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10/05/2024 às 08h00min - Atualizada em 10/05/2024 às 08h00min

Fim de semana

WILLIAM H STUTZ
“Tenho um livro sobre águas e meninos.
Gostei mais de um menino
que carregava água na peneira.
A mãe disse que carregar água na peneira
era o mesmo que roubar um vento e
sair correndo com ele para mostrar aos irmãos.
A mãe disse que era o mesmo
que catar espinhos na água.
O mesmo que criar peixes no bolso.
O menino era ligado em despropósitos.
Quis montar os alicerces
de uma casa sobre orvalhos.
A mãe reparou que o menino
gostava mais do vazio, do que do cheio.
Falava que vazios são maiores e até infinitos.
Com o tempo aquele menino
que era cismado e esquisito,
porque gostava de carregar água na peneira.
Com o tempo descobriu que
escrever seria o mesmo
que carregar água na peneira.
No escrever o menino viu
que era capaz de ser noviça,
monge ou mendigo ao mesmo tempo.
O menino aprendeu a usar as palavras.
Viu que podia fazer peraltagens com as palavras.
E começou a fazer peraltagens.
Foi capaz de modificar a tarde botando uma chuva nela.
O menino fazia prodígios.
Até fez uma pedra dar flor.
A mãe reparava o menino com ternura.
A mãe falou: Meu filho você vai ser poeta!
Você vai carregar água na peneira a vida toda.
Você vai encher os vazios
com as suas peraltagens,
e algumas pessoas vão te amar por seus despropósitos!”

O menino que carregava água na peneira - Manoel de Barros

Tive que tentar trazer um pouco dos escritos mágicos do mestre Manoel de Barros. Sinto que todo começo de fim de semana, já brincado com as palavras e relembrando que, desde o novo já velho acordo ortográfico, hífen, esse tracinho que já começa esquisito no nome ao terminar em N, caiu.  A porteira abriu e libertou palavras, desencarrilhou o dizer. 

Assim, todo começo de semana geralmente é um desastre. A volta ao tormento de um emprego odiado, de aulas enfadonhas e diazepínicas que, um novo ciclo deve, ou deveria, ser alegre. Mas geralmente não é. Segunda tem cor cinza para maioria.

 O cara que inventou o meme “Sexttouuuuu!!!! “Mei” dia papai, quem fez, fez.  Quem não fez não faz mais...” foi genial. Seu nome? Henrique Madeirite. Este sim, sacou o espírito do brasileiro comum, normal, que gosta de samba, cerveja, churrasco e futebol. Aquele que na segunda acorda com a boca amarga de ressaca acende uma vela e reza depois do famoso “nunca mais eu bebo” e que, na quarta, já se arrependeu da promessa e faz planos para sexta, sábado e domingo!

Uma certa marca de cerveja tentou literalmente enfiar goela abaixo a boa e gelada cerveja com um tal de Zeca-feira (com hífen ou sem? Vou colocar de pirraça) não pegou. Mas o sextouuuuuuu!!!!! Não some jamais.

 Os dias das semanas, para muitos, parecem uma série de segundas-feiras emendadas. Seria como o viver uma ressaca de que só se cura com a chegada da sexta e a expectativa do sábado e domingo. Sim, é frustrante e vazia uma existência assim. Infelizmente. As músicas, os poemas, as conversas diárias, comprovam isso. Dá tese. Saca só:

“Brasil está vazio na tarde de domingo, né? Olha o sambão, aqui é o país do futebol/ No fundo desse país /Ao longo das avenidas / Nos campos de terra e grama /Brasil só é futebol / Nesses noventa minutos/ De emoção e alegria/ Esqueço a casa e o trabalho /A vida fica lá fora/ A cama (...)”

Aqui É O País do Futebol - Milton Nascimento

“(...) Hoje é sábado, amanhã é domingo/ Amanhã não gosta de ver ninguém bem/ Hoje é que é o dia do presente/ O dia é sábado. /Impossível fugir a essa dura realidade/ Neste momento todos os bares estão repletos de homens vazios/ Todos os namorados estão de mãos entrelaçadas/ Todos os maridos estão funcionando regularmente/ Todas as mulheres estão atentas/ Porque hoje é sábado. (...)
Dia da Criação - Vinicius de Moraes

Sábado eu vou à festa
Vou levar meu violão
Vou cantando uma canção
Que eu decorei
Sábado eu vou à festa
Numa nuvem de algodão
E entre estrelas vou abrir meu coração
Sábado - Frederico Mendonca D Oliveira – Fredera
E o seu sábado como será?  O retrato da alma humana sofrida de Vinícius? Um sábado rotineiro de Milton?  Ou uma festa em explosão de alegria de Fredera e seu Som Imaginário?

A escolha é sua, mas acredito que temos o poder de transformar todos os dias da semana em sublimes momentos de vivência em total alegria. Sem esse papo de autoajuda (viu só o hífen aqui grudou na palavra, coisa do amor) pois sobreviver, viver plenamente cada minuto de nossa existência é único e perfeito. E saiba o já sabido. Nas palavras também do mágico das letras Manoel de Barros, “o tempo só anda de ida. ”

Enfim, todo tempo o tempo passa. Não dá para viver só de sextas, sábados e domingos. O viver é muito precioso para ser só isso!

Bom fim de semana sem hífen para todos! 



*Este conteúdo é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.
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