20/02/2017 às 09h20min - Atualizada em 20/02/2017 às 09h20min

ENTREVISTA O Brasil precisa avançar nas reformas

EX-PRESIDENTE DO BANCO CENTRAL, GUSTAVO LOYOLA APONTA CRESCIMENTO DE 0,7% ESTE ANO E A NCESSIDADE DE APROVAÇÃO DE REFORMAS NO CONGRESSO

Walace Torres - editor

Na última terça-feira, um evento promovido pela Associação Nacional das Instituições de Crédito, Financiamento e Investimento (Acrefi) lotou uma das salas do Center Convention em Uberlândia. Era para falar de crise. Não o que a provocou, mas sim os desafios, riscos e oportunidades que precisam ser analisados para que o Brasil possa retomar a rota crescimento econômico. O convidado ilustre daquela manhã era simplesmente o economista Gustavo Loyola, duas vezes presidente do Banco Central e atualmente diretor da Tendências Consultoria Integrada que, para este ano, projetou um crescimento para o Brasil em torno de 0,7%.

Gustavo Loyola foi enfático ao afirmar que, em 2017, a economia brasileira vai se recuperar. Não de uma vez, mas ao longo do tempo, podendo chegar a um patamar de 2,8% de crescimento em 2018. Acontecimentos no cenário internacional e nacional irão influenciar diretamente no ritmo de crescimento. Internamente, um dos pontos ressaltadas é a necessidade de o país avançar nas reformas em discussão no Congresso Nacional.

Antes da palestra, o economista atendeu ao Diário do Comércio numa entrevista exclusiva.

 

 

Muito tem se falado que é na crise que surgem as oportunidades. É isso mesmo?

 

Sem dúvida. A crise oferece oportunidades, desafios e riscos também. Ela de alguma forma sacode os mercados, os consumidores, as empresas. As empresas, por exemplo, têm que se reposicionar, cortar custos, escolher prioridades. Os consumidores também têm que escolher prioridades. Há muitas gorduras, ineficiências econômicas, que são enfrentadas durante o período de crise. Os mercados mudam muito e muitos competidores saem do mercado. É um momento de oportunidade para quem consegue navegar de uma maneira mais competente e antecipando movimento e tendências.

 

O que podemos esperar para 2017 com as medidas tomadas pelo governo para tentar impulsionar a economia, como a aprovação da renegociação da dívida dos estados, a Reforma da Previdência para ser votada e algumas projeções de crescimento ainda tímidas?

 

Podemos esperar uma recuperação da economia brasileira não muito forte ainda. O PIB esse ano deve crescer em torno de 0,7% apenas, mas apresentando um crescimento acelerado ao longo do ano. As condições de crédito devem melhorar porque o Banco Central está baixando a taxa de juros e isso deve reduzir o custo do crédito. Além disso, a inflação mais baixa também ajuda a diminuir a perda de renda real dos consumidores. Então eu acredito que essa recuperação é perfeitamente possível. É claro que depende ainda de algumas questões, como a reforma da Previdência, é importantíssimo que ela seja aprovada pelo Congresso sem grandes mudanças...

 

Mas da maneira como o texto está?

 

Se houver alguma mudança, que seja sem desfigurá-la [a reforma]. E também importante que a crise política não paralise o governo e faça com que ele acabe perdendo o timing para avançar outras reformas que têm sido cogitadas, como a Reforma Trabalhista.

 

Há 20 anos pelo menos escutamos falar da necessidade de uma Reforma Política. Mas o que vemos ao final de toda Legislatura são aprovações de propostas fatiadas, desfigurando o contexto do que se pretendia ou até mesmo alterando normas impostas pelo TSE por meio de resoluções. O senhor diria que a Reforma Política é a reforma das reformas ou há outras mais urgentes?

 

Eu diria que a Reforma Política é uma das mais importantes e que tem sido adiada por muito tempo, como você mesmo mencionou. É natural que os políticos sejam muito reticentes ou aversos à Reforma Política porque isso afeta o mercado eleitoral, ou seja, coloca o mandato deles em risco, mas ela é necessária. Com todos esses episódios da Lava Jato, o problema criado no financiamento de campanha e ainda a pressão popular vão levar o Congresso a rever algumas questões na área política. Principalmente reduzir o número de partidos, fortalecer o sistema partidário para que você possa diminuir esse tipo de barganha política como vimos no caso da Lava Jato.

 

A liberação dos saques das contas inativas do FGTS vai dar um impulso inicial neste começo de ano na economia? A previsão é de R$ 30 bilhões no mercado.

 

Ajuda sim. Vai possibilitar que as famílias possam gastar um pouco mais, e parte disso vai ser usado para quitar dívidas, a médio prazo vai ajudar na retomada do consumo. Então acho que tem um efeito positivo, embora transitório.

 

Como economista, a dica é realmente pagar as dívidas?

 

Sim, as dívidas são caras e o governo deu oportunidade de tirar o dinheiro que estava rendendo TR mais 3% apenas, e você pode pagar dívidas que têm juros muito maiores. Para quem está endividado é uma boa indicação.

 

O custo da máquina pública no Brasil é muito alto. Como rever essa questão, que desagrada os partidos e políticos?

 

O grande problema são as corporações, os lobbies corporativos. O caso dessa greve absurda de policiais no Espírito Santo, por exemplo, que é um Estado que sempre cuidou bem das suas finanças e sendo pressionado dessa maneira e chantageado. A sociedade não pode sancionar essas pressões que vem de corporações. Os governos têm que fazer o que qualquer empresa ou pessoa faz, ou seja, à medida que você tem uma queda de receitas, de arrecadação, tem que cortar despesas. Não tem outro jeito. Tem que ter uma máquina pública que seja eficiente e capaz de entregar à sociedade o melhor possível em termos de serviço mas sem que isso represente a abertura de um rombo no orçamento público.

 

Nas três esferas de governo?

 

Isso vale para o município, para o Estado e para a União também.

 

Mas é difícil mudar um conceito implantado há décadas no pais.

 

É difícil mas não é impossível. A maioria dos países do mundo vive com situação fiscal boa, por que então o Brasil deveria ser diferente? Nós começamos a entrevista falando que a crise traz oportunidades, eu acho que esta crise particularmente está trazendo uma oportunidade de se fazer reformas. Inclusive escrevi um artigo recentemente lembrando o ministro Roberto Campos, que faria 100 anos este ano,  e ele tinha uma frase que dizia: “o risco dos países é o meio sucesso”, porque o fracasso, a crise, leva a sociedade a encarar melhor as reformas. E o sucesso em si significa que você já ultrapassou um determinado patamar e a economia está indo muito bem. Já o meio sucesso não. Você perde o ânimo da reforma mas, por outro lado, você não resolveu os seus problemas. Foi isso que aconteceu com o Brasil, o meio sucesso. Nós perdemos muito tempo, aproveitamos o período do boom de commodities e paramos todo o processo reformista. Agora, com a crise, temos essa chance, por exemplo, de fazer as reformas da Previdência, Trabalhista e outras reformas que se fazem necessárias.

 

A Lava Jato está realmente passando o país a limpo?

 

Sem dúvida. A Lava Jato está sendo um choque no sentido positivo para o país, mostrando algo que muita gente desconfiava que existia, sabia que existia, mas que de alguma forma estava camuflado. A Lava Jato está revelando um esquema de corrupção nos seus extremos, mas ao mesmo tempo, está revelando a maneira pela qual a política é financiada no Brasil. Ela traz não apenas a oportunidade de punir os responsáveis por isso, mas, principalmente, de rever certos mecanismos políticos e econômicos que acabam favorecendo a corrupção.

 

Na sua avaliação, quais os principais vetores para o Brasil retomar o crescimento?

 

O Brasil precisa ter uma economia competitiva, pois no mundo atual é o que importa, é o que vai fazer a diferença entre o país crescer em média 2%, 3%, 4% ao ano. É com a produtividade que o país vai poder resolver de maneira mais definitiva o problema das desigualdades. Precisamos de políticas de curto, médio e longo prazos que importem em crescimento de produtividade. Vale dizer reformas, investimento em educação, em infraestrutura, são várias etapas que precisam ser cumpridas para que a gente possa chegar a um nível de produtividade mais compatível ou assemelhado com os países que são os grandes motores de crescimento global, e a maioria dessas economias está na Ásia.

 

Muito se fala que o Brasil é um país com enorme potencial, terra fértil, agronegócio pujante. Mas de uns tempos pra cá, saímos dos trilhos?

 

Sem dúvida o Brasil saiu dos trilhos. Acho que a gente vinha numa trajetória boa até o primeiro mandato do presidente Lula e de repente a política econômica descarrilhou totalmente. O governo petista fez opção ideológica claramente errada, atrasada, de maior intervencionismo, de criar maiores dificuldades para os negócios para o desenvolvimento do capitalismo e deu no que deu. Simplesmente o Brasil não fez reformas e caímos onde caímos.

 

 

(OLHOS)

 

É com a produtividade que o país vai poder resolver de maneira mais definitiva o problema das desigualdades

 

Os governos têm que fazer o que qualquer empresa faz, ou seja, à medida que você tem uma queda de receitas, tem que cortar despesas. Não tem outro jeito.


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