14/07/2019 às 17h30min - Atualizada em 14/07/2019 às 17h30min

Dê uma ''giradinha'' no seu negócio e evite o fracasso

Ato de corrigir a rota, batizado de 'pivotar' por startups, é crucial quando resultado esperado não é atingido

FOLHAPRESS

Nem sempre uma ideia de negócio dá certo de primeira. E, aí, o empreendedor tem que se reinventar para buscar novas soluções. "Não existe mais aquele planejamento todo para abrir uma empresa. A gente aprende fazendo e precisa estar atento ao momento de corrigir a rota", diz Alessandra Andrade, coordenadora do Faap Bussiness Hub, centro de empreendedorismo da Fundação Armando Álvares Penteado. Nas startups, fazer essa mudança de rumo chama-se "pivotar", que vem do termo em inglês "to pivot" (girar).
No futebol de salão, o pivô é o jogador que gira sobre o próprio eixo para achar uma nova chance de ataque. Numa empresa, pivotar é manter a base do negócio e dar uma guinada em outra direção, ao ver que os resultados esperados não foram atingidos.

Foi o que aconteceu com a Posher, que nasceu, em abril de 2016, como um aplicativo para levar o serviço de manicures e cabeleireiros à casa dos consumidores. "Estudamos bastante. Tudo apontava que um negócio de economia compartilhada no segmento de beleza teria um mercado bastante grande", afirma o fundador, Julio Hirose, 45.

Demorou só um mês para que ele e o seu sócio, Frederico Anders, 45, percebessem que, naquele formato, a startup não iria para frente. Muitas pessoas baixavam o aplicativo, mas poucas contratavam os serviços. E quem chegava a usá-los não repetia.

Para saber o motivo, os dois foram atrás dos clientes. Todos deram a mesma resposta: achavam a ideia legal, mas só recorriam à plataforma em emergências, porque eram fiéis às suas manicures. Como já haviam investido na criação do aplicativo, os sócios buscaram um novo caminho. Eles tiveram a ideia de oferecer o serviço a empresas, como um benefício a seus funcionários.

A companhia só precisaria ceder um espaço onde os empregados fizessem a unha ou o cabelo sem sair do trabalho, com agendamento e pagamento pelo aplicativo.

A estratégia deu certo. Entraram em contato com duas empresas, que se interessaram pela ideia e serviram de teste para o novo modelo.

Hoje, a Posher trabalha com mais de 200 companhias, na Grande São Paulo, em Campinas, Curitiba e Belo Horizonte. A startup ampliou o leque de serviços, incluindo também estética, massagem, aulas de exercício e idiomas.

Segundo Julio, a startup realiza em torno de 20 mil atendimentos por mês e repassa, em média, 72% aos cerca de 600 prestadores de serviço.

Criada em 2014, a Hisnëk fez virada parecida. Nasceu como clube de assinatura de lanches saudáveis para pessoas físicas e, hoje, oferece programa de bem-estar corporativo.

A contratante paga uma taxa mensal, e seus funcionários podem comprar com desconto uma caixa com 22 produtos e ter acesso a orientação nutricional.

Com a mudança, a previsão de faturamento da startup para três anos cresceu cinco vezes, de acordo com a fundadora, Carol Dassie, 35.

Para fazer a transição, ela conversou com especialistas. "Não é fácil mudar de rota, porque existe a paixão pelo negócio. É importante ouvir pessoas de fora, para ter opiniões sem emoção", diz. Além disso, o empresário deve estabelecer desde o início parâmetros para avaliar se o negócio está no rumo certo.
É necessário estabelecer limites de investimento e de tempo para cada objetivo. Por exemplo: em tantos meses, é preciso validar uma hipótese ou conseguir um determinado número de clientes. Se a expectativa não se confirmar, é hora de pivotar.

"Tem empreendedor que fica tentando a mesma ideia por anos, gastando dinheiro, sem sair do lugar", afirma Luis Franco, gerente de aceleração da Endeavor. O mais importante, diz ele, é ouvir as demandas do consumidor.

No caso da AgriConnected, startup que monitora máquinas agrícolas, conversar com produtores rurais foi decisivo para adaptar o produto às necessidades reais do mercado.

A empresa foi criada no início de 2017 com o intuito de resolver o problema do alto custo de manutenção com maquinário. A ideia foi criar um dispositivo que avisasse qual peça do motor iria quebrar, antes que isso acontecesse.

Ao oferecer a solução, os sócios perceberam que o problema era mais complexo do que imaginavam. Os fazendeiros, na verdade, não tinham controle sobre como as máquinas eram usadas no campo.

Mesmo se a empresa previsse um defeito, a máquina poderia quebrar por outros motivos, em razão do uso inadequado por parte do operador, diz Vitor Zandonadi, 34, um dos fundadores.

A startup desenvolveu, então, um rastreador que vê se a operação do equipamento está sendo feita da forma correta. Com isso, conseguiu reduzir até 60% no custo de manutenção e 30% no consumo de combustível. O novo produto passou a ser oferecido no fim de 2018 e, por enquanto, cinco clientes já o adquiriram.

"Você tem que ficar de olho no que o consumidor quer. Às vezes, ele precisa de uma coisa mais simples do que você pensou, mesmo você achando que sua tecnologia é maravilhosa", diz Vitor.

Instituto C&A lança edital para projetos de pesquisa na área de moda
Faltam informações sobre a indústria da moda e iniciativas para mudá-la no país. O setor, um dos que mais polui e com histórico de trabalho em condições precárias, padece de incentivos para que empresas inovem no caminho da sustentabilidade e da inclusão social.

O diagnóstico relatado por Margarida Lunetta, gerente de transformação circular do Instituto C&A, motivou a organização a lançar um edital de projetos de pesquisa e protótipos que estimulem a circularidade da cadeia de moda no Brasil.

O público-alvo do edital são institutos de pesquisa, startups e empresas. Não se esperam projetos de produtos, mas de iniciativas que possam ter escala e que gerem transformações.

Segundo o instituto, não existe uma definição única de negócio circular na indústria da moda. Para o edital, são exemplos modelos de negócios que incluem aluguel, reutilização, recomércio, conserto ou remanufatura de peças; e serviços e sistemas de compartilhamento de itens.

O edital tem como objetivo encontrar projetos que melhorem as condições de vida dos empregados em todos os estágios da cadeia da moda, da agricultura, da indústria e do varejo; aumentem a capacidade de inclusão nas empresas; e melhorem a qualidade das fontes de dados sobre gênero e inclusão social.

O Instituto C&A, de atuação internacional, financia projetos voltados a novas formas de produzir, vender e usar roupas, e defende que a passagem da economia linear para a circular na moda tem o potencial de melhorar o ambiente e a vida das pessoas.

"No Brasil existem várias iniciativas, como armários coletivos e aluguel de roupas, mas ainda é nebuloso para os empresários quais são os benefícios financeiros", diz Lunetta.

"É um ecossistema cheio de 'gaps'. Faltam fóruns, plataformas de aceleração para inovadores e um ambiente regulatório atraente", afirma ela.

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