O coração partido existe — e não é apenas metáfora! Uma perda inesperada, uma separação, um acidente ou o diagnóstico de uma doença grave podem provocar sofrimento profundo. Em algumas pessoas, porém, o impacto alcança diretamente o músculo cardíaco. É a síndrome de Takotsubo, conhecida como síndrome do coração partido: uma disfunção súbita, geralmente temporária, desencadeada por estresse emocional ou físico intenso.
O nome Takotsubo vem de um vaso japonês usado para capturar polvos. Durante a crise, o ventrículo esquerdo pode assumir formato semelhante ao desse recipiente, porque uma parte perde força enquanto outras regiões continuam se contraindo. Também pode surgir após cirurgias, infecções graves, crises respiratórias, dor intensa e, mais raramente, emoções positivas muito fortes.
Um infarto sem artéria obstruída
A manifestação costuma ser abrupta. Dor ou pressão no peito, falta de ar, palpitações, suor frio, tontura e até desmaio são sintomas possíveis. O eletrocardiograma pode apresentar alterações semelhantes às do infarto, e exames de sangue podem mostrar elevação da troponina. O ecocardiograma também revela redução da capacidade de contração.
Por isso, ninguém deve concluir em casa que se trata “apenas de estresse”. A prioridade é procurar uma emergência e tratar inicialmente o quadro como possível síndrome coronariana aguda. No infarto clássico, uma placa de gordura se rompe, forma um coágulo e obstrui uma artéria coronária. Na síndrome de Takotsubo, a investigação geralmente não encontra uma obstrução capaz de explicar a alteração. A cinecoronariografia e, em alguns casos, a ressonância magnética ajudam a confirmar o diagnóstico e afastar a miocardite.
Quando a adrenalina atordoa o coração
O mecanismo ainda não está completamente esclarecido, mas o principal protagonista parece ser uma descarga excessiva de hormônios do estresse, especialmente adrenalina e noradrenalina. Em grande quantidade, essas substâncias podem causar toxicidade temporária nas células cardíacas, alterações na circulação dos pequenos vasos, espasmos e perturbações no uso do cálcio, essencial à contração. O resultado é um “atordoamento” do miocárdio: parte do coração passa a bombear com pouca eficiência.
A síndrome ocorre principalmente em mulheres após a menopausa, embora também possa atingir homens e jovens. Alterações hormonais, doenças neurológicas ou psiquiátricas e sobrecarga física parecem aumentar a vulnerabilidade. Nos homens, gatilhos físicos graves são mais frequentes e a evolução pode ser mais complicada.
Temporária não significa inofensiva
A maioria dos pacientes recupera a função cardíaca ao longo de dias ou semanas. Entretanto, chamar a síndrome de benigna é um erro. Na fase aguda, podem ocorrer insuficiência cardíaca, edema pulmonar, arritmias graves, coágulos dentro do ventrículo, acidente vascular cerebral, choque cardiogênico e parada cardíaca. Em situações extremas, ela pode ser fatal.
Mesmo após a normalização do ecocardiograma, alguns pacientes mantêm cansaço, falta de ar, dor torácica, ansiedade ou menor capacidade para esforços. Recorrências também são possíveis. Por isso, o acompanhamento cardiológico deve reavaliar sintomas, medicamentos, fatores de risco e, quando indicado, incluir apoio psicológico ou psiquiátrico.
Proteger a mente também protege o coração
Não existe fórmula capaz de impedir todos os episódios. Ainda assim, reduzir a sobrecarga crônica fortalece a capacidade de enfrentar acontecimentos inevitáveis. Atividade física regular, alimentação baseada em alimentos naturais, controle da pressão, do colesterol e da glicose, sono reparador, menor consumo de álcool e abandono do tabagismo protegem o sistema cardiovascular.
Meditação, respiração consciente, psicoterapia, convivência social e pausas reais na rotina podem ajudar a modular a resposta ao estresse. Essas estratégias não substituem tratamento médico nem garantem prevenção, mas reduzem a exposição persistente a hormônios que mantêm o corpo em alerta. O coração partido mostra que emoção e biologia não vivem em mundos separados. Cuidar do que sentimos não é fragilidade: é também uma forma concreta de cuidar do coração.
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