10/04/2026 às 08h00min - Atualizada em 10/04/2026 às 08h00min

Mudanças

WILLIAM H STUTZ

Quando moleque em minha Belo Horizonte, se você perguntasse qual o pior dia do ano para nós, crianças, a resposta vinha ligeira e quase unânime: sexta-feira da Paixão. Não tínhamos a menor visão religiosa da importância da data, mas para nós era dia do nada, do não. Tudo era proibido de se fazer: não se podia brincar, gritar, correr. Roubar fruta de quintal era passaporte para o inferno, um inferno pior do que o de Dante em sua Divina Comédia, que nem lido ainda tínhamos. Os seus nove círculos e aquela descida através de pecados como Luxúria, Gula, Ganância, Ira, Heresia, Violência, Fraude e Traição, fechando no centro da Terra, onde Lúcifer estaria te esperando com garfo e faca e chibata. E que criança poderia ser condenada por algo assim só por brincar ou xingar alguém em uma Sexta-Feira Santa?

Lembro que ficávamos todos na calçada de pedra a olhar o matinho que nascia entre os paralelepípedos e contar formigas, isso com cara de quem comeu e não gostou, a suspirar. O pior era não saber o motivo de tamanho “castigo”. Chegava mais um. Que vontade de sapecar aquele tapa amigável na nuca do cara, mas e o medo do reino do capiroto? Era um entreolhar a convidar a sentar e fazer absolutamente nada.

O comércio todo fechado, nem a padaria ABC e muito menos a banca ao lado do ponto de táxi vazio, onde a duras penas e vaquinhas conseguíamos, de vez em quando, comprar um “catecismo” do Carlos Zéfiro. Sempre um irmão mais velho de algum de nós, servindo o 12º RI, ia lá fardado e comprava para nós, e sempre vinha o dedo em riste: “Vocês ficam me devendo mais essa, não vou me esquecer”. Assentíamos sempre sem pestanejar, com um balaço curto de cabeça.

Sexta-feira da Paixão: nem o Panorama abria, mas esse não fazia diferença; ali só depois dos 18, era um bar. Mas a sorveteria São Domingos, na Getúlio Vargas, fazia uma falta brava. Ô vontade de tomar um sorvete que vinha do nada!

Dava hora de almoço, seguia cada um para sua casa em silêncio e andar lento de procissão. Em todas as mesas era quase sempre a mesma coisa: um arroz branco, salada, sardinha ou ovo frito. Sobremesa, nem pensar.

A televisão coberta por um pano bordado ficava a nos espiar entre a malha do tecido, calada, muda de tudo. Nos outros dias era só ligada na hora do Repórter Esso. Às nove da noite vinha a irritante musiquinha: “Tá na hora de dormir...”. Jurei que, quando crescesse, jamais compraria os tais cobertores Parahyba. Ainda existem será?

Cinema? Todo ano a mesma coisa: íamos em turma assistir Os Dez Mandamentos, com Charlton Heston no papel de Moisés, Yul Brynner no papel de Ramessés II e Anne Baxter como Nefertari, esposa do faraó. Acho que vi umas dez vezes, e a abertura do Mar Vermelho era o momento mais espetacular do filme. A direção foi de Cecil B. DeMille. Esses detalhes só vim descobrir muito tempo depois, quando adulto virei cinéfilo.

Era o único filme que passava no Cine Pathé e, se não me engano, em todos os outros de Belo Horizonte nesse dia.

Sexta-feira da Paixão era o maior dia do ano. Devia durar umas 72 horas para nós. Não passava, arrastava, e nós ali no nada, sem coragem de perguntar o motivo de tanta penitência.

Todos nós sonhávamos com o Sábado de Aleluia. Esse era dia alegre! Aí a poeira ia levantar. Se segura, BH! Molecada dos Funcionários vai com tudo para as ruas!

Aí, velhos, crescemos, aprendemos e observamos. O Deus de Spinoza me fascinou cedo, bem cedo. E assim, que o Criador perdoe nossos pecados — e lá criança tem pecado? E que Ele abençoe todas as almas boas. Vá lá… e as ruins também!

*Este conteúdo é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.

 

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