28/07/2019 às 08h00min - Atualizada em 28/07/2019 às 08h00min

A insanidade produtiva de Fransérgio Araújo

Ator e diretor uberlandense trabalha para solidificar seu próprio método

ADREANA OLIVEIRA
Foto: Divulgação

Em 25 de setembro de 1973 nascia no hospital Santa Genoveva, bairro Martins, em Uberlândia, Fransérgio Araújo. Filho do “retratista” Agmar Gonçalves Araújo e da cabeleireira e manicure Cleuza Bernardelli, herdou deles a determinação que o guiaria pela vida de alma inquieta e ser itinerante. O menino que cresceu no bairro Satélite, hoje Pacaembu, que muitas vezes precisou correr para alcançar o ônibus A112 para chegar ao Centro, hoje está em uma outra corrida, e segue em constante mutação para legitimar o seu Teatro Selvagem. A vida não é linear, nem a carreira de Fransérgio, tão pouco esse texto.

O ator e diretor teatral radicado em São Paulo não deixa a cidade natal de lado, mesmo que lhe traga lembranças amargas, momentos de rejeição indeléveis da memória. “Foram muitos nãos que ouvi até ir embora, mas cada um desses nãos me fortaleceu e me permitiu chegar onde estou”, disse ele durante entrevista ao Diário de Uberlândia concedida em um espaço que já foi uma meca do underground local, a praça Rui Barbosa, ou “Praça da Bicota”.

Diante dos transeuntes que iam e viam, cercado pelo barulho dos motores dos carros, motos e ônibus que desciam pela avenida Floriano Peixoto, Fransérgio não precisa se esforçar para se fazer ouvir, assim como os pássaros que insistiam em pular de galho em galho das escassas árvores ousando soar mais alto que os motores.

“Eu já me apresentei aqui nesta praça com teatro de rua. Lia as músicas do Caetano, coisas assim”, recorda. A decisão de deixar sua terra natal não foi fácil e a gota d´água deu-se diante da maior das rejeições que já sentiu.

Em 1995, Fernanda Montenegro veio a Uberlândia para apresentar “Dias Felizes”, sob a direção de Jacqueline Laurence. “Era a Fernanda e o Fernando Torres, só os medalhões do teatro nacional. E ela daria uma oficina de atuação da qual eu fui cortado. Na época eu, o Luiz Humberto Arantes e o Flávio Sassioto havíamos tirado a Associação de Teatro de Uberlândia (ATU) das cinzas e levado pro Mercado Municipal, de onde foram convidados a se retirar recentemente. Eu era um ratinho de teatro...Vera Cruz, Rondon Pacheco, virava a noite com os técnicos montando e desmontando equipamento. Todo mundo me conhecia, mas eu era o menino de classe média baixa que vinha do que hoje é o Roosevelt, o famoso vileno. Não era do Grupo Elenco, nem da Universidade Federal de Uberlândia (UFU). Fiquei literalmente chupando dedo do lado de fora...isso foi sintomático, foi um agravante. Pensei: ‘Eu sou legítimo, sou daqui, eu tinha que fazer essa oficina... o que eu estou fazendo nessa cidade? Vou embora’”.

Não rolou a oficina com a Fernanda Montenegro, mas ele foi “absorvido” no workshop de direção com Jacqueline Laurence. Na época, Fransérgio foi à redação do jornal “Correio de Uberlândia” para demonstrar sua indignação e saiu reportagem com ele na mesma página de “Dias Felizes”. Ali o artista deixava claro que não existem intocáveis para ele.

O destino moveu as suas peças e não demorou para outro baluarte do teatro vir à cidade, desta vez, para uma palestra na (UFU): Zé Celso Martinez. Fransérgio acompanhou da plateia e depois, no seu Fusca, e dirigindo sem carteira, levou Zé Celso e outros dois amigos para um show de João Bosco no antigo Public Bar. “Ele não queria ficar lá, perguntou onde tinha maconha. Entramos no Fusca e paramos no Por do Sol (P.S.), um mirante no alto da Nicomedes Alves dos Santos muito frequentado pelos loucos daquela época”, lembra Fransérgio.

O santo dos dois bateu. No dia seguinte, Zé Celso chamou Fransérgio no Hotel Presidente, onde estava hospedado, e o convidou para um teste no seu Teatro Oficina. “Na época publicaram que eu havia feito o ‘teste do sofá’ com o Zé, o que não aconteceu. Ele ficou mesmo louco por mim, mas acabamos ficando amigos”, esclarece o uberlandense que na mesma semana saiu de casa, brigado com os pais - que já cobravam dele um emprego. “Eu tinha o que estava na mala e R$ 50. Passei no teste em que o Edson Celulari não passou. Em 40 dias estreei no teatro profissional com o Oficina em ‘Bacantes’”.

A bagagem dessa escola o deixa frustrado atualmente, quando encontra, entre estudantes de Teatro, pessoas que não conhecem Shakespeare! Está tudo muito simplificado. “Não sei se isso é bom ou ruim, mas particularmente não creio que a gente deva naturalizar demais o teatro porque isso não leva a transformação, não gera impacto nas pessoas, limita a curiosidade”.

MERGULHO NO INFERNO
Fransérgio Araújo ficou 12 anos no Teatro Oficina. Apresentou-se na França, Moscou, Portugal e Itália. Saiu porque havia absorvido tudo que a escola de Zé Celso poderia oferecer. Mudou-se para o Rio de Janeiro, onde por algum tempo lecionou interpretação realista na Casa das Artes de Laranjeiras (Cal), também trabalhou com Hamilton Vaz Pereira, outro diretor que admira.

Foi quando sofreu um surto psicótico. “O ano era 2006 e eu não parava desde a saída de Uberlândia. Foi uma exaustão emocional e física que se configurou logo em depressão, síndrome do pânico e na sequência o diagnóstico de esquizofrenia. Foram dois, três anos muitos difíceis”, contou.

Foi o pai quem o trouxe do Rio de Janeiro. Havia duas semanas que ele estava trancado no quarto. Em casa, teve o pai ao dormindo ao seu lado todas as noites. “Minha mãe não conseguia chegar perto de mim. Eu tive acompanhamento com psicólogo, psiquiatra, fiz terapia alternativa e tratamento espiritual para fazer o caminho de volta, afinal, virei uma criancinha de novo”.

O senhor Agmar, que tinha memória fotográfica, recorda Fransérgio, lia todos os livros do filho. Ele leu “Os Cantos de Maldoror”, de Isidore Ducasse, que eu havia ganhado do Zé Celso, e me explicava de uma forma engraçada aquele livro tão denso. Fransérgio conhecia a história mas naquele momento ela teve um significado diferente. O pai, com a sabedoria de um pescador que ia para o Mato Grosso direto e aprendeu muito com os índios, o incentivou a parar com os remédios. “Eu precisava de quatro Rivotril para dar uma volta no quarteirão. Com a ajuda do meu pai voltei a andar, depois correr e logo a criar. Eu renasci por meio do meu pai”, disse Fransérgio, que tem um filho de 22 anos, Arthur Augusto, que cursa biologia na USP e acaba de ser selecionado para participar de uma pesquisa no Japão.
 
EMERGINDO DAS TREVAS
Ducasse, no livro citado, falava em depressão, esquizofrenia, pânico, cria personalidades para a maldade humana e reconfigura a ideia do animal. “Foi o caminho da minha crise existencial. Achei em Ducasse o esteio dramatúrgico da minha pesquisa para o Teatro do Absurdo”, disse Fransérgio, que começou as pesquisas para seu método com base também no Teatro da Crueldade de Antonin Artaud.

Em 2012 o artista uberlandense volta aos palcos com “O Mal Dito”, inspirado na obra de Ducasse. No mesmo ano, perde o pai. “O espetáculo é dedicado a ele. Hoje estou aqui, com a minha mãe e meu irmão, Alexander, um contrabaixista fantástico, também diagnosticado com esquizofrenia há 20 anos, um pouco recluso”, explicou.

Agora Fransérgio percebe que se fala mais abertamente sobre depressão e outras doenças relacionadas à mente, mas durante muito tempo foi - e para alguns ainda é - um tabu. “Foi preciso coragem para abordar isso como abordei. Não foi fácil. Depois da apresentação em Uberlândia me apresentei em São Paulo e a crítica de uma pessoa que respeito e admiro muito, Álvaro Machado na revista ‘Carta Capital’, deu mais visibilidade ao trabalho e saí do circuito underground para me apresentar em palcos como do Sesc”.

QUEM VOCÊ PENSA QUE É?
Uberlândia sempre volta para a rota de Fransérgio Araújo. Uma oficina ministrada por volta de 2016 para alunos do curso de Artes Cênicas da UFU fez virar a chave. Ali, era o seu processo de ator evidenciando, mostrando as técnicas que o Zé Celso usava no Oficina, que despertavam interesse. “Era meu ator sendo parte integrante de um processo estético, de criação, de interpretação de personagem. Cada diretor segue um caminho e explicitam isso para você, imprimem no ator que faz o restante do trabalho ao desenvolver a técnica”, explica.

Tudo que absorveu de seus mestres já não cabia mais nele. Desde Zé Celso a Ron Daniels, de Mário Bortolotto a Marcelo Fonseca, sem deixar de lado os diretores de Uberlândia, ainda no teatro amador, Gleides Pamplona e Flávio Arciole, todos são notáveis. “Eles me passaram inconscientemente o seu legado. Chegou um momento do meu trabalho artístico que comecei a me interessar em dar vazão a uma nova técnica. É um ato revolucionário e rebelde dentro das artes cênicas porque nesse momento você rompe com seus mestres”.

O diretor diz que é um processo solitário que sofre críticas. “Ficam naquela, ‘quem você pensa que é, como assim, está criando um método?’. Temos vários embates, mas o teatro é democrático, inclusivo. Estudei, pesquisei e pratiquei as técnicas de Grotowski (Jerzy), Artaud, Stanislavisk (Constantin). Todos eles romperam padrões e ao longo da carreira absorvi isso. O que posso fazer? Virei um catalizador e chegou o momento de transformar o que aprendi”.

SELVAGEM
Fransérgio diz que “O Mal Dito” é a fôrma do Teatro Selvagem e ele nunca se imaginou fazendo um monólogo. “Para a minha geração monólogo era coisa de quem tem 60 anos, mais de 35 anos de carreira, sempre tive medo e hoje por uma condição política e econômica todo mundo faz monólogo. A performance, a dança, o empoderamento invadiram o teatro e os discursos individuais só crescem”, analisa.

Desde que iniciou a pesquisa ele tentou se encontrar em espaços underground paulistanos, mas era difícil para outros diretores abrirem espaço e cederem seus atores para outros métodos. Foram outros nãos que levaram ao sim que ele tanto esperava. Depois de quase dois anos ele conseguiu a atenção do diretor peruano Mário Delgado, que faleceu no ano passado. Na época, ele estava em Uberlândia desenvolvendo um trabalho com o Grupontapé.

O Teatro Selvagem foi consolidado com a ajuda de Delgado. “Já fui para o Peru outras duas vezes e voltarei para dirigir um trabalho por lá. Agora, que minha técnica está chegando a atores mais conhecidos, estou pronto para escrever a dramaturgia”, disse o diretor.

A técnica de Fransérgio utiliza xamanismo, principalmente o peruano, respiração da cabala para elevar o transe e o verbo muscular, ou seja, o texto que provoca. “O Teatro Selvagem não surgiu da noite pro dia. Ter um profissional como o Delgado reconhecendo seu valor mostra que o método é necessário porque viabiliza processos inconscientes que fazem com que a gente produza mais e melhor”.

Fransérgio foi para Lima, sede do Cuatrotablas, de Delgado. O peruano cedeu o espaço e seus principais atore para ajudarem a aprimorar a técnica do uberlandense. “Encontrei o teatro de laboratório da América do Sul e em Delgado um ser humano incrível, o melhor homem e teatro que já conheci. Meu trabalho traz uma estranheza, esquisitice, um não lugar, um desconforto que é uma prática de Artaud, de visceralidade, para demover você do lugar. Os trabalhos mais vertiginosos podem repelir as pessoas que te devolvem coisas agressivas, o que é bom. Você exibe medo, emoção, crítica social, você quer que aquilo ferva, que venha qualquer sentimento, que não haja indiferença, que é a pior coisa para um artista”.
Fã de Jim Morrisson, líder do The Doors, que já interpretou em “Ninguém sai vivo daqui”, Fransérgio afirma que o californiano é parte do seu trabalho e um artista que ama, como Oscar Wilde, por transporem suas próprias vidas.

UBERLAND
Até o próximo final de semana Fransérgio ministra aulas do Teatro Selvagem na Escola Livre do Grupontapé. Como professor, percebe que às vezes é preciso trazer a pessoa para o conhecimento delas mesmas, furar barreiras de ego, preceitos de vida, estruturas idiossincráticas que ela tem e depois vem a interpretação, o teatro. “Nada melhor do que estar no backstage de uma peça e alguém chega até você e diz ‘você mudou a minha vida’”.

Ele pretende ter seu próprio laboratório em Uberlândia. “Estou acompanhando a questão da transformação do antigo Fórum em um Centro Cultural. Adoraria ter um espaço ali para trabalhar minha técnica e fazer um intercâmbio com o que há de mais efervescente pelo país”, disse o selvagem que tem estudado produção cultural e ministrado aulas para pessoas que, como ele buscam tirar algo de bom da insanidade.


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