12/07/2024 às 08h00min - Atualizada em 12/07/2024 às 08h00min

Besouro

WILLIAM H STUTZ
Para variar, admirando as insignificâncias, como me ensinou Manoel de Barros. Um besourinho minúsculo, mas miúdo mesmo, pousou beirando meu prato. Almoço no quintal. É mais prazeroso.

Ambientes fechados me oprimem, a não ser que sejam bem iluminados pela luz natural. Acender luz em casa durante o dia me encolhe. E olha que minha trepadeira, totalmente florida nesse seco inverno, deitou-se de tal maneira em minha varanda da frente, que escureceu o de dentro. Casa miúda tem disso. Deixo e admiro a florada como oração. As abelhas se fartam. Pasto pouco para elas nesse tempo.

Então, o besourinho miúdo pousou a beirar o pano de prato alvo, que faço de toalha de mesa. Eu, em um pensar em nada instintivo, levei o dedo para esmagá-lo contra a brancura do tecido. Pano de prato com pintura à mão, com indecifráveis frutas ou legumes. Um grandão azulado com a palavra mel bem no centro. Poucas "folhas" verdes lembram asas de alguma quimera. Talvez um azul voador. Um tomate, maçã ou caqui, vai se lá saber, completam parte da pintura um pouco abaixo. Acima, algo que lembra cereja, talvez? Mas sorrindo. Dá para entender?  Emoldurando a pintura traços em verde com bolinhas vermelhas, desprendidas da rama, lembram nada. Talvez com algum esforço, flores? Da barra inferior brotam biquinhos triangulares em amarelo ouro. A mistura de cores e formas confunde.

Nosso besourinho escolheu este campo de pouso. Cansaço ou um apreciador de arte extra contemporânea?

Pisquei acordando do torpe nada. Parei o movimento e, com dificuldade de olhos em óculos, observei o bichinho. Ele pousou meio sem jeito e imagino que as pequenas dobraduras do pano seriam para ele alvas cordilheiras glaciais. Recuperou o passo, endireitou aquele tanto de patas. Antenas olharam seu entorno. Anteninhas como radares lhe avisaram: putz pousei em terreno minado. Nada, pensou isso não. Eu que criei balõezinhos falantes como histórias em quadrinhos.

Esticou suas asas como que espreguiçando. O Fabergé natural se abriu por completo.

Meu dedo-ameaça lhe fazia sombra.

Que direito tenho eu de assim, do nada, interromper essa vidinha preciosa?

Recolhi a mão e, só observando, o vi com tremendo esforço alçar voo curto. Fugiu de meu campo de visão e foi, drumoneamente, ser gauche na vida. Vai em sua miudeza gigante polinizar uma florzinha. Quem sabe alguém terá o prazer de saborear doce frutinha criada por suas patinhas fertilizadoras. Pode ser uma jabuticaba, uma amora ou uma pitanga azedinha, resultado de suas andanças e voo desajeitado. A bela e nobre criação de novas vidas, pelo menos até que uma faminta taruíra o encontre por traçados do destino. 

O que ou quem me deu o direito de escolher se você ia viver ou morrer?  Segue seu caminho. Bons voos, atabalhoados passeios. 

Almocei em paz.

Cutuquei Alexa, pois adoro provocá-la. Ela, em sua secura habitual, com voz arrastada, como que saindo de um cochilo, me contou sem poesia, friamente, similar a aula de ginásio e com um mal humor arretado: “O voo do besouro não passa de um ballet desajeitado, uma dança errática e fascinante pelo ar. Pare com isso figura! Voo é voo e desajeitado era o 14 Bis. Voar não é só para os pássaros dr. Spock. Deixe a lógica pura de lado de vez em quando.”

E persevera, apesar da dura: “Suas asas, delicadas e frágeis, batem rapidamente em um ritmo frenético, criando um zumbido baixo e constante. A cada impulso, o besouro parece lutar contra as forças da gravidade, suas patas traseiras pendendo levemente enquanto tenta se equilibrar no ar.”

Os movimentos são imprevisíveis e cheios de improvisação, sem a graciosidade de uma borboleta (ao olhar da borboleta obviamente) ou a precisão de uma abelha. Em vez disso, o besouro parece estar navegando por correntes invisíveis, mudando de direção abruptamente e às vezes dando pequenos giros inesperados. Estes são os besouros da esquadrilha da fumaça dos insetos.

Seu voo é um testemunho de resistência e adaptação, uma prova de que até mesmo os insetos mais simples podem dominar os céus com sua própria técnica peculiar. Enquanto plana de flor em flor, suas asas capturam a luz do sol, revelando um brilho sutil e efêmero, como se estivesse carregando consigo um pouco da magia do ar.

Por mais desengonçado que pareça, o besouro voa com propósito, buscando alimentos e cumprindo seu papel vital na polinização das plantas. Cada batida de suas asas é um lembrete da beleza e complexidade que existe até nos menores seres da natureza.

E eu quase pus fim a toda essa engenharia da vida por pura distração.


*Este conteúdo é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.
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