23/08/2025 às 08h00min - Atualizada em 23/08/2025 às 08h00min

Palavras

SE MANCA!, por Igor Castanheira

SE MANCA!, por Igor Castanheira

O jornalista Igor Castanheira traz seu olhar sobre temas relacionados a inclusão e acessibilidade.

IGOR CASTANHEIRA

Todos falam do poder da palavra, banalizam sua utilidade, brincam com seu significado, debatem teorias e estipulam regras. Em teoria, todos sabemos de sua importância, mas poucos comentam o modo como ela é entoada, onde é falada e o contexto em que é dita.

Perceberam que empregamos as palavras em pequenos recortes que nos interessam, dependendo de nossa opinião manipulada. Dizemos: não sou influenciado. Mas será? Lemos, assistimos, ouvimos e sentimos de todos os lados. Dependendo de como recebemos esse bombardeio de palavras, acabamos nos condicionando a uma realidade criada por alguém que se julga mais sábio, ou em quem acreditamos ter sabedoria.

Nessa busca por certezas, as dúvidas aumentam e as palavras vêm e vão. Não ao vento, mas em documentos, em telas, em uma visão limitada e triste de um mundo acostumado com a dor e com a necessidade de sofrer para ser normal. E, quem sabe, se destacar para comandar mais uma geração.

Com tantos discursos e textos, a palavra perde a clareza, ganha a nossa angústia e se torna uma arma contra nós mesmos. Quando aprendemos que ela é manipulada de várias formas, todas a serviço do poder e do lucro, perdemos a crença e a fé na melhora humana.

Já que a palavra amiga e de conforto nos cria insegurança, a única certeza que temos é que ela causa dor e sofrimento. Ela está em todos os lugares. A cada segundo, o sofrimento é multiplicado e a fé acaba soterrada em meio a coisas inúteis que, no entanto, preenchem nosso dia.

Essa tendência autodestrutiva do ser humano se observa por meio do instinto e do medo inerente ao novo. Pois tudo que é novo e pode ser belo, primeiro é descoberto, criticado, marginalizado e crucificado, para que, quem sabe, um outro semelhante com mais influência compartilhe a mesma visão e possa abrir portas.

Sem a aprovação de alguém relevante, seguiremos a sofrer. E nesta era digital, onde tudo é novo e descartável, as palavras ganham recortes sem contexto, mas carregadas de muita dor. Compartilhada com mais de 7 bilhões de pessoas em um segundo, o sofrimento é potencializado, seja por uma crítica, um diagnóstico, uma descoberta de fracasso ou a certeza de um passado cruel e mentiroso. Nesse alcance, os pequenos afagos são imperceptíveis e se perdem em um presente no qual somos cobaias do que criamos.

Contudo, a solução é saber ensinar a ser leve, a rir de si, a acolher o outro, a compreender a amplitude das palavras: o amor e a singularidade humana. Enquanto a deficiência, o medo e a dúvida nortearem nosso dia, vamos sempre encontrar palavras vazias para nos completar.

Assim, continuamos falando do poder delas, mas descartando sua força para a mudança.

*Este conteúdo é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.
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