Mais de 25 mil consumidores de Uberlândia tiveram interrupção de energia por causa de pipas neste ano

Uso próximo à rede elétrica e materiais como cerol e linha chilena transformam a prática em ameaça para moradores, motociclistas e trabalhadores

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O período de férias escolares e os dias com maior presença de ventos costumam favorecer o aumento dos casos I Foto: Agência Brasília

Mais de 25 mil clientes ficaram sem energia neste ano, em Uberlândia, devido a ocorrências envolvendo pipas na rede elétrica da Companhia Energética de Minas Gerais (Cemig). Segundo dados da estatal, de janeiro a maio de 2026, foram registrados 78 casos de queda de energia relacionados a pipas.  

Ainda de acordo com o levantamento, as ocorrências são recorrentes e aumentaram no último ano. Em 2025, o número de interrupções de energia foi de 214, com 35.248 clientes afetados. Já em 2024, foram 160 casos e 44.492 consumidores prejudicados. 

O cenário se repete em todo o estado de Minas Gerais. Segundo a Cemig, somente em 2026, até maio, foram mais de 3,5 mil ocorrências relacionadas a pipas, impactando cerca de 1,1 milhão de consumidores. Já em todo o ano de 2025, mais de 1,1 milhão de clientes ficaram sem energia, um aumento de 45,7% em relação a 2024, quando 765 mil unidades consumidoras foram afetadas.  

Na região do Triângulo Mineiro, 75 mil clientes foram afetados em 2025, em um total de 391 ocorrências relacionadas a pipas na rede elétrica. Em 2026, até o momento, já foram registrados 139 casos, impactando cerca de 36 mil consumidores.  

Apesar das campanhas de conscientização realizadas todos os anos, os dados mostram que o problema continua se repetindo e que os impactos vão além da falta de energia. 

De acordo com o técnico em segurança do trabalho da Cemig, Marcos Alcides, as linhas utilizadas em algumas pipas podem provocar danos nos equipamentos da rede elétrica. 

"Principalmente aquelas pipas que utilizam cerol, ou linha chilena, representam um perigo potencial para as redes. Elas podem se prender nos cabos, conexões, transformadores e equipamentos e causar a interrupção do fornecimento de energia para várias pessoas", explicou. 

Segundo ele, a dimensão do impacto depende do local onde ocorre o incidente e da estrutura atingida. "Depende da rede, da localização dela, mas pode prejudicar todos os clientes que as redes estão alimentando. Nós temos aqui o histórico de mais de 30 mil clientes terem o fornecimento interrompido. Isso porque essas linhas são altamente cortantes e podem cortar os cabos e as conexões, podendo inclusive causar acidentes graves, inclusive fatais", afirmou. 

FÉRIAS E PERÍODOS DE VENTOS
O período de férias escolares e os dias com maior presença de ventos costumam favorecer o aumento dos casos, já que mais crianças passam tempo nas ruas empinando pipas. 

"Sim, período de férias e os períodos de maior incidência de ventos, que favorecem à soltura de pipas, as crianças estão sempre mais presentes nas ruas e torna os eventos mais frequentes. É importante que solte em locais afastados da rede elétrica como bosques, parques, sempre em áreas abertas", orientou Marcos. 

O Corpo de Bombeiros alerta que o risco não está apenas no contato da pipa com a rede, mas também nas tentativas de retirada do brinquedo preso nos fios. Segundo a tenente Patrícia de Castro Resende, empinar pipas próximo à rede elétrica pode provocar acidentes graves. 

"Empinar pipa próxima a rede elétrica pode causar choques graves e até mesmo fatais. Além disso, o contato da linha com os fios pode provocar curto circuitos, interrupções no fornecimento de energia, além de acidentes de pessoas que estejam nas proximidades", explica. 

A orientação é que ninguém tente recuperar pipas presas em postes, árvores ou estruturas próximas à fiação. "A gente orienta que jamais se tente retirar uma pipa que esteja preta em fiação elétrica. Muitas pessoas tentam subir em postes, árvores e telhados que estejam próximos à rede elétrica para alcançar essa pipa e aí aumenta significativamente o risco de choque elétrico e também o risco de queda", afirma. 

CEROL E LINHA CHILENA
Além dos danos à rede elétrica, o uso de cerol e linha chilena representa uma ameaça, principalmente para motociclistas, ciclistas e pedestres. Por serem materiais altamente cortantes, essas linhas podem causar ferimentos graves. 

"O cerol e a linha chilena acabam transformando aquilo que seria uma brincadeira em uma atividade perigosa, pois estes materiais provocam ferimentos como cortes profundos em motociclistas, ciclistas, pedestres e já tivemos até casos de animais que tiveram ferimentos por corte vindo desses materiais", alerta Patrícia. 

Para motociclistas e entregadores, a recomendação é utilizar equipamentos de proteção, como antenas corta-pipa, que ajudam a reduzir o risco de contato direto com linhas cortantes. 

A utilização do cerol em pipas é crime no Brasil. O ato é enquadrado no Artigo 132 do Código Penal Brasileiro, que proíbe expor a vida ou a saúde de terceiros a perigo direto e iminente. A pena varia de 3 meses a 1 ano de detenção, além da apreensão do material.  

Além do processo criminal, diversas legislações estaduais e municipais preveem multas pesadas que podem passar de R$ 5 mil. Se o infrator for criança ou adolescente, o ato é classificado como infração análoga ao crime, e os pais ou responsáveis legais podem ser responsabilizados civil e criminalmente.

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