30/01/2017 às 10h51min - Atualizada em 30/01/2017 às 10h51min

Saúde, ocupação e segurança são prioridades

Novo reitor da ufu diz que reabertura de leitos no hc e desocupação do campus glória são medidas para médio prazo

Walace torres | editor - JDC
Walace torres | editor

Com 200 leitos fechados há praticamente um ano, o Hospital de Clínicas da Universidade Federal de Uberlândia (UFU) não deverá retomar, no médio prazo, a sua capacidade plena, que hoje é de 530 leitos. Também não há uma definição no horizonte em relação à ocupação da área no Campus Glória, apesar de haver uma determinação judicial de reintegração de posse. Esses dois problemas, somado à insegurança nos campi da UFU, são prioridades a serem tratadas pelo novo reitor da universidade, ValderSteffen.

Contratado em 1976 pela antiga Faculdade Federal de Engenharia, antes, portanto, da federalização da UFU, Steffen só veio a assumir as funções de professor em 1980. Antes, foi liberado para fazer mestrado e doutorado na França. De volta, fez uma carreira dupla. Atuou nas áreas acadêmica, científica, sempre voltado para o trabalho de pesquisa, ensino de graduação, pós-graduação, atividades de orientação, mestrado e doutorado. Também ocupou diversas funções administrativas, como chefe do Departamento de Engenharia Mecânica, coordenador de pós-graduação na mesma faculdade, diretor do Centro de Ciências Exatas e Tecnologia, pró-reitor de Planejamento e Graduação, além de contribuições em órgãos dos governos estadual e federal.

Em entrevista ao Diário do Comércio, o novo reitor demonstrou que sua experiência acadêmica e administrativa será bastante exigida numa gestão que assume com dívidas superiores a R$ 50 milhões no Hospital de Clínicas.

 

 

O senhor tem 40 anos de UFU. Nesse período tanto a universidade quanto a cidade tiveram um crescimento bastante acelerado. O que o senhor traz com a sua experiência?

 

A universidade tem crescido muito nos últimos anos. Com a implantação do projeto Reuni(Programa de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais) e com a expansão, criamos novos cursos, novos turnos e os campi fora de Uberlândia -Patos de Minas, Monte Carmelo e Ituiutaba. O primeiro grande desafio de qualquer universidade do mundo é o compromisso com a qualidade do ensino, e nós temos desde a pré-escola, com a Eseba, até o pós-doutorado. Ou seja, toda a nossa atividade de ensino tem que ter qualidade para cumprir o papel que a UFU precisa cumprir junto à sociedade.  A outra grande responsabilidade é a relevância da pesquisa que a gente faz e que em muitas áreas está atrelada à inovação.Geralmente, a questão da pesquisa é muito relacionada aos cursos de pós-graduação, então o desafio é tornar esses cursos cada vez melhores. Outro grande desafio é ter uma interlocução construtiva com a sociedade. A gente chama isso de atividades de extensão. A universidade já tem várias interfaces com a sociedade, talvez a maior delas seja aquilo que a gente faz através do Hospital de Clínicas. Mas não é só isso. As atividades de extensão se manifestam através da cultura, das artes, e isso é extremamente importante para a UFU. Temos que ter uma parceria bem sucedida com a sociedade, afinal de contas é ela que garante os recursos para o nosso funcionamento.

 

O Hospital de Clínicas tem 200 leitos fechados e a rede municipal não dá conta de atender toda a demanda da cidade, que ainda recebe muitos pacientes da região. Tem ainda o novo Pronto Socorro do hospital com obras inacabadas. Como equacionar tudo isso diante desse gargalo que é a saúde pública?

 

O potencial de atendimento do nosso hospital é da ordem de 530 leitos. Se ele operar com os 530 leitos, significa que nós seremos o maior hospital público 100% SUS do Estado de Minas Gerais. É um potencial significativo.

 

Alguma vez ele já operou em sua totalidade?

 

Já sim. Mas o que tem acontecido nos últimos anos? Temos alguns problemas relacionados ao subfinanciamento da saúde – ou seja, as vezes o hospital executa um determinado serviço sem que ele seja remunerado conforme o custo desse serviço. Então cada vez que você executa esse serviço para a comunidade o hospital tem um certo déficit. Isso precisa ser corrigido.

 

O HC ainda tem muitos serviços que não são remunerados?

 

Nós temos muitos serviços que ainda não foram habilitados. Vou dar um dos exemplos mais recentes: a unidade coronariana que temos funcionou dois anos sem ser habilitada. Apenas agora no final de 2016 é que ela foi habilitada, ou seja, que esse serviço passou a ser remunerado de maneira compatível com as despesas que a universidade tem. Outro problema é que os repasses feitos pelo Governo Federal têm ocorrido com muito atraso e boa parte dos compromissos do Hospital são para pagamentos à vista. Então, muitas vezes a Faepu (Fundação de Assistência, Estudo e Pesquisa de Uberlândia – que gerencia o hospital) recebe tardiamente os recursos. Consequentemente, se ela tem uma despesa urgente a ser feita, isso traz uma enorme dificuldade para garantir o funcionamento. De algum tempo pra cá se optou por reduzir o atendimento para ver se as despesas se equilibravam com as receitas. Mas a nossa expectativa, o nosso projeto, é que possamos aos poucos ir recuperando a capacidade de atendimento do hospital.

 

Isso seria possível a médio prazo?

 

O nosso desejo é esse, mas não depende só da universidade. Os repasses precisam ser normalizados. Ohospital também precisa funcionar dentro daquilo que chamamos de rede. Através dessa rede nós temos todos os municípios em volta de Uberlândia que utilizam os serviços do Hospital de Clínicas, e é assim que deve ser mesmo. Só que a atenção básica deve ser feita nos municípios. E às vezes, quando isso não é feito dessa maneira, quando o paciente é encaminhado direto para o hospital, isso também onera e dificulta o bom funcionamento do sistema como um todo. Tem uma outra questão que não podemos esquecer: o nosso hospital, que tem essa grande responsabilidade de atendimento à população, é, primeiramente, um Hospital Escola. Portanto, como disse no início, temos que garantir a qualidade do ensino de graduação. E não é só graduação em Medicina. Temos também Enfermagem, Fisioterapia, Nutrição, que são cursos que dependem diretamente do bom funcionamento do hospital. Tem vários outros cursos que realizam seus projetos dentro do hospital, por exemplo, na área de Bioengenharia. Vários dos atendimentos hospitalares hoje só são possíveis por causa de equipamentos de grande sofisticação. Tem ainda a residência médica que é extremamente importante, e a residência multiprofissional. Epara que todo esse conjunto funcione adequadamente tem vários fatores que precisam desempenhar o seu papel da melhor maneira possível. Então existe a direção do hospital, a direção da Faculdade de Medicina, a Reitoria da universidade, o gestor municipal de saúde, que de certa maneira representa o ministro da Saúde em Uberlândia, temos todos os municípios em volta, mais o Ministério da Saúde e o Ministério da Educação. Todos esses atores precisam interagir de uma maneira muito positiva para que tenhamos sucesso. Inclusive com a ajuda do Ministério Público, que observa de maneira quase constante como tudo funciona. E ele tem feito recomendações muito importantes.

 

Por falar em Ministério Público, a UFU enfrenta outro grande problema que é a ocupação na área do Campus Glória, que vem desde 2012. Como resolver essa questão?

 

Essa questão me deixa extremamente preocupado. De um lado existe a lei, e ela tem que ser cumprida. Só que do outro lado há uma questão social da maior gravidade. A UFU não gostaria de aparecer na mídia envolvida numa ação violenta que porventura venha ocorrer em decorrência de reintegração de posse daquela área.

 

Já há um pedido de reintegração concedido pela Justiça.

 

Como disse, existe a lei e não podemos ignorá-la. Ao contrário, precisamos cumpri-la. Estamos estudando alternativas. Quais seriam: existe a possibilidade de uma troca da área com outra que seja compatível. Numa primeira tentativa dentro dessa linha se considerou que as áreas colocadas à disposição da universidade não eram compatíveis em termos de seu valor com aquilo que a universidade estaria abrindo mão.

 

É o caso da área de Capim Branco.

 

Seria essa área sim, por exemplo. Mas nós estamos aguardando nos próximos dias um encontro com o prefeito para discutir essa questão com ele. É claro que, incialmente, é um problema de responsabilidade da universidade por se tratar de uma área federal. Por outro lado, essa área está dentro do Município de Uberlândia. Não há como buscar solução sem uma parceria, um entendimento com a Prefeitura. Além disso, iremos buscar autoridades em Brasília para que nos ajudem a superar esse problema.

 

De todo jeito, não haverá uma solução rápida. São quase 20 mil pessoas instalada ali.

 

É um contingente de pessoas extremamente grande. Penso que uma solução rápida não está no nosso horizonte. Será uma solução negociada no médio prazo.

 

Hoje,acontecem muitos furtos, roubos e outros crimesnos campi Santa Mônica e Umuarama. O que pode ser feito para melhorar a segurança?

 

Isso não se deve necessariamente à densidade de ocupação desses espaços. Estamos num país com muita violência, e numa região onde tem havido violência. E a universidade não fica imune. Por outro lado, não podemos admitir que as pessoas que vêm para trabalhar, estudar ou outra finalidade tenham algum risco enquanto estão convivendo aqui no campus. Estamos estudando várias medidas. Algumas já estão sendo tomadas, por exemplo, um sistema de monitoramento por câmeras em que, a partir de uma central, será possível observar tudo que acontece em diferentes locais. Estamos fazendo uma parceria com a Polícia Militar para olhar de uma forma cuidadosa o entorno dos campi da UFU; vamos fazer também a identificação dos veículos que entram no campus. A ideia preliminar é que os veículos pertencentes a um membro da comunidade universitária tenham um adesivo no para-brisas, e a identificação será mais rápida para não comprometer a entrada. Já os veículos que não estão cadastrados terão um processo de identificação mais cuidadoso. Teríamos que ter duas filas de entrada no campus. Teremos ainda um serviço de telefone para que a pessoa que se sinta insegura em determinado horário do dia ou da noite, ela possa ser acompanhada por um segurança.

 

Com relação a gestão do Hospital de Clínicas, qual a sua posição, manter a Faepu ou trazer a Ebserh (Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares)?

 

Primeiro, as duas coisas não são excludentes. Não significa que se um dia a universidade vier a adotar a Ebserh que a Faepu desaparece. A Faepu continuaria com a possibilidade de prestar serviços, seja para o hospital ou para a própria Ebserh. No momento, o que aconteceu numa primeira rodada de negociações é que a Ebserh teria muita dificuldade de absorver o eventual passivo trabalhista da Faepu que é muito elevado. Além disso, quando da criação da universidade, várias edificações ocorreram em áreas que pertencem à Faepu. Isso traz enorme dificuldade. Essas áreas tem um valor, há vários espaços ocupados pelo Hospital de Clínicas que estão em terrenos da Faepu. Essa questão teria que ser resolvida. E a Ebserh tem resistência em resolver essa questão, adquirindo essas áreas para a universidade. Hoje existem apenas três hospitais universitários federais que não estão na Ebserh: Hospital São Paulo da Unifesp, o Hospital da Universidade Federal do Rio de Janeiro e o nosso. Então, existe uma expectativa do lado da Ebserh de que a médio ou longo prazo essa questão evolua. Mas, nesse momento, não enxergamos maneiras de superar essa questão. Por isso, creio que no nosso horizonte está a responsabilidade de recuperar a saúde financeira da Faepu.

 

Como está a situação financeira da UFU. Muitas dívidas?

 

A Faepu tem uma dívida com fornecedores elevada, que preocupa e impressiona pelo seu tamanho e que não pode ser quitada imediatamente. E quando a gente deve a fornecedores, dificulta até o processo de compra de medicamentos e insumos para o hospital. Essa é uma questão extremamente grave e que explica, em parte, o desabastecimento que tivemos no hospital ano passado. Se você aumenta o atendimento, obviamente você gasta os medicamentos e demais insumos numa velocidade maior. E se não tiver como repor esses produtos enquanto eles vêm sendo gastos, o que acontece lá na frente é que se algo não for feito o hospital perde a capacidade de atendimento porque não tem nem os medicamentos em quantidade suficiente para ter um atendimento adequado.  Essa é a nossa preocupação. Nos próximos dias iremos escolher os novos diretores do Hospital de Clínicas, e contamos com uma comissão de apoio à gestão hospitalar para ajudar em questões como a administração pública do hospital, problemas de contabilidade, na tecnologia da informação – é muito importante a informatização do hospital até para se reduzir custos.

 

Essa dívida está em torno de quanto hoje?

 

Da ordem de R$ 50 milhões. É uma dívida que vem de várias gestões. Por mais que se faça, não se consegue diminuir. Ela vem sendo corrigida e ampliada.

 

Nos últimos dois anos o hospital chegou a ser parcialmente fechado devido à dificuldade financeira. É possível que isso venha a acontecer novamente?

 

Houve uma redução dos atendimentos. Nenhum gestor deseja isso. Essa decisão de reduzir o atendimento é uma decisão dura, difícil para qualquer gestor. Quando ela é tomada é porque realmente não houve outra alternativa. Estamos trabalhando fortemente para ver como garantir o funcionamento do hospital pelo menos da maneira como está, sem prejudicar o atendimento à saúde e, ao mesmo tempo, garantindo o funcionamento para atender também essa responsabilidade que ele tem de um hospital escola.

 

Então, a médio prazo, é pouco provável que esses leitos que estão fechados voltem a funcionar.

 

Essa é a nossa vontade e vamos trabalhar para isso. Mas, no momento, é difícil antecipar quando é que isso poderá ocorrer.

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