Nasci meio esquisito, quase sem melanina, aquilo que dá cor na pele da gente. Coisa da genética, meus avós, russos PO – Puros de Origem, vieram do Cáucaso da região de Cabárdia-Balcária fugindo, judeus que eram, ainda crianças da perseguição bolchevique. Quem não fugiu foi sumariamente executado pelas tropas do assassino Lênin. Nossa família não era menchevique ligada a nenhuma minoria política. Foram perseguidos apenas por serem judeus. Fugiram para os Estados Unidos da América. Meu pai nasceu no Brooklyn, NY. Chega de autobiografia.
O fato é que passei toda minha infância e parte de adolescência a alvo de bullying por parte da moçada. Quase sem cor e pelos, pronto, alvo fácil para gozações. Quando tomava sol em praia ficava parecendo aquele sorvete de três sabores. Peito chocolate, bunda creme, pernas cor de morango.
Tanta gozação me dá o direito, na onda das minorias raciais, de não mais aceitar ser chamado de branco, branquelo ou genérico, similar então nem pensar.
A denominação agora deverá ser cáucasodescendente e não abro mão. Desta forma as cores pretas(o) e branca(o) serão abolidas do dicionário politicamente correto. Por decreto as substituo por afrodescendente e o já citado cáucasodescendente. Assim sendo algumas expressões serão alteradas sob pena de ser tachado de preconceituoso. Vamos citar algumas: bandeira branca será agora bandeira cáucasodescendente. Imagina a música na voz de Dalva de Oliveira: “Bandeira cáucasodescendente eu quero paz (...)”
fica mais legal, né!? Pássaro preto vira Pássaro Afro descendente, o Assum de Gonzagão também: “Tudo em vorta é só beleza / Sol de Abril e a mata em frô / Mas Assum afrodescendente, cego dos óio / Num vendo a luz, ai, canta de dor.”
A zebra, assim como a camisa do Galo Mineiro passa a ter uma listra afrodescendente e outra cáucasodescendente.
Dia de tempestade o céu estará afrodescendente em ameaça torrencial.
Se for de Campinas e não torcer para o Guarani, vibre com as vitórias da Ponte Afro descendente.
Qual a cor do cavalo cáucasodescendente de Napoleão?
Se a barra pesasse diria em murmúrio “é, meu, a coisa aqui está afrodescendente...”
Daniela Mercury cantaria:
“Sou amarrado nessa pele escura/ Na sua cultura / Em sua formosura/ Mas no final tudo é uma só mistura/ A mesma estrutura/Isso é beleza pura
E todo mundo aqui é afrodescendente e cáucasodescendente
E todo mundo aqui é afrodescendente e cáucasodescendente”
Como diz um dos atores mais lúcidos que conheço, Morgan Freeman em entrevista a Mike Wallace, clareza impressionante ao se referir às datas de consciência disso ou daquilo e como, se não acabar, pelo menos não tornar os preconceitos menos enraizados em nossa cultura, geradora de ódio, minorias e cotas, diz Freedon: “Deixemos de falar sobre ele (o preconceito).” Aos que me maldisserem por rir de mim mesmo eu solto a mais bela pomba cáucasodescendente da Paz.
E pensem bem, segundo o projeto Genoma “Não existem diferentes raças humanas, mas, sim, uma única espécie humana!”
E falando sério? Não tô nem ai por ser todo da cor bunda!
E viva Darwin!
Racismo, preconceito em nenhuma de suas formas, nunca mais!
O nome de nosso bloco de carnaval em Belo Horizonte “TODO MUNDO CABE NO MUNDO” Junte-se a nós neste mundo de inclusão total mesmo! É lindo”
Apresento para vocês:
“O bloco Todo Mundo Cabe no Mundo, de Belo Horizonte, baseia-se no enredo de inclusão radical, diversidade e "preconceito zero". Fundado pelo artista plástico Marcelo Xavier em 2016, o desfile celebra a ocupação democrática da cidade por corpos diversos, sem barreiras físicas ou sociais, tornando-se uma resistência alegre e um espaço de acolhimento para todas as pessoas.”
No mais, Gerais.
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