23/09/2025 às 08h00min - Atualizada em 23/09/2025 às 08h00min

Lotinho espalhou o samba

ANTÔNIO PEREIRA

Aí por 1953, numa festa de aniversário nas Casas Populares do Patrimônio, alguns amigos sugeriram ao Arlindo que formasse uma Escola de Samba. O Arlindo (Lotinho), topou e, no ano seguinte, com uns remanescentes do Rancho Tenentes Negros, mais algumas pessoas de sua família, uns 28 membros, ou pouco mais, saiu para a avenida com a sua pioneira Tabajara. Homenagem à orquestra do Severino Araújo. A bateria teria uns dez elementos apenas. Seus instrumentos eram todos artesanais, feitos pelo Chico Cambão e outros instrumentistas. Os tamborins eram quadrados, de madeira, cobertos com couro de cabrito pregado com tachinhas. Como o couro era sujeito à umidade do ar e ficava fofo, os instrumentistas enchiam os bolsos com folhas de jornal e, de vez em quando, escapavam de fininho e iam para um canto por fogo no jornal para esquentar o couro e fazer o som voltar. Nessa época a Escola de Samba saia quando queria e passava por onde entendesse, mesmo porque, nem desfile havia ainda. Mesmo depois que se instituiu o desfile e o concurso, elas saiam a qualquer hora pelas ruas da cidade. Quando se encontravam era uma disputa agressiva de sons. O comum era a bateria mais forte modificar o seu ritmo para atrapalhar a outra. Em 1955, foi fundada a Pavão Dourado/Zanzibar e, em seguida, a Aymorés, a Coqueiro e a Princesa Isabel. Mas a Tabajara não era apenas a primeira, era também a melhor e ganhava todas as disputas, isso por vários anos seguidos. Ela repetiu o sucesso dos velhos ranchos. Toda vez que passava pela avenida, na sua rabeira, brancos e negros se misturavam no samba irresistível. Diante do Bar da Mineira, a Escola parava a pedido de determinado cidadão que estava sempre por lá, bebericando. Ele entrava no meio do grupo sambava e, depois, voltava para o Bar, mas antes deixava uns bons trocados com o Lotinho para ajudar na organização da Escola para o Carnaval. Ou mandava o Lotinho ir buscar na sua casa. Foi a Tabajara que iniciou o Praia Clube no samba. O primeiro carnaval desse clube foi animado pela Escola. A Tabajara foi o exemplo e o modelo para as outras que surgiram depois dela.

Lotinho contou-me, em 2 de setembro de 1993, que o Praia Clube não conhecia o samba. Lá existia um barracão grande, coberto de palha. O Primo Crosara viu a Tabajara desfilando, gostou e procurou o Lotinho: “Você não quer, num domingo, fazer uma batucadinha pra nós, não, Lotinho?” Lotinho respondeu: “Vou, uai.” Foi num domingo e teve que repetir por muitos domingos. O Uberlândia Clube também chamou a Tabajara. E ela foi.

Goiás também descobriu a Tabajara. Num aniversário de Goiânia, a prefeitura convidou a Tabajara. Ela foi e foi aquele sucesso. Anápolis gostou e pediu também. Itumbiara entrou na roda e puxou Lotinho e sua Escola. Depois voltaram a Goiânia. Não demorou muito, apareceu a primeira escola de Samba da capital goiana. Do lado de cá do Paranaíba, Ituiutaba também quis a Tabajara. E Uberaba e Araxá. Ninguém tinha escolas de samba.

De modo que foi a nossa Tabajara quem espalhou o samba pelo Triângulo e sul de Goiás. Parabéns à velha escola.

*Este conteúdo é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.

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