22/12/2021 às 08h00min - Atualizada em 22/12/2021 às 08h00min

As eleições e o quarto poder

ANTÔNIO CARLOS DE OLIVEIRA
Desde os primórdios da civilização, nossa sociedade é – e sempre foi – regida pelo poder.  As tribos utilizavam o sistemas de “castas” para definir seus líderes e indivíduos com mais ou menos influência na comunidade. A ascensão do capitalismo, evidenciou essa influência, onde o montante de bens de um cidadão, definia seu status. Vivenciamos o auge deste sistema econômico séculos depois, com grandes oligarquias exercendo sua influência de maneiras transcontinentais. 
 
Porque compreender as estruturas de poder é essencial para entendermos nosso atual cenário político e eleitoral. O poder, derivado do latim “possum”, representa o direito de deliberar, agir, mandar e, dependendo do contexto, exercer sua autoridade, soberania, a posse de um domínio, da influência ou da força. No campo da política, podemos afirmar que se trata da capacidade de impor algo sem alternativa para desobediência. Ele também emana de instituições populares, como coletivos, sindicatos, partidos políticos, organizações estudantis etc.
 
O Brasil é uma nação republicana, cujo aparelho governamental é instituído a partir dos preceitos do estado democrático de direito. Nossa república é constituída pelos Três Poderes: o Legislativo, o Executivo e o Judiciário. Ao primeiro cabe a criação, a manutenção e a fiscalização das leis. O Executivo tem como objetivo o governo propriamente dito e a administração dos interesses públicos. Ao Judiciário cabe o cumprimento da Constituição. Em tese, os três devem trabalhar em harmonia, fortalecendo o Estado e favorecendo o bem comum.
 
Entretanto, a evolução das civilizações – principalmente no ramo das tecnologias da comunicação e informação – acabou criando aquilo que chamamos de “quarto poder”: a mídia. A própria expressão já denota a importância da mídia na sociedade atual. Estudiosos do ramo da Comunicação afirmam que ela exerce tanto poder e influência em nossas vidas quanto os Três Poderes nomeados em nosso Estado Democrático.  Definindo isso, percebemos que não sabemos muito bem a extensão desse poder em uma democracia com liberdade de imprensa e quais tipos de riscos o abuso desse poder pelos que o detém podem influenciar negativamente a sociedade e a vida dos indivíduos.
 
Para o jornalista Eugênio Bucci, um dos maiores nomes da imprensa nacional, cunhou o termo “Cão de Guarda” para se referir a este fenômeno, argumentando que a imprensa tem realizado este papel mediante a população. Ela, portanto, têm o dever de levar a público os atos ilegais e ilícitos, corruptos e incorretos, observando sempre sua isenção nos temas noticiados.
 
Por outro lado, para vencer as eleições, um candidato precisa de visibilidade na busca por votos. Dessa forma, as mídias (jornais, rádio e TV, em especial) e agora as mídias sociais podem servir como trampolim na campanha dos políticos.
 
Entretanto, não basta ser conhecido para ser eleito, o candidato precisa preencher diversos requisitos, como qualidades pessoais, estrutura de campanha, recursos financeiros e, principalmente, base eleitoral, além de ser um bom comunicador.
 
A influência da televisão sempre esteve presente no cenário eleitoral brasileiro. Neste período desde o início da redemocratização no Brasil, a televisão deu espaço ao horário eleitoral e muitos candidatos começaram a fazer coligações com o maior número de partidos possíveis para garantir tempo eleitoral tanto na TV, como no rádio.
 
Não é só a televisão que pode ser determinante nas eleições. Com o avanço da tecnologia, as mídias sociais se tornaram uma peça-chave para os candidatos. Ser influente neste meio e divulgar os trabalhos nestas plataformas se tornaram fatores preponderantes para o meio político.
Quem conseguiu elaborar uma boa estratégia de comunicação nas redes sociais se deu bem nas últimas eleições.
 
Vamos refletir: É durante as eleições que podemos observar de maneira mais explícita a influência do “quarto poder” sobre a agenda pública. Dependendo das diretrizes do veículo, seja ele impresso, audiovisual ou digital, ele possui o poder de selecionar e preparar conteúdos de maneira a favorecer a si própria ou determinados partidos políticos e grupos. Isso ocorre porque, em nosso país, não é incomum que conglomerados midiáticos recebam patrocínios de grandes empresas e personalidades. Alguns afirmam que, de certa maneira, isso desfavorece a democracia, uma vez que a mídia possui uma imensa capacidade de construir e destruir narrativas e personalidades.
 
Os últimos acontecimentos têm refletido com demasiada fidelidade esta problemática. Infelizmente, boa parte dos brasileiros ainda mantém uma displicente ignorância sobre a gravidade da manipulação midiática. 
 
É preciso que pensemos estrategicamente.  A inegável força do quarto poder no dia a dia de uma sociedade, notadamente quando o assunto se refere a algum tema de relevância nacional. Já passa da hora de exigirmos de nossos líderes o avanço em legislações para coibir os abusos da mídia – que já tem ganhado espaço na maioria dos países democráticos. Os poucos países que não avançaram nesse pantanoso terreno buscam manter os privilégios dos grandes meios de comunicação calçados em decisões importantes para a sociedade.
 
Se você ainda tem dúvida sobre este assunto, imagine um setor qualquer da economia brasileira que nunca foi regulado e sempre teve autonomia total, muitas vezes acima do próprio Estado e da própria Constituição, utilizando-a para conseguir manipular o poder político e a opinião popular em benefício de determinados grupos. Isso não te soa como uma ameaça à nossa democracia? 
 
Pensar estrategicamente é, também, não aceitar as influências que não queira, tentando reconhecer esses movimentos sutis (às vezes, nem tanto) que os donos e exercentes desse poder tentam infligir sobre nós por todos os canais diariamente.

*Este conteúdo é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.
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