15/08/2025 às 09h00min - Atualizada em 15/08/2025 às 09h00min

Convivência

WILLIAM H STUTZ

Descobri, sem querer, que moro num imenso condomínio. Um pouco diferente dos murados que por aí estão, mas, sem dúvida alguma, um condomínio. Os outros moradores também são um tanto distintos do habitual, mesmo assim tenho de pôr ordem na casa.

Se uns brigam com outros ou atacam em fúria faminta, lá vou eu apartar. Minha arma, geralmente, são jatos de água fria para refrescar os ânimos. Expulso os reincidentes. Convivência pacífica é tudo: ou se enquadram ou caem fora. Se algum ocupa área imprópria, sou obrigado a desalojá-lo, retirar seus pertences e pedir educadamente que se retire.

Meu condomínio é povoado de ninhos, tocas e colónias, das mais variadas espécies e comportamentos. Cada um no seu quadrado — não acredito que disse isso! Para não ficar com a música horrorosa na cabeça o dia inteiro — coisa ruim pega — reformulo: cada um no seu triângulo. Melhor assim.

Por lá moram passarinhos de várias espécies e trejeitos, como também os passarões — gaviões que se aninharam no alto da palmeira-indiana. Há várias colmeias de abelhas jataí: muito comportadas, afinal são espécie sociável, de bem com a vida. Contudo, mexa com elas! Não possuem ferrão, mas sabem muito bem defender seu mel e suas crias.

Por falar em abelhas, lá também vive, sempre em passagens breves mas com morada num toco, a solitária mamangava. Acho triste viver sozinho, mas é a sua natureza. Pelo menos, não dá trabalho. Os sabiás são sempre bem-vindos: alegram tudo em volta. Porém, quando cismam de cantar à noite, recebo reclamações de outros vizinhos que precisam acordar cedo.

Podem perguntar o que tenho com isso, mas neste condomínio sou um pouco de tudo: síndico, zelador, padre, polícia, porteiro, rabino, consultor, arquiteto e jardineiro. É muita função para um público tão diversificado.

Os micos são meu tormento. Não deixam ninguém em paz. Bicho danado para remexer tudo quanto há. Sempre aos bandos, roubam ninhos, comem filhotes de passarinhos, destroem casas de joão-de-barro quase prontas. Só respeitam mesmo o gavião. Aos gritos e assobios de pânico, somem no mundo quando percebem as sombras imensas pairando sobre suas cabeças. Mães amicos, com filhotes agarrados às costas, tomam chá de sumiço em segundos.

Os moradores mais tranquilos, mesmo, são as colónias de morcegos. Sempre na deles, não se misturam; à noite saem para o trabalho de busca de sustento sem importunar ninguém e, quase ao amanhecer, retornam com classe oriental, passando despercebidos.

Viver em harmonia não é fácil, mas posso jurar que é muito mais simples conviver com “bichos” do que com muita gente humana. Os meus, pelo menos, não puxam tapetes nem fingem falsidades. Com a pureza deles, aprendo muito e sempre.

Este rabisco estava na gaveta fazia tempo. O giro da roda da vida, implacável, mudou muita coisa. Assim, num repente, vi-me de fato morando num condomínio diferente. Poucos dos “meus” bichos me seguiram — ficaram por lá, acho. Outros, com o tempo, foram se aproximando. Acharam guarida e foram ficando. Eu os trato com reverência: são meus companheiros de dias e noites.

Com o passar dos anos, fui preparando a casa para recebê-los sempre. Vieram. E hoje, quando olho ao redor, percebo que este condomínio mudou, mas continua vivo. Entre asas, pelos e silêncios noturnos, aprendo todos os dias que harmonia não se impõe: cultiva-se. E, enquanto eles ficarem por perto, sei que estou em casa.

 

*Este conteúdo é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.

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