18/12/2020 às 08h00min - Atualizada em 18/12/2020 às 08h00min

Tempos do onça

WILLIAM H STUTZ
Fim de ano, tempo de lembranças. Certa feita, promovendo limpeza em caixa de correio deparei com uma mensagem recebida muitos anos atrás, d põem ano nisso do amigo Ézio– aliás, mais do que amigo, pois por ele nutro sentimento de irmão – mensagem eletrônica que trazia anexada uma dessas apresentações de slides. Pensei cá comigo, hoje quase ninguém usa e-mail para enviar tais arquivos. Os WhatsApp, Instagrams, e Faces da vida roubaram o trono do correio eletrônico, hoje por ele a maioria que chega é de comerciais de cartões de créditos e outros spams do tipo.
 
Raramente abro esse tipo de aplicativo. Um dos motivos: vírus. Outro diz respeito aos conteúdos. Geralmente são mensagens apelativas e que te cobram obrigação de reenviás-la para outros sob pena de sanções das mais variadas, mas sempre funestas.
 
Ficará vesgo do olho esquerdo, terá unha encravada, bico de papagaio ou mal da gota. Além, é claro, de ver seu endereço eletrônico incluído na categoria de spam de muitos de seus amigos. Assim, tenho como regra abrir apenas e somente apresentações que são dirigidas a mim diretamente por pessoas das quais gosto muito e, ainda, que contenham algum indicativo de seu conteúdo.
 
Foi o caso dessa enviada por Ézio. Mostrava itens antigos usados nas escolas dos anos 20 aos 50. Muitas delas chegaram ao meu tempo, outras conhecia por ouvir falar, como a cartilha “Caminho suave”. Caneta- tinteiro Parker 51, essa eu tinha, assim como o tinteiro em forma de doce de leite de mercearia.
 
Chegando mais para o meu tempo, eu lá colocaria a maravilha da matemática da época, a “Régua de calcular”, o fantástico “Biological science curriculum studies” (BSCS) e o “Zoologia Geral” do Storer, aos quais credito a paixão anos depois à veterinária e biologia. Confesso (e que meus filhos não me ouçam): eu era péssimo aluno no Científico ou segundo grau de hoje. Só peguei gosto de verdade bem mais tarde. As capas dos livros, sim, me fascinavam. Inventava histórias sobre eles nos quais eu sempre era personagem de destaque. Já o conteúdo, este me dava um sono adolescente. Era começar a estudar, e lá estava eu em profundo dormir, a sonhar com aventuras nascidas daquelas imagens dos livros.
 
Aponto aqui algumas exceções: história, geografia e português, além de ciências e depois biologia. Estas me prendiam como goma arábica, que não desgrudava dos olhos e é também do meu tempo.
 
Havia ainda a lapiseira da antiga Tchecoslováquia, motivo de cobiça e inveja, as amarelas Toison d’or e as canetas Cross prateadas. E, é claro, a pasta tipo colecionador, com suas quatro garras que abastecíamos com folhas que já vinham furadas.
 
A mensagem de Ézio também trouxe outras fortes lembranças. O cheiro da merenda, a qual raramente podia provar, pois no grupo minha turma foi cobaia de um experimento educacional do Programa de Assistência Brasileiro-americana ao Ensino Elementar (Pabaee), talvez por ser cidadão norte-americano, não por nascido, mas por possuir dupla nacionalidade.
 
Tudo nosso era diferente. Tenho, pois, novos cheiros a acrescentar: crayon, pincel atômico, massa de modelar, lápis com borracha na parte superior e até merenda em lata, onde sempre chamaram minha atenção as mãos se cumprimentando, uma com a bandeira do Brasil, outra com dos EUA, coisas da Aliança para o Progresso. Se deu certo? Não tenho menor ideia do plano desses caras.
 
Muita coisa dançou em rodopios por minha cabeça depois dessa mensagem do amigo. Bonde, Feira de Amostras, óleo de fígado de bacalhau, carrinho de rolimã, bente altas, que aqui é beti, lá é com bola de meia e com o pé, as bases latas de cera Parquetina amassadas, bola de gude, finca; catecismos do Carlos Zéfiro, Guarapan, leite em garrafa de vidro e um perfume do qual não lembro o nome. Ah, e as montanhas, sempre as montanhas.
 
Obrigado Amigo/Irmão. Valeu muito.


*Este conteúdo é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.





 
 
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