08/09/2019 às 08h00min - Atualizada em 08/09/2019 às 08h00min

Karatê - arte, disciplina e superação

Apesar de pouca visibilidade na mídia, modalidade tem legião de adeptos e histórias que marcaram vidas

EDER SOARES
Projeto de karatê na Futel ensina a arte marcial para crianças de 7 a 17 anos | Foto: Divulgação

Considerado um esporte milenar, o karatê não tem a mesma visibilidade na mídia nacional que modalidades como o futebol e o vôlei, apesar de ser e uma das artes marciais mais praticadas do mundo. O fato, no entanto, não impede que o esporte tenha uma legião de adeptos e colecione histórias que marcaram a vida de muita gente, seja pela disciplina e os valores ensinados juntamente com as técnicas.

Em Uberlândia existem cerca de 15 academias que ensinam a arte e levam seus alunos para competições por todo o Brasil. São aproximadamente três mil praticantes de karatê na cidade, segundo estimativa das próprias academias.

O Diário de Uberlândia foi atrás de algumas histórias dos adeptos dessa modalidade, que em 2020 fará parte dos Jogos Olímpicos de Tóquio como evento teste. A expectativa é que o karatê se torne competição permanente nas próximas edições.

André Luiz de Souza , de 53 anos, está no Karatê desde os nove anos de idade. Na Federação Mineira de Karatê (FMK), ele faz parte atualmente do conselho fiscal e realiza eventos pelo estado há sete anos, como o Campeonato Mineiro. Ele faz questão de destacar os mestres que marcaram a sua trajetória e que hoje figuram entre os caratecas mais renomados de Uberlândia e do estado.

“Comecei com nove anos com o professor Milton Farah, até os meus 16 anos, na academia Uruma-kan. Depois passei uma temporada com o sensei Rui Barbosa Parente, na academia Takei. Os dois são excelentes professores e os melhores da nossa região. São os percussores do karatê. Se existe karatê aqui foi porque nós temos eles”, disse André, que há 22 anos dá aulas no Esporte Clube Girassol.

“O karatê de Uberlândia é muito respeitado e reconhecido mundialmente. Daqui, saíram muitos atletas para a seleção brasileira e campeões mundiais, como o Diogo Tavares. A seleção mineira, mais de 50% é composta por caratecas de Uberlândia”, completa André, frisando as dificuldades de investimento em um esporte ainda considerado amador.

“O karatê ainda é um esporte amador e por isso não é muito divulgado. Mas temos uma estatística que é o segundo esporte mais praticado em Uberlândia e no Brasil. Então estamos muito bem representados. A mídia dá preferência para esportes profissionais, o que nós ainda não somos. Para Tóquio 2020, o karatê se tornou um esporte olímpico. Tomara que fique para sempre, pois vai alavancar ainda mais o nosso esporte”.

Um dos nomes fortes do karatê de Uberlândia na atualidade e considerado um futuro potencial olímpico é Rafael Santos, de 20 anos, primeiro em Kata do Brasil e que representa a seleção brasileira sênior. Ele começou no karatê aos sete anos de idade, na academia do professor Milton Francisco, e hoje trabalha com o professor Rui Barbosa Parente na academia Takey Sports. Em seu currículo estão um terceiro lugar no Sul-Americano de 2017, o quinto lugar no Pan-Americano, o vice-campeonato brasileiro de 2018, além do título do Pré-Olímpico do mesmo ano.

“Finalizei o Campeonato Mundial 2017 entre os sete melhores da categoria e sou integrante da seleção brasileira de base e principal. O karatê de Uberlândia vem crescendo bastante desde quando eu comecei, e o karatê do Brasil é um dos melhores do mundo, com certeza. Meus objetivos no esporte são, sim, chegar às Olimpíadas e buscar uma medalha olímpica”, afirmou.
 
PAIS ATENTOS
A legislação do karatê permite que se tenha mais de uma federação em qualquer lugar do Brasil. Daí a cautela na escolha do lugar de treinamento por parte de quem pretende seguir carreira no esporte. O organizador de competições da FMK, André Luiz de Souza, deixa um alerta aos pais que querem colocar seus filhos para praticar o karatê.

“Que os pais, quando forem levar os seus filhos a uma academia, que pesquisem quem é a aquela academia, se é registrada e com quem é cadastrada. Nós temos a Federação Mineira de Karatê (FMK), que é ligada à Confederação Brasileira de Karatê (CBK), que por sua vez é filiada à Federação Internacional de Karatê (WKF). Este é o caminho que dá direito ao atleta de chegar a uma Olímpiada, por exemplo. Não posso falar que a academia X ou Y é a melhor. Ela sendo registrada, tendo uma federação, o professor sendo idôneo e tendo referências é o mais importante”.
 
PROJETO FUTEL
O educador físico João Batista Pires, de 57 anos, trabalha no projeto de karatê da Fundação Uberlandense de Turismo, Esporte e Lazer (Futel) desde 2007. Formado com o professor Milton Farah, Joãozinho, como é conhecido, começou a praticar a modalidade esportiva em 1985. “Enquanto eu tiver condições, estarei tentando aprender alguma coisa. Sempre serei um aprendiz de karatê”, disse Joãozinho.

A Futel mantém três núcleos destinados ao karatê: Poliesportivo São Jorge, Poliesportivo Luizote de Freitas e o UTC. “Temos a ótica da inclusão, com crianças de 7 a 17 anos, mas acho que é complicado dizer em idade limite para se aprender. Várias mães, pais e avós que trazem seus filhos e netos, hoje, estão treinando karatê. Então é um prazer muito grande ter este vínculo com as famílias”, conta Joãozinho. Ele explica que as aulas são a extensão do que o aluno aprende em casa e vice-versa. “Trabalhamos muito a questão de disciplina, respeito, controle de violência e agressão, tentamos implantar isso. Tenho alunos altistas e com síndrome de down e que são grandes atletas”, afirmou.
 
SEM LIMITES
Atleta com down é tetracampeão brasileiro


Daniel: “O karatê é tudo para mim, faz parte da minha vida” | Foto: Divulgação
 
O dia 21 de março é a data escolhida internacionalmente para conscientizar e discutir a visibilidade social de quem tem a Síndrome de Down. Em Uberlândia, um atleta prova que ela não é uma barreira na busca e na conquista dos sonhos.

Daniel Borges, de 36 anos, é atleta de competição da Futel e tetracampeão brasileiro. “O karatê é tudo para mim, faz parte da minha vida. Comecei a treinar aos sete anos de idade, por incentivo do meu pai, que foi o meu primeiro treinador. Estou aqui na escolinha da Futel desde 2011 e neste período consegui ser campeão brasileiro quatro vezes”, disse.

Além de conquistar o carinho e respeito dos colegas, Daniel é conhecido por seu bom humor e seriedade durante os treinos. "O Daniel é um exemplo de que portadores da Síndrome de Down levam uma vida como a nossa. Faço questão de dizer que o esporte, independentemente da modalidade, contribui bastante para o desenvolvimento físico, motor e intelectual da pessoa”, disse o treinador João Batista Pires.
 
KYOSHI
História feita de superação

  SoaresMilton já formou mais de 200 faixas pretas | Foto: Eder Soares
 
Milton Farah tem 70 anos e está completando 51 anos de karatê. Ele tem o sétimo dan (kyoshi) estando a dois do grau máximo da arte marcial (shihan).  Atualmente, Farah e a sua academia, Uruma-kan, estão filiados à Federação de Karatê Veredas de Minas (FKVM). O começo do kyoshi no karatê foi em 1969 na antiga Academia do Takey. Antes, em 1967, levou um tombo e quebrou o braço. Mesmo com uma diferença considerável de tamanho em um dos membros, começou a praticar o esporte e nunca mais parou. Já formou mais de 200 faixas pretas.

“Tudo o que construí foi com o karatê. Hoje tenho grandes famílias aqui. A filosofia das artes marciais bem aplicada é fundamental na vida de qualquer pessoa, principalmente de crianças, e eu trabalho com muitas aqui em minha academia. Lutamos para nos aperfeiçoar. O karatê é um caminho que tem de ser seguido pela responsabilidade, educação, disciplina, moral e respeito. Essa é a linha. O karatê é isso e traz estas coisas, que são muito mais importantes do que títulos e troféus”, disse Farah.

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