Introdução – O protagonismo do campo e a retórica do governo
O agronegócio brasileiro segue como um dos pilares centrais da economia nacional, responsável por aproximadamente 24,8% do PIB (CEPEA/USP, 2023), além de sustentar expressivos superávits na balança comercial e garantir o abastecimento interno e externo de alimentos. Contudo, por trás desse protagonismo, esconde-se uma realidade marcada por assimetrias regionais, perdas climáticas recorrentes e uma crônica ausência de apoio técnico estruturado, especialmente para os pequenos e médios produtores.
Nos últimos ciclos agrícolas, a produção foi severamente impactada por eventos extremos — secas prolongadas no Centro-Oeste, geadas pontuais no Sul e, mais recentemente, inundações devastadoras no Sul e Sudeste. Tais fenômenos climáticos, agravados pela ausência de assistência técnica eficaz e pela fragilidade das políticas de mitigação e recuperação de perdas, deixaram um rastro de endividamento e estagnação na capacidade produtiva de milhares de agricultores familiares.
Diante desse cenário, o anúncio do Plano Safra 2025/2026, que estabelece R$ 78,2 bilhões para o Pronaf, é apresentado pelo governo como um "recorde histórico", sugerindo um gesto robusto de apoio. Entretanto, ao se observar com maior atenção, percebe-se que o valor, corrigido apenas nominalmente, não recompõe a perda inflacionária acumulada e não contempla os prejuízos recentes vividos pelo campo. Trata-se, portanto, de uma celebração simbólica, mais ligada à narrativa institucional do que à solução efetiva dos gargalos enfrentados por quem está na lida.
O que se apresenta como avanço — como o financiamento de máquinas de até R$ 250 mil a 5% ao ano — pode, na verdade, escancarar a distância entre o discurso político e a capacidade real de acesso e transformação da base produtiva do país.
O aumento nominal e os números por trás do “recorde”
Embora celebrado como histórico, o aumento de 2,89% em relação aos R$ 76 bilhões do ciclo anterior não cobre a inflação acumulada de 4,23% até maio de 2025 (IBGE). Ou seja, em termos reais, há retração na capacidade de financiamento.
Os custos de insumos como fertilizantes e defensivos subiram até 6,5% no mesmo período (IEA), o que evidencia o descompasso entre o volume anunciado e as necessidades do campo.
A narrativa de expansão perde consistência diante de um cenário em que milhares de agricultores familiares ainda lidam com prejuízos severos e escassez de recursos para recompor a produção.
Máquinas, juros e a ilusão da acessibilidade
A elevação do teto para a compra de máquinas de até R$ 250 mil com juros de 5% ao ano pode parecer um estímulo promissor, mas carrega uma contradição estrutural: sem assistência técnica continuada, capacitação dos produtores e investimentos em gestão das propriedades, não há ganho real de produtividade, apenas endividamento.
Essa taxa, embora inferior à média de mercado, ainda é considerada elevada para a realidade da agricultura familiar, cujas margens são reduzidas e que, muitas vezes, enfrenta dificuldades básicas de comercialização e planejamento produtivo. Além disso, boa parte dos agricultores não consegue acessar o crédito ofertado por falta de garantias, inadimplência passada ou entraves burocráticos.
Mais grave ainda é que o simples acesso à máquina não garante eficiência se não houver governança na propriedade, capacitação no uso, manutenção preventiva e planejamento técnico do cultivo. O aumento de produtividade, hoje observado entre grandes produtores altamente capitalizados, está diretamente relacionado ao uso integrado de tecnologia, sistemas de precisão, análise de dados e mão de obra qualificada — recursos que estão fora do alcance da maioria dos pequenos produtores.
Oferecer crédito sem preparar o terreno técnico e humano para sua efetiva aplicação é como entregar ferramentas de precisão sem treinar o operário. O resultado? Baixa eficiência, maior risco de inadimplência e o reforço da desigualdade estrutural no campo. O discurso de acessibilidade, quando descolado da realidade operacional, pode se transformar em armadilha econômica para o produtor de base.
A retórica da inclusão e a prática da exclusão
A manutenção de juros reduzidos (3%, ou 2% para cultivos orgânicos) reforça, no discurso, o compromisso com a produção de alimentos essenciais. Mas, na prática, o acesso ao crédito segue restrito a produtores com maior organização e inserção institucional.
Comunidades rurais mais vulneráveis seguem sem apoio técnico, informação e capacidade de interlocução com agentes financeiros. A exclusão silenciosa reforça desigualdades regionais e limita o alcance transformador do Pronaf.
A retórica oficial de inclusão carece de sustentação prática quando não acompanhada de formação continuada, infraestrutura, apoio logístico e políticas territoriais consistentes.
Conclusão – Entre estatísticas e realidade: o campo pede mais do que anúncios
O Plano Safra 2025/26 expõe o descompasso entre narrativa e realidade. Os “recordes” anunciados não enfrentam os gargalos estruturais que inibem o protagonismo da agricultura familiar.
Taxas de juros que favorecem produtores capitalizados, ausência de assistência técnica, desburocratização limitada e a centralização dos recursos mantêm milhares de agricultores distantes da política que deveria priorizá-los.
Mais que cifras simbólicas, o setor exige um pacto institucional de longo prazo, que inclua formação, gestão, infraestrutura e valorização real da base produtiva do país.
Sem isso, o campo continuará a resistir — sozinho — à força das chuvas, à instabilidade dos preços e à distância entre o discurso público e a prática concreta.
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