Acordo com o costumeiro miado choroso de Princesa, minha gata. Virou rotina. É só eu subir para dormir que, pouco depois, ela vem com esse jeito choroso e quase sempre trazendo um "presente". Quando não é um ser vivente, como um passarinho ou lagartixa, a prenda é uma das tantas bolinhas de borracha que vivem espalhadas pela casa, debaixo de sofás, camas ou mesas.
Tem coisa melhor do que esse carinho animal? Tem sim, é claro. O sorriso do netinho, o cheiro do netinho, um abraço de netinho, o netinho. Um beijo de amor, um aconchego nos braços de filho(a), o sentar com um amigo e jogar conversa fora, um bom filme, uma manhã de chuva. Os perfumes de primaveras, o cantar de passarinho. O barulho do mar. Um pôr do sol nas montanhas, o amanhecer na praia sentindo o aroma da maresia.
Dormir de conchinha com quem se ama, não dá para enumerar. Claro que tem muita, mas muita coisa melhor do que os presentes de Princesa e ela se deitar coladinha aos meus pés. Contudo, não podemos negar que carinho de bicho é muito bom.
Será por simples acaso que o tratamento dado a quem se quer bem é Gato ou Gata? Cachorro ou cachorra tem jeito de xingamento. O lugar comum "uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa" cabe aqui. Cada instante, cada arranhado de vivência tem seu valor único e diferente.
Minhas palavras vão fazer sentido para muitos, pois saberão do que falo. Já outros me dirão as tão vazias gozações, sempre acompanhadas de risadinhas, como a invejar o lugar de que nunca alcançarão por vergonha de demonstrarem afeto. Talvez ainda porque simplesmente nasceram e se criaram em um mundo no qual o demonstrar afeto, carinho, amor, seja na cabeça deles sinal fraqueza.
Coitados, exatamente estes são os que mais precisam de uma boa terapia e são os que mais a desprezam e a achincalham. Assim, vivem a tentar sutilmente, com comentários peçonhentos, destruir tudo de belo nas outras pessoas; e de peçonhentos entendo um pouco, passei uma vida a trabalhar com estes bichos. Isto me possibilitou desenvolver um sexto sentido quanto aos humanos. Os "meus" peçonhentos não premeditaram o mal fazer.
Uma coisa é certa, quem não gosta de gato está perdendo uma chance única de sentir o real calor de uma relação homem-bicho incomum e sincera. Pois os gatos, diferentes de outros bichos, não fazem nada que não queiram! Por seu comportamento receberam o título eterno de sagrado, muito antes das honrarias de ocasião distribuídas sem critérios sérios, que nós humanos trocamos diariamente.
Em que lugar na escada dos "Os Músicos de Bremen" está o gato? Será por acaso? Aliás, esta peça inspirou nosso genial Chico Buarque a criar os Saltimbancos. Saudade da voz de Nara Leão, outra felina!
"Nós gatos já nascemos pobres, porém já nascemos livres, senhor, senhora senhorio felinos não reconhecerá! Deixando a claríssima mensagem que a união de forças pode vencer o sistema e a injustiça.” Refrescando a memória ou contando a história para os que nunca foram chegados a ler:
"Os Saltimbancos', traz uma narrativa em primeira pessoa de uma gata que vivenciou a transição de uma vida confortável e protegida para uma existência de liberdade nas ruas".
“A canção 'História de Uma Gata', interpretada na peça musical 'Os Saltimbancos', traz uma narrativa em primeira pessoa de uma gata que vivenciou a transição de uma vida confortável e protegida para uma existência de liberdade nas ruas. A letra da música utiliza a figura da gata para explorar temas como conforto material versus liberdade e a autenticidade da vida ao ar livre em contraste com a segurança de um lar.
A gata descreve inicialmente como era mimada e bem tratada, vivendo em um apartamento com todas as comodidades, incluindo alimentação de alta qualidade. No entanto, a letra sugere uma sensação de aprisionamento e a falta de liberdade, evidenciada pelo desejo da gata de explorar o mundo exterior, especialmente à noite, quando ouve outros gatos cantando. A música destaca a ideia de que, apesar da pobreza, os gatos nascem livres e essa liberdade é um valor inerente que não pode ser comprado ou imposto por um dono.” (fonte: https://www.letras.mus.br/os-saltimbancos/ )
Já vivi a primeira, mas me permiti mudar. Tempos atrás eu nunca me imaginava tendo um gato em casa. Sempre fui e continuo sendo um apaixonado pelos cães de grande e médio porte. Pastor alemão e Rotweiller são meus preferidos. Porém, o destino quis que eu fosse morar em casa pequena, sem quintal, com Q maiúsculo, inviabilizando o sonho de continuar “cachorreiro”. Quis o rumo da vida que aparecesse do nada uma pequena coisinha miando de fome à minha porta. Foi entrando e eu só observando. Ficou um dia e sumiu. Passou outro dia e ela voltou já meio que à vontade. Foi ficando, ficando, ficando e lá se vão quase oito anos.
Creio que quem não gosta de gato, em minha percepção sobre a alma humana, só pode ser por dois motivos: ou é puro preconceito ou nunca se deu ao delicioso risco de um dia ter um. Prefiro acreditar na segunda hipótese.
Para ajudá-los a romper com este preconceito cito aqui algumas personalidades que foram apaixonadas pelos felinos: Audrey Hepburn, George Harrison, Ferreira Gullar, o genial ilustrador surrealista e retro futurista Edward Gorey, Catarina, a Grande - imperatriz que governou a Rússia, Abraham Lincoln (dispensa apresentações), o poeta Charles Baudelaire, os fantásticos escritores Ernest Hemingway e o imortal Mark Twain. Este chegou a ter 19 em casa. Lista curta só para citar alguns. Viu só? Você nunca estará sozinho. A pesquisa sobre gateiros fiz no Google.
Vá lá, gosto é gosto! Tem espaço para todos os gostos e bichos.
Penso que, cá bem pra nós, seria o paraíso se tivéssemos mais homens e mulheres com a alma de gato em nosso convívio. Um mundo com mais miados calmos e menos rosnares rancorosos, invejosos, destruidores. Chegaremos lá, assim espero.
Bom fim de semana!
*Este conteúdo é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.