08/12/2019 às 11h00min - Atualizada em 08/12/2019 às 11h00min

Artistas plásticos formados por faculdades ou pela vida falam de suas experiências

Diário de Uberlândia conversou com artistas que relataram a rotina de explorar a arte na cidade

ADREANA OLIVEIRA
Andréa Miranda, da Comissão de Cultura do Fórum, Helinho Cassiano e Eleusa | Foto: Adreana Oliveira
Isabela Alves Diniz tem 11 anos. Ainda está longe de precisar escolher que carreira vai seguir ou pensar em algo definitivo na vida. Mas uma coisa é certa: a arte estará com ela, se não profissionalmente, como algo que lhe permita expressar seus sentimentos nas telas, ou, talvez em até outro formato. Incentivada pelos pais, Kátia Alves da Silva e Heyder Diniz Silva, ela mantém uma agenda condicente com a de uma criança da sua idade: escola em primeiro lugar, aprendizado de um segundo idioma, uma atividade física de livre escolha, e agora, a pintura.

A aluna do ateliê Arte NBarbosan é um orgulho para a professora, Neusa Barbosa Netto, que com ela usa o método “despertar da criatividade”, voltado para formação de artistas a partir da observação natural, sem cópia de gravuras, com base na geometria, perspectiva e harmonia das cores e escalas.

Para Isabela, foi novidade para ela descobrir as escalas monocromáticas e isocromáticas. Ela logo iniciará na Arte Contemporânea com pesquisas, estilização e composição. “Eu já gostava muito de desenhar, recortar, colorir e quando comecei a pintar minhas telas e via a primeira pronta, senti um orgulho e alegria imensos, mas principalmente, sei que ainda posso melhorar muito”, disse a estudante.

Nascida em um mundo já totalmente conectado, a menina do signo de Peixes afirma que também gosta dos eletrônicos, de assistir TV e acredita que a chave para tudo está no equilíbrio. Para Kátia, a mãe, que é administradora, a palavra que define os filhos é disciplina.

“Temos que prepará-los para conviver com outras pessoas de forma harmoniosa e a arte é uma das ferramentas para isso”, disse Kátia.

Em março, quando Isabela completará 12 anos, Neusa, que já expôs no Louvre, em Paris, fará sua exposição individual no Teatro Municipal de Uberlândia, e uma tela de Isabela fará parte da mostra. Para Neusa, ensinar é um grande prazer.

E quem disse que tem hora para começar? Para o autodidata Helinho Cassiano, ver suas telas da série “Paisagens e Passagens” em um dos mais novos espaços de Uberlândia, o Espaço Cultural do Fórum, é motivo de alegria, assim como para Maria Eleusa, também com uma mostra no mesmo espaço, que começou a pintar aos 50 anos.

“Além da pintura em tecido também faço as molduras de todas as telas, sou autodidata mesmo e fui incentivado pelos amigos a pintar, e tomei gosto pela coisa. Essas são minhas primeiras telas”, diz ele, mostrando os quadros selecionados para a exposição e já vislumbra novas exposições para o futuro.

Helinho foi aluno de artes de Jimmy Rus, curador da exposição. “Ele me via como um pescador e tudo que eu pego trago para a tela, foi muito inspirador”.

Maria Eleusa é geógrafa, com longa carreira na docência, e traz quadros pintados ao longo de 10 anos, sempre focalizando mais flores. Nascida e criada em Uberlândia, ela conta que pintava no chão de casa, foi algo que a acompanhou na infância, mas nunca havia levado a sério. “Fui ajudar a minha mãe em uma aula, ela não conseguiu terminar uma maçã e terminei para ela, a partir daí não parou mais”, disse ela, que tem outros artistas na família. “Acho que está no DNA”.

Cada paisagem reflete um momento que ela jamais esquece. “Um dos quadros, que chamo de minha obra prima, eu não vendo de jeito nenhum, fica no meu quarto”, disse ela, aluna de Vanderlucia Rosa. “Mesmo quando não estou inspirada ela me ajuda, é muito persistente e é um grande exemplo para mim”.

Assim como a pequena Isabela, a agora professora de Maria Eleusa começou a pintar aos 11 anos de idade...
 
ARTISTAS PLÁSTICOS

Abertura da exposição “Cidades Oxidadas” de Rosemário Souza | Foto: Divulgação

O Espaço Cultural do Fórum - que fica na Av. Rondon Pacheco, 6.130, Tibery, e abre das 12h às 18h, com entrada franca - abriga as exposições de Helinho Cassiano e Maria Eleusa, que se dividem entre a arte e suas profissões formais, e abriga também a mais nova série da artista plástica Alessandra Cunha, a Ropre, que há alguns anos, mesmo com todo cenário contra, deixou de lado um emprego estável para se dedicar exclusivamente à arte, viver e não só sobreviver por meio dela.

Em “Quão irreal” - uma série de 10 pinturas acrílicas sobre algodão cru criadas no ano em 2018, em estilo estandarte que não têm molduras, apenas chapas finas de MDF na extremidade superior e inferior – ela mostra suas pinturas mais figurativa dos últimos anos. “Nesta série creio que trago um desabafo sobre eventos de 2017. As imagens buscam uma metáfora entre a devastação da alma e a destruição indiscriminada do meio ambiente, que se iniciaram quase no mesmo período, tudo respaldado por interesses político e econômico”, afirmou ela, que em 2017 teve uma obra sua, que denunciava pedofilia, retirada do Museu de Arte Contemporânea (Marco) de Campo Grande (MS), em um daqueles “mal-entendidos” difíceis de digerir. Antes de Uberlândia, essa série voltou ao museu no Mato Grosso do Sul.

“Nada mais justo que ter a oportunidade de expor esta série no Marco, como resposta a questões vividas naquele museu em 2017. Depois foram para Ouro Preto, cidade pela qual guardo muito carinho e hoje estão aqui, na minha casa.”

Ropre percebe uma grande diferença na frequência do público de outras cidades em seus museus e galerias com relação a frequência das pessoas nos espaços culturais de Uberlândia. O Marco, por exemplo, ela denomina como um museu pulsante, vivo, alegre e sempre cheio de estudantes e amantes das artes. “A divulgação é um ponto positivo, aliado à ação educativa que atrai escolas para o museu. E essa divulgação é extremamente importante em todos os níveis e meios, pois é o que provoca a alteração de fluxo público. Pode atrair para espaços culturais quem nem imagina o que há em galerias e museus”.

Para ela, a democratização dos espaços é importante, para fugir da seleção de editais, por exemplo, para os quais sempre são aprovados os mesmos artistas. “Infinitas vezes ouvi reclamações de amantes das artes que sentem falta de artistas que possuem trabalhos coerentes e condizentes com sua localidade, mas que jamais têm a chance de expor em um museu universitário, por exemplo. Parece que há uma discriminação do artista local, em prol da valorização dos ‘forasteiros’, que às vezes nem têm tanta experiência ou pesquisa aprofundada. E com certeza, este fator também afasta o público que não se vê representado por tal instituição cultural.”

Assim como Ropre, Rosemário Souza, em cartaz na Oficina Cultural com sua primeira exposição individual, “Cidades Oxidadas”, torce por essa democratização, dentro e fora das galerias.

Seus trabalhos nesta série remetem ao urbano cinza, e também às cores resultantes de oxidação, como vermelho, amarelo, marrom. São pinturas contemporâneas realizadas sobre chapa metálica, motivadas pelo aprendizado na academia, aliado às técnicas de ofício executadas na fábrica onde trabalho. “O tema, a propósito, é o urbano, com seus cinzas esfumaçados, seus marrons, seus desgastes e sua corrosão”, afirmou.

Frequentador de galerias públicas e particulares de Uberlândia, que oferecem entrada franca, ele percebe que há o incentivo para a visitação, porém, em algumas, o horário é um complicador. “Geralmente o horário de visitação é a tarde, o que restringe bastante a visitação, pois coincide com o horário de expediente da maioria da população”, disse Rosemário, que elogia a iniciativa do Museu Universitário de Arte (MUnA), que além do horário estendido durante a semana, abre também aos sábados.

Porém, ele percebe na cena local um outro problema, talvez ainda mais incômodo nesse segmento. “O público que vejo frequentando essas galerias é basicamente o mesmo: pessoas ligadas ao universo da arte, como estudantes, professores, artistas, pessoas envolvidas com cultura. Sinto falta do público curioso, que visita a galeria por apreciação despretensiosa, num passeio sem preocupação. Talvez essa democratização dependa tanto da disponibilização dos espaços, quanto de uma cultura de frequentá-los.”

Então, aproveite este domingo para planejar uma visita às galerias de Uberlândia durante a semana e valorize o artista da sua cidade, e se for seu objetivo estar entre eles, também é uma boa forma de fortalecer o cenário do qual você poderá ser parte no futuro. O Diário selecionou algumas dicas para você.
 

EXPOSIÇÕES DE LONGA DURAÇÃO EM CARTAZ EM ESPAÇOS DO MUNICÍPIO
“Nossas Raízes”, “Tecelagem”, “Sustento de vida”, “Projeto Mala e Cuia” e “Câmara Municipal” | 8h às 17h30, segunda a sexta-feira | Museu Municipal
“O Museu Visita o Teatro - Exposição de objetos do acervo do Museu Municipal” | Durante os horários dos espetáculos e funcionamento da bilheteria | hall do Teatro Municipal de Uberlândia
“Bichos Híbridos” e “Atravessando Olhares” | 12h às 17h, de segunda a sexta-feira | Casa da Cultura
“Veja a cultura, semeie a cultura” | 12h às 17h, de segunda a sexta-feira | Pátio da Casa da Cultura
“Cidades Oxidadas” | 8h às 18h, de segunda a sexta-feira | Galeria Lourdes Saraiva, na Oficina Cultural
“Tournant Dans La Danse” | 8h às 18h, de segunda a sexta-feira | Sala Alternativa, na Oficina Cultural
“Frestas” | 12h às 18h, de segunda a sexta-feira | Galeria Ido Finotti no Centro Administrativo
 
OUTRAS GALERIAS E MUSEUS – PROGRAÇÃO SOB CONSULTA
Telefone: (34) 3228-8300
Espaço Cultural do Mercado Municipal | R. Olegário Maciel, 255, Centro | 3235-7790
Estúdio Ponto Azul Galeria e Atellier |Rua da Carioca 1.581A , Morada da Colina | 3214-9082
ITV Cultural | Av. Getúlio Vargas, 869, Tabajaras | 3230-7600
Museu do Índio da UFU | Av. Vitalino Rezende do Carmo, 116,  Santa Maria | 3236-3707
Museu Universitário de Arte (MUnA) | Rua Coronel Manoel Alves, 309, Fundinho | 3231-9121








 
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