07/12/2021 às 08h00min - Atualizada em 07/12/2021 às 08h00min

Força estranha

ENZO BANZO
Chorei vendo a Gal Costa cantando "Força Estranha" na TV: os olhos marejados do Caetano contemplando aquilo que essa canção explica tão bem, sem precisar explicar; porque a tal da força estranha, algo que se define sem se definir, é o que leva a gente a cantar, escrever, dançar, pintar, chorar. E que me sobe às faces e me faz corar, e que me salta aos olhos a me atraiçoar, ajuda aí, meu caro amigo Chico.

Chorei vendo o Galo campeão; chorei, sobretudo, com a chuva de imagens do Galo não campeão, cravado lá minha infância: o braço levantado do Reinaldo, as bombas do Éder. Tudo que eu tentei falhou? E agora, entra em campo o sensível Hulk, impondo a redenção do 7 a 1 que a vida pode ser. A gente busca a bola na rede e começa tudo de novo, eu acredito, por causa de alguma força estranha, melhor não tentar entender. 

Chorei, sofri com a trágica perda da Marília Mendonça; procurei compreender a voz tamanha daquela moça. Marília (já a chamo com intimidade) é tão familiar pra gente aqui do Brasil Central, parece alguém que vai na casa da gente no final de semana tomar cerveja e dá aquele vexame gostoso e memorável no final da festa, cantando com todo mundo as músicas que todo mundo sabe cantar, e que falam de todo mundo e daquela história que é só a da gente. Como escrevi naquele dia triste, dói pensar no quanto ela tinha a viver, mas a sua presença  no imaginário coletivo irá se abrigar no lugar mais profundo que nos constitui. O lugar da força estranha.

Também chorei, no mesmo dia, vendo as Três Clarices nossas daqui, que desdobraram dança sem palavras, a partir de um conto de Clarice Lispector. Vai entender a estranha força da Clarice, uma força descomunal como a de um búfalo; o búfalo, força indomável e primitiva da vida, sempre a ponto de explodir. Como recriar isso em dança? Não sei muito bem; só sei que senti a pancada do fundo do olho do impulso do corpo do fogo das coisas que são.

Caíram lágrimas no mar aqui do cerrado, porque o Arnaldo Antunes lançou disco novo com o pianista Vítor Araújo. Poucas combinações estão rumando tanto para o profundo nesses tempos duros: o grave da voz, a densidade do piano, esconderijos da estranha força, revelados: sofro / mas nunca me lastimo / encaro meu destino / não sou de reclamar. A força estranha é o mistério da vida, e quem me contou que o disco do Arnaldo estava no ar foi o meu filho que está fazendo 18 anos, vejam só, 18 já, eu vi o menino correndo, eu vi o tempo.

Não chorei, mas ri muito, voltando a tocar em grupo, com banda, primeiro com os Porcas Borboletas, agora com a banda Amor de AM. O que é esse ritual de produzir sons e sentidos em conjunto? Há um ente abstrato que nos une; pode ser o ritmo, o andamento, o tom, a harmonia: é tudo isso e não é. Até dá pra dissecar, mas não alcançamos uma definição para o que está por trás e no fundo da conexão que a música provoca entre quem toca, canta, ouve, dança, sente. Por isso é que eu canto, não posso parar. 

Chorei, choramos demais nesses dois últimos anos tão dolorosos. Somos sobreviventes sequelados. Horror, medo, morte. E ainda temos que enfrentar esses aí, que disseminam a morte, o medo, o horror. Mas o que eles não sabem é que a gente tem uma força estranha maior que tudo de ruim que possa haver. Chorei, sim, não procurei esconder, todos viram. Mas o sol ainda brilha na estrada, e o sol sobre a estrada é o sol sobre a estrada, é o sol.


*Este conteúdo é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.
 
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