09/09/2025 às 08h00min - Atualizada em 09/09/2025 às 08h00min

Frei Eugênio na faculdade

ANTÔNIO PEREIRA

Frei Eugênio Maria de Gênova nasceu na Itália, na cidade de Oneglia, Província de Gênova, no dia 4 de novembro de 1812. No dia 17 de dezembro de 1836 recebeu as ordens sacras sob o nome de Eugênio Maria. Era um capuchinho.

No dia 1º. de abril de 1843,  o Papa Gregório XVI, atendendo solicitação do governo brasileiro, enviou-o para cá, como missionário. Chegou ao Rio de Janeiro em julho do mesmo ano.

Catequizou em Cuiabá, em muitos povoados da Província de Mato Grosso e em bispados do Rio de Janeiro, São Paulo e Minas Gerais. Embora tivesse autorização para trabalhar em todo o Império, jamais entrou em alguma Vila ou Paróquia sem o consentimento dos prelados paroquianos.

Em 1856, frei Eugênio veio para Uberaba a pedido da cidade.

Era de uma humildade comovente. Atendia os vigários dos lugares onde estava como se fosse um servo.

Em Uberaba, após instalar a Santa Missão, dispôs-se a sair, porém milhares de pessoas procuraram-no e rogaram-lhe que ficasse. Ele tinha começado a construção de um cemitério e usou dessa circunstância para ficar mais. Tudo o que fazia não tinha preço. Era de graça. Vivia de esmolas. Ajudou a paramentar melhor todas as paróquias por onde passou. Pregava todos os domingos e dias santos e recebia confissões diariamente. Havia quem viajasse até 76 léguas só para confessar-se com ele.

Seu trabalho nas Missões revolucionou a cidade que melhorou até comercialmente. Curioso seu relato ao Superior da Ordem contando o que fez em Uberaba. Entre outras coisas diz que “se dissolveram mais de oitenta concubinários; se fizeram muitas restituições; se reconciliaram inimigos”.

Contrário à escravidão, combatia-a de modo a não criar conflitos com a lei e o costume brasileiros. Mas sempre que podia protegia os escravos tendo conseguido mais de seiscentas alforrias.

Uma de suas atividades por onde passava, era construir cemitérios. O que construiu em Uberaba era de pedras e durou 40 anos. O anterior era cercado por toras. Dentro dele, ergueu uma capela dedicada a São Miguel. Foi o seu quadragésimo.

Relatando ao Superior que encontrara a cidade em grande decadência, propôs-se a “levantar um hospital, porque a necessidade é grande.” E lançou-se à sua grande obra, o Hospital de Misericórdia. Bloqueado pelas autoridades judiciárias da cidade que, um dia foram admoestadas discretamente por ele, o frei teve grandes dificuldades para conduzir sua obra caridosa. Juízes mais outras pessoas ofendidas fizeram intrigas contra ele junto ao Ministro da Justiça, ao Governador da Província, à Cúria, a quem puderam, pedindo a saída do padre de Uberaba. Foi o Barão de Camargos  (que, anos mais tarde, na condição de Vice Presidente da Província de Minas Gerais, assinou a Lei que emancipou São Pedro de Uberabinha) e outras pessoas bem intencionadas que conseguiram manter frei Eugênio na cidade para completar sua obra.

A sorte, no entanto, estava com os intrigantes e a morte veio recolhê-lo aos 59 anos de idade, antes de terminar a Santa Casa. Mas Uberaba concluiu-a e inaugurou-a em 1896.

Seu enterro foi concorridíssimo e seu corpo foi depositado no interior da capela de São Miguel. Seu túmulo foi coberto por uma grande lápide de mármore de Carrara doada pelo povo.
Tempos depois, com a construção de um Cemitério Municipal, desativou-se o do frei. Sobre o velho campo santo construíram-se obras públicas e a capela foi destruída.

Aproximadamente cem anos depois de sua morte, o Dr. Jacy de Assis, diretor da Faculdade de Direito de Uberlândia, visitando a marmoraria dos Irmãos Calábria (Fausto e Fábio), viu aquela larga placa de mármore atirada num canto. Aproximou-se e leu: era a tampa do túmulo de frei Eugênio.

- Onde é que vocês acharam isto?
- Nós compramos por aí.
- E o que é que vocês vão fazer com isto?
- Qualquer coisa. Pias, mesas, túmulos...
- Quanto é que vocês querem por esta pedra?

Conversa vai, conversa bem, os Calábria ficaram sabendo por quê o dr. Jacy queria comprá-la e resolveram doá-la à Faculdade. Fizeram uma mesa de mármore e puseram a lápide como tampo. Por baixo escreveram: “Esta lápide de mármore de Carrara, corroída pela pátina do tempo enquanto túmulo de Frei Eugênio, em Uberaba, é doada a esta casa de ensino pelos Irmãos Calábria para que, através de sua humana evocação, as gerações moças cultuem o amor às tradições generosas da nacionalidade e dos seus anelos seculares e irrenunciáveis de cristianismo e de liberdade. Maio de 1966.”

E lá foi a mesa com a lápide para a Faculdade de Direito de Uberlândia, na rua Duque de Caxias, enfeitar o Salão Nobre onde tantas solenidades se realizaram e tantas personalidades políticas, culturais, sociais se manifestaram.

Consegui, depois de algumas tentativas, que a Universidade devolvesse a campa a Uberaba onde está bem guardada.                             

Salvou-se um monumento histórico.
                              
Fontes: Borges Sampaio, Eliane Mendonça Marquez de Rezende e Jorge A. Nabut.

*Este conteúdo é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.

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