07/10/2021 às 17h05min - Atualizada em 07/10/2021 às 17h05min

No Afeganistão, Talibã proíbe alunas e professoras de voltarem à escola

Ascensão de grupo extremista ao poder no mês passado jogou o país em uma crise social e política

ESPECIAL PARA O DIÁRIO | VINÍCIUS SOUZA
Sohaib Ghyasi/Unsplash
A ascensão do Talibã ao poder no Afeganistão, em meados de agosto, jogou o país em uma crise social, econômica e política. Os efeitos da desastrada saída norte-americana e o caos deixado pelas forças militares estadunidenses ajudaram a minar os avanços que os cidadãos afegãos haviam conquistado nos últimos anos, a despeito dos conflitos que cercam a região com alguma frequência.
 
Veículos do mundo inteiro, como o
Jornal365, acompanham a situação com apreensão e temor. A cada dia, a retomada das atividades no país parece mais incerta. O grupo extremista dominou o poder e tem colocado em prática uma série de ações que não deixam margem para esperança em um regime minimamente democrático. A ideia de liberdade foi soterrada e não deve ser restaurada enquanto o grupo estiver no comando.
 
Prova disso é que o Talibã tem liberado aos poucos a retomada das atividades escolares. Mas com um adendo: meninas que estão no ensino secundário, uma espécie de ensino fundamental e médio no país, não poderão voltar às aulas neste momento.
 
"Todos os professores e estudantes do sexo masculino devem frequentar as suas instituições educacionais", disse a declaração do grupo na semana passada. O futuro educacional das meninas e das professoras, reclusas em casa desde que o Talibã assumiu o poder, não foi abordado.
 
A restrição do ensino a mulheres tem preocupado especialistas em direitos humanos e analistas internacionais, que veem na estratégia uma atitude similar do grupo às ações realizadas durante os anos 90, quando os extremistas ocuparam o poder no Afeganistão.
 
Em entrevista ao jornal inglês The Guardian, Kate Clark, que atua na direção da Rede de Analistas do Afeganistão, afirmou que o grupo sempre manteve essa postura alegando falta de segurança e contrariando os preceitos do Islã, que, segundo ela, valoriza a educação e alfabetização de todos
 
Há duas décadas, ressaltou a especialista, a educação de mulheres ficou restrita a classes minúsculas, reunidas em casas familiares, ou em poucas escolas geridas por instituições de caridade, em pequenas províncias do país. A educação transformou-se em uma ação de alto risco no país, sobretudo às mulheres.
 
"Havia sempre o medo de que as atividades poderiam ser encerradas a qualquer momento, e sob o ímpeto da violência. Ou que os professores fossem espancados e detidos, por exemplo. Ensinar mulheres voltará a ser um ato de coragem e resistência, disse Clark.
 
Ao longo das últimas semanas, o Talibã havia liberado o ensino para meninas da educação primária, ainda que num esquema totalmente segregado. Especialistas avaliam que tais medidas vão afetar drasticamente o ensino e podem influenciar no desencorajamento da alfabetização entre as mulheres do país.
 
Outra prova de que o futuro das mulheres sob regime do Talibã é incerto foi a determinação do grupo extremista, que vai substituir o Ministério de Assuntos Femininos pelo Ministério da Propagação da Virtude e Prevenção do Vício. A pasta era responsável pela aplicação das duras políticas fundamentalistas islâmicas nos anos 1990.
 
Relatos e registros históricos mostram que os agentes do ministério chicotearam mulheres que andavam sozinhas pelas ruas do país, baseados em uma interpretação errônea e muito rigorosa do islã. O clima, portanto, é de total apreensão.
 
Embora o grupo extremista tenha dito que pretende governar com maior moderação do que em seu primeiro mandato (1996-2001), líderes do Talibã não autorizaram a maioria das mulheres a retomar o trabalho e introduziram regras sobre suas roupas na universidade.
 
 Essa publicação é de responsabilidade do autor e não representa necessariamente a opinião do Diário de Uberlândia
 
 
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