia da informação, que sofreu um desenvolvimento muito grande através de jovens como Bill Gates, Steve Jobs, o cara que inventou o Facebook, o Google e muitos outros... são as empresas mais valiosas do mundo e são feitas por jovens. E qual é a diferença? Lá fora. Agora, no Brasil é impressionante a gente notar o movimento da juventude de querer empreender. Acontece que no Brasil temos um cenário muito hostil para o desenvolvimento. Hoje a nossa taxa básica de juros está quase em 14%. Não há empreendimentos no seu começo, na sua startup, que possam dar tal rendimento. O mercado financeiro está voltado para investimentos que gerem dinheiro, e não que gerem produtos. Com isso, o Brasil se tornou pouco significativo no mundo em relação às inovações. E você nota há produtos sendo vendidos em qualquer cidade brasileira, aqui mesmo em Uberlândia, criados por jovens. Mas você vai nos outros países que fornecem pra nós e não vê produtos brasileiros na vitrine. Nota-se então que precisa haver um esforço conjunto. Isso foi exatamente o que consegui na Embraer. Lutei muitos anos na minha formação, eu diria que da ordem de quase 20 anos, pensando por que nós não moldamos a cabeça de Santos Dumont, que fez o primeiro voo em Paris em 1906. Sessenta anos depois nós ainda não fabricávamos avião. Então, minha inovação foi fabricar aviões no Brasil. Eu lutei durante seis anos para levantar capitais para poder lançar a fabricação de aviões no Brasil. E só encontrava ‘não’, a dificuldade era grande até que consegui uma parceria governamental.

 

E por que esse espírito de empreendedorismo não está presente no poder público?

 

Porque o poder público está com o custo acima do que nós podemos pagar. Só se fala em aumento de impostos, aumento de juros, o mercado financeiro tem lucros extraordinários e que não se voltam para as oportunidades e para o desenvolvimento de novos empregos. Ao contrário, um país extremamente regulado, aonde o que não está escrito tem que ser legislado. Nos Estados Unidos e nos países desenvolvidos, o que não está escrito pode ser feito. Aqui não, temos que esperar a regulamentação. Isso nos leva a uma condição de inferioridade em relação ao mercado mundial. E o mercado mundial se interessa muito pelo Brasil, que tem 200 milhões de consumidores. E são consumidores que, tendo dinheiro, eles gastam. As taxas de poupança no Brasil são relativamente baixas. Então, o que acontece é que não estamos aproveitando o nosso potencial. Temos fábrica do mundo inteiro aqui no Brasil mas não temos fábricas do Brasil no mundo inteiro. Não é o momento de refletirmos sobre isso e corrigir?

 

Ou então de inverter essa lógica?

 

Aliás, não seria lógica, mas essa ‘ilógica’. É um diferencial que trabalha efetivamente contra o próprio desenvolvimento nacional. Veja o exemplo de criação da Embraer, que iniciamos com uma parceria com o governo e que fez com que ele colocasse ao longo de 20 anos algo da ordem de 70 milhões de dólares. Hoje a Embraer fatura 70 milhões de dólares em quatro dias. Veja a capacidade de empreendimento de criar empresas. É impressionante.

 

Essas reformas propostas pelo governo podem mudar esse cenário e fazer com que o Brasil se torne também um grande inovador? E mais competitivo?

 

Você vê propostas nessa direção? Quem é o ministro mais importante do governo? É o ministro da Fazenda, e não o ministro do Desenvolvimento, ao contrário de outros países. Você vai na Coreia do Sul e o ministro do Desenvolvimento, o ministro da Educação, o ministro do Bem-Estar Público são os mais importantes do país. Aqui no Brasil, a todo instante o ministro da Fazenda está sendo procurado pela mídia de modo geral para dar entrevistas, e ele termina sempre dizendo ‘estou pensando em aumentar impostos’.

 

A crise então tem pautado a mídia nacional em detrimento de outros assuntos.

 

Se a mídia nos ajudasse, quem sabe a gente pudesse mudar a cabeça dos nossos legisladores. Legislar menos e fazer mais.

 

 

Sugestão de olhos:

 

Temos fábrica do mundo inteiro aqui no Brasil mas não temos fábricas do Brasil no mundo inteiro

 

o Brasil se tornou pouco significativo no mundo em relação às inovações

 

Biografia de Ozires Silva

 

- Nascido em Bauri (SP), em 8 de janeiro de 1931, é oficial da Aeronáutica e formado em Engenharia Aeronáutica

- Reitor do Centro Universitário Unimonte, em Santos (SP), que faz parte do Grupo Ânima Educação no qual é integrante do Conselho Estratégico

- Em 1970 liderou o grupo que promoveu a criação da Embraer, bem como a equipe que projetou e construiu o avião Bandeirante, dando início à produção industrial de aviões no Brasil

- Presidiu a Embraer em 1986

- Presidente da Petrobras de 1986 a 1989

- Ministro da Infraestrutura em 1990

- Em 1991 retornou à Embraer, desempenhando papel importante na condução do processo de privatização da empresa, concluído em 1994

- Presidente da Varig entre 2000 a 2003

- Criou a Pele Nova Biotecnologia, primeiro fruto da Academia Brasileira de Estudos Avançados, empresa focada em saúde humana cuja missão é a pesquisa, desenvolvimento e produção de tecnologias inovadoras na área de regeneração e engenharia tecidual

- Membro de dezenas de Conselhos e Associações de Classe

- Autor de seis livros: “Rotas de um empreendedor”; O sonho que decolou – a fascinante história da Embraer”; Nas asas da educação: a trajetória da Embraer”; “A decolagem de um sonho”; “Cartas a um jovem empreendedor: realize o seu sonho. Vale a pena”; “Etanol: a revolução verde e amarela”. Teve ainda a biografia escrita por Décio Fischetti, intitulada “Um líder da inovação”.


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