(...) Poderoso para mim não é aquele que descobre ouro.
Para mim poderoso é aquele que descobre as
insignificâncias (do mundo e as nossas).
Por essa pequena sentença me elogiaram de imbecil.
Fiquei emocionado e chorei.
Sou fraco para elogios. (...)
Manoel de Barros
Muita gente escreve e bem, acho eu, alguns sobre economia, outros abordam com primor política, futebol, colunas sociais e até criam palavras cruzadas. Digo eu acho pois são temas que não me atraem em nada. Não me tomem por um alienado geral, acompanho tudo isso, mas com a devida distância, busco nas fontes o enredo e construo meu próprio julgamento sobre cada tema acima pontuados. Não sou de bater boca. Já fui, era de uma impulsividade horrível, criava caso à toa.
Hoje mais não. Acho que cada um pode pensar o que sua capacidade de discernimento e intelectual permite, quem sou eu para dar murro em ponta de faca.
Eu escrevo sobre o desimportante, sobre as miudezas que poucos põem reparo.
Claro que me inspirei em Rosa, Manoel Barros, Mark Twain começando com sua obra “As aventuras de Tom Sawyer”, o clássico Moby Dick de Herman Melville, Hans Standen, Júlio Verne me fez viajar e tantos que daria uma lista maior do que abaixo assinado contra o preconceito, a fome no mundo e as injustiça, fui desde muito novo um devorador de escritos.
Mas o curioso é que, apesar de toda essa gente grandiosa que me atravessou os olhos e a cabeça, nunca tive vontade de escrever sobre grandiosidades. Sempre me escapou esse ímpeto de explicar o mundo, de organizar o caos em colunas alinhadas ou de dar nome definitivo às coisas. O mundo, pra mim, sempre pareceu mais honesto quando deixado meio torto, meio sem resposta, meio escorrendo pelos cantos.
Talvez por isso eu me detenha no que ninguém põe olhos. Um copo esquecido na pia que ainda guarda a marca de batom, o barulho do portão do vizinho que range sempre no mesmo horário, o cachorro que late sem convicção para um nada que só ele enxerga. Essas pequenas cenas, que passam despercebidas pela maioria, me parecem mais verdadeiras do que qualquer manchete gritada.
Outro dia mesmo fiquei observando uma formiga carregando algo que, para ela, devia ser o equivalente a um piano. Ela ia, parava, parecia recalcular a rota, desistia por um segundo e depois retomava como quem lembra de uma promessa feita a si mesma. Fiquei ali, parado, acompanhando aquele esforço silencioso, e me dei conta de que nunca vi uma formiga discutindo política. E ainda assim, seguem construindo seus mundos com uma eficiência que nos falta.
Não é que eu fuja dos grandes temas, é só que eles não me convidam mais. Eles chegam já cheios de opinião, já vestidos de urgência, já exigindo lados. E eu, sinceramente, cansei de escolher lados como quem escolhe fila de banco achando que uma vai andar mais rápido que a outra. No fim, todas demoram, todas irritam, e a gente sai de lá com a sensação de tempo perdido.
Prefiro as pausas. Prefiro o instante entre uma coisa e outra, aquele espaço onde nada acontece e, justamente por isso, tudo pode acontecer. É ali que mora o que me interessa. É ali que a vida, sem alarde, se mostra.
Lembro de quando era mais novo, a pressa me guiava. Eu queria responder antes de entender, falar antes de ouvir, chegar antes mesmo de saber para onde estava indo. Hoje, não. Hoje eu gosto do caminho, gosto até dos desvios, dos erros de percurso que me levam a lugares que eu jamais escolheria num mapa.
Escrever, para mim, virou isso: um passeio prazeroso sem destino certo. Às vezes começo falando de uma coisa e termino em outra completamente diferente, como quem entra numa rua por engano e descobre um café escondido, desses que não aparecem em guia nenhum, mas que servem a melhor bebida da vida.
E veja, não é que eu queira convencer ninguém de nada. Não tenho essa pretensão. Quem lê, lê. Quem não lê, tudo bem também. Meu compromisso é só com esse olhar meio enviesado, meio distraído, que encontra importância no que foi descartado.
No fundo, acho que escrevo para não deixar que essas miudezas se percam completamente. Porque, se ninguém olha, elas desaparecem. E quando desaparecem, levam com elas pedaços daquilo que a gente é, mas nunca percebeu.
Talvez eu esteja errado, e quase sempre estou, mas desconfio que a vida não se sustenta nos grandes acontecimentos. Eles vêm e vão, fazem barulho, levantam poeira. O que fica mesmo são essas pequenas coisas, repetidas, quase invisíveis, que vão costurando os dias.
E é sobre isso que escrevo. Sobre o quase nada. Sobre o que escapa. Sobre o que não pede atenção, mas, quando ganha, revela uma espécie de beleza tímida, dessas que não se mostram duas vezes.
Se um dia alguém me perguntar por que escolhi esse caminho, talvez eu não saiba responder direito. Mas posso dizer que, entre explicar o mundo e apenas observá-lo, fiquei com a segunda opção. Ela exige menos certeza e oferece mais surpresa.
E, no fim das contas, surpresa ainda me parece uma boa razão para continuar.
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