Uberlândia registra, em média, três casos de violência contra crianças e adolescentes por dia

De janeiro a abril deste ano, cidade totalizou 392 crimes contra menores de idade

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Entre crianças até 11 anos, a lesão corporal aparece como a principal ocorrência I Foto: AGÊNCIA BRASIL

Uberlândia registra, em média, três casos de violência contra crianças e adolescentes por dia e 98 por mês. Dados do Observatório de Segurança Pública de Minas Gerais apontam que, entre janeiro e abril deste ano, a cidade totalizou 100 ocorrências de crimes contra crianças, de 0 a 11 anos, e 292 registros contra adolescentes de 12 a 17 anos, totalizando 392 casos no período.  

Ainda de acordo com o levantamento, nos primeiros quatro meses dos últimos anos, o cenário de violência foi semelhante. Em 2024, o município teve 371 ocorrências do tipo, sendo 115 casos envolvendo crianças e 256 adolescentes. Já em 2025, foram 390 registros, com 125 vítimas crianças e 265 adolescentes.  

Entre crianças até 11 anos, a lesão corporal aparece como a principal ocorrência, com 135 vítimas nos três anos analisados. Na sequência estão estupro de vulnerável, com 127 registros, e vias de fato/agressão, com 114 casos. 

Entre adolescentes, os principais registros foram furto, com 308 vítimas, ameaça (295) e vias de fato/agressão (291). 

Em relação ao perfil das vítimas, 50,68% das crianças eram do sexo masculino. Já a maioria das vítimas adolescentes era do sexo feminino (52,02%).  

Segundo a conselheira tutelar Érika Machado, o Conselho Tutelar recebe diariamente situações que envolvem diferentes violações de direitos. Conforme dito pela especialista, os crimes podem assumir diversas formas, incluindo agressões físicas, violência psicológica, negligência, abandono e abuso sexual. 

"Recebemos denúncias relacionadas à negligência, violência física, psicológica, sexual, abandono, conflitos familiares e situações de evasão escolar. Atendemos casos em que há exposição da criança ou adolescente a um ambiente de risco, uso de substância pelos responsáveis", relatou. 

MARCAS EMOCIONAIS
Para além das consequências imediatas, a violência durante a infância e adolescência pode produzir impactos psicológicos que permanecem por toda a vida. A psicanalista Maria Luiza Borges explica que uma das principais consequências é o sentimento de culpa desenvolvido pela própria vítima. 

"A violência causa um trauma psicológico na criança e no adolescente, gera culpa e angústia, porque às vezes as vítimas vão fantasiar que são responsáveis por este ato. Existe na nossa cultura misógina e machista a ideia de que a menina ou a criança provocou o ato ou é erotizada, o que é um mito, uma fantasia. A criança até tem uma curiosidade sexual, porém, não é responsável pelos seus atos. Cabe a um adulto, responsável, não fazer mal uso dessa curiosidade", disse. 

Segundo Maria Luiza, o medo e a vergonha também podem fazer com que muitas vítimas permaneçam em silêncio, dificultando a identificação dos casos. 

"Outra questão que pode acontecer é a inibição e o silenciamento da vítima. Um dos primeiros sinais que a família pode observar é justamente o isolamento desta criança, a inibição para se alimentar, um estado mental de choro, ou as próprias observações corporais como machucados no corpo, no próprio órgão sexual. Mas o primeiro sinal, tende a ser o silenciamento" 

Os impactos da violência sofrida na infância ou adolescência podem aparecer anos depois, afetando relações pessoais, autoestima e percepção de segurança. Conforme dito pela psicanalista, traumas não elaborados podem influenciar comportamentos e vínculos na fase adulta. 

"Na vida adulta, esse trauma da violência pode causar uma inibição da sexualidade, dificuldade de relacionamento seja com homens ou com mulheres devido a esta violência, ou até mesmo uma compulsão à repetição. Perpetuar essa repetição de violência, como tentativa de elaboração, como escolher parceiros ou parceiras que a vitimizam ou violentam", explicou. 

PAPEL DA ESCOLA
A identificação precoce é considerada uma das principais ferramentas para interromper ciclos de violência. Mudanças repentinas de comportamento, isolamento, queda no rendimento escolar, alterações emocionais ou sinais físicos podem indicar que algo está errado. 

A escola possui papel estratégico nesse processo, justamente por acompanhar a rotina das crianças e adolescentes. 

"As escolas são nossas maiores aliadas, pois elas estão na no dia a dia com a família, por vezes mais que os próprios familiares. A escola possui uma posição estratégica. Os profissionais da escola, os outros alunos percebem mudanças de comportamento, sinais físicos ou emocionais que indicam uma possível situação de violência", afirma Érika. 

DENÚNCIAS
Quando uma situação de violência é identificada, o Conselho Tutelar atua para garantir medidas de proteção previstas no Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). 

"Verificamos a situação, a denúncia informada e adotamos as medidas de proteção cabíveis previstas no ECA. Dependendo do caso, encaminhamos para os serviços de proteção, como saúde, CRAS, CREAS, Educação (vaga por exemplo) polícia civil, poder Judiciário. A parceria do conselho tutelar com a rede de proteção é imprescindível para nossa atuação e Uberlândia contamos com a rede de proteção" 

Para a conselheira, denunciar é o primeiro passo para que a rede de proteção consiga agir. 

"É essencial! Permite que a rede de proteção tome conhecimento da situação e atue para proteger a criança e adolescente. É o primeiro passo para interromper uma violência que ocorre seja há muito tempo ou não" 

As denúncias podem ser feitas na Polícia Militar, através do 190, ou diretamente no Conselho Tutelar (34) 3231-0481.

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