16/09/2025 às 08h00min - Atualizada em 16/09/2025 às 08h00min

O lixo

ANTÔNIO PEREIRA

Os mais antigos devem se lembrar. Até lá pelos anos 60 do século passado, o lixo era recolhido por carroças. Os moradores punham a lata de lixo na calçada, o carroceiro ia recolhendo e devolvendo à calçada as latas vazias. O curioso disso eram os burros que, de tanto fazerem o trajeto, não precisavam mais ser conduzidos pelos carroceiros. Andavam, viravam esquinas, e paravam nos lugares da coleta. Parece mentira.

Isso começou na velha Uberabinha nos fins da segunda década do século XX. Mas Uberabinha já existia desde meados do século anterior. E o lixo?

A cidade cresceu devagarinho. As casas tinham quintais enormes com muitos pés de frutas, fossa céptica lá no fundo e cisterna beirando a cozinha. As divisões dos terrenos eram no arame farpado ou nas lascas de bambus.

Os restos da limpeza e as coisas descartáveis eram jogadas lá no fundo.

O grosso dessas excrescências era jogado em algum canto da cidade, geralmente nos largos. Os largos eram espaços vazios sem nenhuma urbanização. Não tinham bancos, não tinham plantas nem flores, nem caminhos, nem eram calçados. Esses largos acabaram virando as praças que hoje enfeitam a cidade: o Largo da Matriz (praça Cícero Macedo), o Largo das Cavalhadas (praça Coronel Carneiro) e o Largo do Comércio (praça dr. Duarte). Eram os depósitos do lixo. Até bichos mortos eram jogados neles, cachorros, gatos, galinhas. Era o mau cheiro e o bando de urubus rodeando as carniças. Certa ocasião, um jornal queixou-se de que deixaram lá um cavalo morto. Aí já era demais.

Em setembro de 1919 já não se jogavam lixo nos largos, mas nos pátios (que não identifiquei, mas não deviam ser muito longe), o jornal A Tribuna, do Agenor Paes, queixou-se da sujeira em que se encontrava a cidade. Sugeria à municipalidade que adquirisse uma carroça para fazer a coleta. Como a cidade era pequena: uma carroça, apenas.  

O Agente Executivo, João Severiano Rodrigues da Cunha, conhecido por Joanico, criou dois impostos em novembro, a taxa de viação sobre os terrenos sem muro e a taxa do lixo. Este, no valor de 12 mil réis por ano cobrados sobre os imóveis beneficiados pela coleta.

Em janeiro, começou a coleta. O serviço era: nas segundas e  quintas feiras, nas ruas XV de novembro, Tiradentes, Bernardo Guimarães até a praça da Liberdade, Marechal Deodoro, Sete de Setembro, praça da Independência e praça da Matriz. Nas terças e sextas, nas ruas Vigário Dantas, General Osório, Barão de Camargos, Augusto César, Sylviano Brandão, praça Dr. Duarte, praça Ruy Barbosa. Nas quartas e sábados, na praça da Liberdade, praça D. Pedro II, avenida Afonso Pena, avenida João Pinheiro, rua 21 de abril e altos da rua Bernardo Guimarães.

Foi o começo do serviço de coleta de lixo na cidade.  

*Este conteúdo é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.

 

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