19/03/2025 às 08h00min - Atualizada em 19/03/2025 às 08h00min

Crédito consignado e a armadilha do endividamento: a falta de políticas públicas para os trabalhadores

ANTÔNIO CARLOS DE OLIVEIRA
Introdução 
A recente proposta de um novo modelo de crédito consignado levanta questionamentos sobre seus reais beneficiários e a perpetuação de um ciclo de endividamento dos trabalhadores. A vinculação de direitos laborais, como o FGTS, ao acesso ao crédito não pode ser tratada como solução para problemas estruturais da economia, como a ausência de políticas públicas eficazes para geração de emprego e renda. Ao longo dos anos, a concessão de crédito fácil sem a devida contrapartida do Estado tem resultado no aumento da inadimplência e na ampliação da desigualdade social. Diante desse cenário, este artigo analisa criticamente a proposta, destacando suas implicações econômicas e sociais e questionando até que ponto ela atende aos interesses dos trabalhadores ou apenas favorece o setor financeiro.
 
O histórico do crédito consignado e seus impactos  
As linhas de crédito consignado não são novidade no Brasil. Inicialmente implementadas para servidores públicos e aposentados do INSS, essas modalidades de empréstimo rapidamente se expandiram para outras categorias, impulsionando um ciclo de endividamento desenfreado. A promessa de acesso facilitado ao crédito, no entanto, revelou-se uma armadilha para milhões de trabalhadores, especialmente aqueles de baixa renda, que passaram a comprometer uma parcela expressiva de seus rendimentos com pagamentos de juros elevados. No passado, iniciativas semelhantes resultaram em taxas de inadimplência superiores a 70%, expondo a fragilidade desse modelo.
 
O impacto desse endividamento excessivo vai muito além das estatísticas financeiras, atingindo diretamente a estrutura social do país. Famílias desestruturadas pelo peso das dívidas enfrentam conflitos internos que resultam na dissolução do núcleo familiar. O estresse financeiro leva ao aumento de doenças psicossociais, como depressão e ansiedade, além de estar associado ao crescimento da criminalidade, pois indivíduos endividados muitas vezes recorrem a práticas ilícitas como tentativa desesperada de sobrevivência. Crianças e adolescentes são forçados a abandonar a escola para auxiliar na renda familiar, perpetuando o ciclo de pobreza e falta de oportunidades.
 
Além disso, o endividamento crônico impulsiona o crescimento desordenado das favelas e a marginalização de milhares de brasileiros, que, sem condições de arcar com custos básicos de moradia, acabam vivendo em condições precárias. O número de indigentes aumenta nas ruas dos grandes centros urbanos, refletindo a deterioração do tecido social. Dessa forma, ao invés de representar um alívio financeiro, o crédito consignado tem se mostrado um mecanismo que agrava desigualdades e compromete o futuro de milhares de famílias, exigindo uma reflexão urgente sobre a necessidade de reformas estruturais que priorizem geração de emprego e distribuição equitativa de renda.
 
O novo consignado e seus riscos 
O modelo atual propõe o uso do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) como garantia, algo que representa um risco direto para os trabalhadores. O FGTS é um direito trabalhista consolidado, destinado à segurança financeira do empregado em casos de demissão sem justa causa, aquisição da casa própria ou aposentadoria. Vinculá-lo ao crédito consignado significa transferir aos bancos um direito do trabalhador, deixando-o vulnerável a juros elevados e endividamento descontrolado.
 
Outro aspecto preocupante é a ausência de um teto para os juros, permitindo que cada instituição financeira estabeleça taxas conforme critérios próprios. Essa falta de regulamentação favorece o sistema bancário, mas impõe um ônus ainda maior às famílias, que já enfrentam dificuldades financeiras em meio a uma economia instável e uma taxa de juros elevada.
 
A ausência de políticas públicas eficazes 
Em vez de estimular políticas que aprofundam o endividamento dos trabalhadores, o governo deveria concentrar esforços em promover políticas públicas eficazes que garantam a distribuição equitativa de renda e a geração de empregos. O Brasil arrecada um volume expressivo de impostos, principalmente sobre o consumo, penalizando as classes mais baixas. No entanto, esses recursos não são convertidos em serviços essenciais que beneficiem diretamente a população.
 
A contrapartida do Estado deveria vir na forma de investimentos em áreas essenciais como saúde, educação, segurança pública, saneamento básico, transporte e infraestrutura. A dependência de crédito para suprir necessidades básicas é um reflexo da falta de uma política econômica que priorize o bem-estar social. Ao invés de oferecer consignados como solução paliativa, é fundamental a implementação de medidas que elevem a renda do trabalhador e reduzam as desigualdades.
 
Conclusão 
A proposta do novo crédito consignado surge em um momento estratégico, próximo a um ano eleitoral, e levanta questionamentos sobre seus verdadeiros propósitos. Longe de ser uma solução estrutural para os problemas econômicos do país, a iniciativa reforça um modelo de endividamento que fragiliza ainda mais os trabalhadores. Vincular direitos já conquistados, como o FGTS, ao acesso ao crédito representa uma transferência de responsabilidade do Estado para o indivíduo, mascarando a ausência de políticas públicas voltadas para a geração de emprego e renda.
 
Diante desse cenário, é fundamental que a sociedade questione medidas que, sob o pretexto de ampliar o acesso ao crédito, podem resultar no aprofundamento da vulnerabilidade financeira das famílias brasileiras.
 
*Este conteúdo é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.
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