04/04/2017 às 10h34min - Atualizada em 04/04/2017 às 10h34min

A armadilha da meia melhora

Encerrado o ano de 2016 cujas dificuldades se resumem no preocupante número do PIB, onde a queda de 3,6% impõe uma terrível realidade ao País, o que se tem no início de 2017 é um ambiente distinto, o sentimento geral em muito incentivado pela narrativa do governo é que o pior da crise já passou e que o País ensaia uma recuperação. Neste ambiente de meia melhora, os movimentos sociais marcaram protestos em nove estados a favor da Lava Jato, e contra o foro privilegiado, a adesão em todo o Brasil foi aquém do histórico de manifestações organizadas por estes grupos.

A baixa adesão de público no protesto do dia 26, traz um preocupante cenário de inércia para a qual a sociedade brasileira pode estar sendo conduzida, anestesiada por uma sensação de meia melhora econômica, que legitima práticas políticas reprováveis que insistem em continuar no País mesmo após o processo de impeachment. É importante lembrar que esta mesma inércia quanto a temas éticos e comportamentais dos nossos governantes, existiu no Brasil dos anos 2000, cuja tolerância da sociedade e das instituições para com o Mensalão, provocou a instauração da corrupção sistêmica dos governos petistas, que agigantaram o Estado sob pretexto da melhora econômica para então saquear.

Remetendo ao assunto puramente econômico, é absolutamente natural que após 11 trimestres de queda consecutiva e aguda da atividade, haja uma recuperação cíclica, o que deve ocorrer talvez no 3° trimestre deste ano. No entanto, onde este esboço de recuperação irá nos levar?

Antes de responder, é necessário um breve histórico de longo prazo da economia brasileira, entre 1930 e 1979, o País apresentou uma taxa média de crescimento econômico de 6,5% ao ano, não sem desequilíbrios consecutivos nas contas externas e públicas, mas neste período, o Brasil se consolidou como industrial e urbano. Desde 1980 até 2016, nossa taxa de crescimento anual média foi de 2,3%, neste período tivemos três crises agudas e longas, governo Figueiredo, governo Collor e governo Dilma.

Feito este parêntese, está claro que a presente recuperação, na ausência de reformas estruturantes capazes de garantir a solidez financeira de longo prazo do Estado, a colocação do País nas cadeias globais de valor, a elevação total da produtividade dos fatores que crescem a taxas marginais decrescentes desde 1980, só poderá conduzir o Brasil a taxas de crescimento medíocres – talvez menores até do que a média histórica recente de 2,3% ao ano – enquanto se aguarda a próxima crise aguda e longa.

Neste ambiente de meia melhora, o Brasil vai se acomodando no ambiente político que em nada evoluiu desde a última crise, e também vai se acomodando para uma nova armadilha de baixo crescimento econômico, incapaz de criar valor e riqueza o suficiente para dar sequência ao processo de distribuição tão desejado pela sociedade e pelo contrato social firmado na constituição de 1988.

Uma taxa de crescimento média de longo prazo inferior a 2,3%, talvez próxima a 1,5% é o que espera a Nação após a mencionada recuperação. Este nível de atividade vai significar uma semi-estagnação da renda per capita. Mais do que isto, vai significar um afastamento do Brasil em relação aos indicadores de países de renda elevada. Não há mágica, e a promessa de Novas Matrizes heterodoxas de promover o crescimento baseado na demanda, sobretudo a pública, só é capaz de produzir inflação e baixa eficiência.

Benito Salomão

Bacharel e Mestre em Economia

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