10/10/2025 às 08h00min - Atualizada em 10/10/2025 às 08h00min

A (des)importância de escrever

WILLIAM H STUTZ

Sobre o ofício de olhar o mundo pelas frestas do desimportante

Escrever, às vezes, parece um gesto inútil. Outras vezes, um sopro de resistência.

Muita gente escreve — e acho que escrevem bem, diga-se — sobre economia, política, futebol, colunas sociais. Digo “acho” porque são temas que não me atraem, não me chamam ao debate. Assuntos de banco de praça, de conversa de bar e mesa de almoço eu gosto e me inspiram. Não me tomem, porém, por um alienado: acompanho o que posso, do jeito que posso, à distância segura. Leio aqui, escuto ali, junto pedaços, formo meu próprio juízo e sigo.

Já fui de discutir, de querer ter razão, de levantar a voz em defesa de certezas frágeis.

Era de uma impulsividade horrível — criava caso à toa, como quem atiça o fogo pra ver o clarão. Hoje, não mais. O tempo de estrada ensina a diferença entre o necessário e o inútil, entre o gesto e o gasto. Descobri que discutir é, muitas vezes, um modo de tentar calar o outro dentro de nós. E não há vitória nisso.

Por isso, deixei as grandes causas para quem as carrega nos ombros. Escrevo, eu, sobre o desimportante — sobre as pequenas miudezas que a pressa do mundo costuma atropelar. Um botão de camisa, o cheiro do café na varanda, o murmúrio do ventilador antigo, o cachorro que late para o nada. Coisas que passam despercebidas, mas que são o sal da vida, se olhadas com calma.

Aprendi com Rosa que o sertão cabe dentro da gente.
Com Manoel de Barros, que o nada é matéria-prima do poema.
Com Machado, que a ironia é uma forma superior de piedade.
Com Twain e Melville, que até o absurdo do mar pode ensinar sobre a alma.
E com Cervantes, que vale mais lutar contra moinhos do que se deitar no tédio das certezas.

Me orgulho de ser um leitor voraz desses gigantes. Devoro suas palavras como quem busca abrigo — e, no fundo, talvez seja isso que fazemos ao escrever: procurar uma casa que caiba dentro de nós.

Mas sei que, por escrever sobre o “comum”, sou pouco lido. Não é que me faltem leitores, ou faltem, e eu tentando me enganar — é que escrevo para os que têm tempo de olhar o chão, de reparar na sombra que uma folha projeta no muro, de ouvir o rumor do próprio pensamento. Gente rara.

Continuo, assim, minha empreitada solitária de registrar a alma — essa criatura inquieta que nunca dorme. Às vezes me pergunto: escrever pra quê? Pra quem? E então me lembro que o papel não me julga. Ele apenas recebe. Escrever é, talvez, uma forma de conversar com o silêncio.

E há dias em que penso que tudo o que escrevo é uma tentativa de recuperar um instante perdido — o eco de uma risada, o olhar de alguém que passou, a lembrança de um lugar que já não existe. A escrita é minha forma de resistir ao esquecimento.
Por falar nisso, comprei recentemente uma camiseta com uma frase que me caiu como luva:

“Vamos nos desesperar com calma.”
Não sei quem escreveu, mas devia ter alma de poeta. Porque é exatamente isso: o desespero faz parte, mas é preciso vivê-lo com elegância.
Escrever, afinal, é isso — desesperar-se com calma.
É olhar para o mundo e, mesmo vendo o caos, tentar colocar uma vírgula, um respiro, um gesto de ternura entre as linhas.

Por hoje, é isso.
Amanhã, talvez, eu escreva de novo — não por importância, mas por teimosia.
Porque há coisas que, se não forem ditas, pesam.
E se forem, aliviam.

Sigo cronista por teimosia e observador das miudezas que o tempo costuma esquecer. Escrevo sobre o cotidiano como quem recolhe conchas depois da maré: não por utilidade, mas por encanto.

*Este conteúdo é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.

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