18/08/2019 às 08h00min - Atualizada em 18/08/2019 às 08h00min

Longa estrada

WILLIAM H STUTZ

Contam as más-línguas, e aqui só repasso pois nem sei se verdade é, estranha história ocorrida em meados do século passado. Com o intuito de diminuir o isolamento em que se encontrava a cidade de Manaus, governador do estado e prefeito municipal resolveram deixar as querelas políticas de lado e unirem forças na construção de uma estrada internacional que ligaria a capital do Amazonas ao mar do Caribe.

O traçado já estava feito, pelo menos na cabeça dos políticos. Saindo da capital seguiria direto para Novo Airão, de lá em reta linha cortaria mata fechada rumo a São Miguel do Rio Negro e de onde embicaria para Tupuruquara, depois São Miguel da Cachoeira e por fim chegaria em Cucui já na divisa com a Venezuela.

Acreditavam aqueles senhores que, uma vez cumprido o trecho em pátrio território, as autoridades diplomáticas federais, confortavelmente instaladas em Brasília, se incumbiriam dos trâmites legais para prosseguimento da empreitada através do país vizinho até o desemboque da rodovia nas cálidas praias caribenhas.

Ideia e "projeto" feitos, correr a contratar engenheiro e peões para início das obras. Depois de muitos editais convocatórios publicados em jornais de todo Brasil, apenas um pretendente ao serviço apareceu. Era um jovem engenheiro paulista, recém formado em conceituada universidade, possuidor pois de boa formação além de ser de primorosa estirpe.

Apesar da má impressão inicial quando da entrevista com o oficial de ordens do governador, foi aceito por ser, como já dito, candidato único. Mãos à obra e toca a abrir a sonhada estrada. Já no primeiro quilômetro eis que encontram exatamente bem no traçado do mapa um gigantesco e centenário Mogno, majestoso, com sua copa tomada por pássaros e ninhos. Sensível às belezas naturais o jovem engenheiro de pronto decidiu por um pequeno desvio de forma a poupar aquela joia da criação.

Pouco mais adiante lindo e cristalino córrego, em suas margens revoadas de borboletas multicoloridas, samambaias e orquídeas de rara beleza enfeitavam todo seu entorno. Com os olhos marejados de emoção diante de tanta beleza o engenheiro se recusa terminantemente a aterrar o local para construção da primeira ponte — obra de arte como chamada em linguagem técnica — pois sim, obra de arte de verdade era aquela que à sua frente despontava. Novo desvio.

E assim as belezas de nossas verdes matas, de nossa exótica e deslumbrante riqueza natural, iam se sucedendo quase que metro a metro e a cada espetáculo, aos olhos do jovem construtor de caminhos, cada vez mais lembravam as antigas expedições de pesquisa como a do zoólogo da Academia Real de Ciências da Alemanha, Johann B. von Spix, ou do também gringo alemão, o botânico Karl Friedrich, pura e imensa emoção, sempre aperto na garganta, sempre novo desvio.

Não demorou muito, minto, demorou bastante, meses de incansável trabalho, de desvio em desvio, contorno em contorno, não deu outra — a estrada aberta na mata a duras penas e muitas malárias retornou a Manaus. E assim, contam, esta maravilha da engenharia passou a ser conhecida para desencanto e fúria política como a famosa estrada Manaus-Manaus.

Quanto ao destino do jovem e virtuoso engenheiro, essa já é outra história, mas a boca miúda, desconfiados sussurram os poucos que dele ainda lembram:
— Dizem que virou Caipora.

E desconversam ligeiros.

*O conteúdo desta coluna é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.

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