08/03/2017 às 08h23min - Atualizada em 08/03/2017 às 08h23min

O papel do caixeiro-viajante na economia

(*) Antonio Carlos de Oliveira

É fato que o nosso país está vivendo um momento delicado. Mas assim como na vida, na economia também é necessário que um posicionamento seja tomado, e neste caso, o Brasil precisa se tornar uma espécie de caixeiro-viajante de modo a aquecer as relações exteriores, definindo novas estratégias, com vistas ao reposicionamento do comércio internacional, abrindo novos mercados para dar sustentação à retomada do crescimento nessa nova fase da economia brasileira.

Dados da Organização Mundial do Comércio mostram que a maior parte das compras e vendas entre nações, é realizada por meio de acordos comerciais bilaterais ou por blocos econômicos. Isso significa que, apesar da lentidão com que o assunto foi tratado pelos últimos governos brasileiros, ampliar a rede de acordos é fundamental para o Brasil, só assim o país deixará o atual isolamento em que se encontra.

 

Dados recentes obtidos durante o Fórum Econômico Mundial, destacam que a economia brasileira foi afetada no último ano pela deterioração de fatores considerados básicos para a competitividade, como ambiente econômico, desenvolvimento do mercado financeiro e, principalmente, capacidade de inovação. O país perdeu seis posições em 2016 e atinge a pior posição em 20 anos.  Em quatro anos, o Brasil caiu 33 posições na lista do Fórum Econômico Mundial.

 

Para participar ativamente do comércio global diante das oportunidades surgidas recentemente, temos razões para uma análise otimista: o rompimento do Tratado de Associação Transpacífico. O motivo é que esse acordo colocava o Brasil em uma posição isolada no cenário internacional, que vive hoje a tendência do estabelecimento de grandes acordos regionais e multilaterais. Por isso, uma conseqüência positiva desse rompimento para as relações exteriores brasileiras, é a possibilidade de um reaquecimento das exportações para os países que integram o grupo, uma vez que em virtude da eliminação de tarifas e barreiras para a circulação de mercadorias proposta pelo TPP, antes era mais vantajoso para os países que integram esse acordo, comprarem produtos de quem faz parte dessa zona de livre comércio.

Outro motivo para que agora o Brasil assuma esse papel estratégico, é o rompimento entre o Reino Unido e a União Européia. Essa ruptura tem conseqüência direta em acordos mundiais que hoje são negociados, como o do Mercosul - do qual o Brasil já faz parte e deverá ser uma das prioridades do atual Ministro.

Entre as oportunidades promissoras para o país, está a maior inserção internacional; espaço para o investimento privado; a internacionalização das empresas brasileiras; nova pauta de inovação tecnológica; e simplificação e modernização dos marcos regulatórios.

Segundo relatório de pesquisas recentes da Fundação Dom Cabral, os principais desafios para se fazer negócios no Brasil, apontados por executivos em pesquisa de opinião, foram: tributação, corrupção, leis trabalhistas e ineficiência da burocracia estatal.

"O desenvolvimento da competitividade brasileira só será possível a partir da incorporação de tecnologias, amadurecimento das empresas e empresários, aumento da produtividade e ganhos de comércio internacional, desenvolvida e orientada via uma agenda clara e transparente", conclui o relatório.

Expandir os negócios não só é possível como extremamente necessário. De que forma? Nosso país precisa tomar uma postura de caixeiro-viajante, deixando para traz a postura de cunho político ideológico regionalista reinante até bem pouco tempo, abrindo novos mercados e novas possibilidades de comércio, priorizando negociações em condições favoráveis de compra e venda e bom relacionamento com os blocos econômicos mundiais.

Não podemos nos esquecer de que uma peça fundamental nesse tabuleiro é a figura do Ministro de Relações Exteriores do Brasil, que tem, ou deveria ter como vocação, abrir novos mercados, pensando estrategicamente. E nesse quesito temos uma novidade: O senador Aloysio Nunes (PSDB), nomeado recentemente pelo Presidente da República. Advogado, formado pela Universidade de São Paulo, com pós-graduação em ciência política e economia política pela Universidade de Paris desfruta de bom transito nas esferas internacionais.

Um bom currículo, mas não é o bastante. Para que o novo ministro aproveite todas essas possibilidades de crescimento, é necessário que o país promova reformas, melhore a gestão pública, simplifique o marco regulatório, modernize a legislação trabalhista e previdenciária, promovendo a credibilidade que o país já desfrutou no passado, isso provocará um efeito na posição do custo país, tornando nossa economia mais competitiva e atualizada. Ações assim provocaram mudanças significativas no México e está acontecendo com a Índia e a Colômbia.

Com bom transito no congresso, o atual Ministro de Relações Exteriores deveria liderar uma força tarefa para cumprir o primeiro dever de casa. Simultaneamente, criar uma agenda clara, organizar e liderar grupos empresariais, atacando o mercado externo, promovendo a visibilidade da nossa economia, tanto importadora quanto exportadora, tornando o nosso país mais competitivo. Afinal, de nada adianta termos um bom caixeiro-viajante nos representando, se não tivermos um pensamento estratégico bem definido para nortear nossas ações, não é mesmo?!

(*) Analista de negócios – Professor universitário. 


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