09/07/2019 às 08h41min - Atualizada em 09/07/2019 às 08h41min

Longe do mais do mesmo

Dado Villa Lobos e Marcelo Bonfá mantêm viva a Legião Urbana

ADREANA OLIVEIRA
Show de sábado no Castelli Master esquentou uma noite fria em Uberlândia | Foto: Adreana Oliveira

“Essa é a terceira corrida que pego desde o final do show e este é o terceiro ponto de vista que ouço”, disse o motorista do Uber à repórter e à amiga que saiam quase sem palavras do Castelli Master, em Uberlândia, na fria madrugada de sábado (6). Comentávamos sobre a avassaladora apresentação da Legião Urbana XXX, uma das atrações do Festival Uberlândia Music, destacando o mérito do vocalista André Frateschi em não tentar, em momento algum, imitar o saudoso Renato Russo.

Nas corridas anteriores, um dos casais falou exatamente o contrário. Tudo é uma questão de perspectiva. O que sabemos ou pensamos saber está relacionado à nossa experiência. Por isso, o mesmo show tem resenhas diferentes.
O guitarrista Dados Villa Lobos e o baterista Marcelo Bonfá mantêm viva toda a obra da Legião Urbana com os shows retomados a partir da marca dos 30 anos da banda. E Frateschi comentou, durante a apresentação que esquentou a noite de quem ousou sair de casa para celebrar o rock brasileiro, algo que todos nós já percebemos. O quão necessário é revisitar este repertório no atual momento sócio, político e cultural que vivemos.

Muito está implícito em pequenos detalhes. Em “Mais do mesmo” entre versos como “em vez de luz tem tiroteio/ no fim do túnel/ sempre mais do mesmo” Dado e Frateshci no centro do palco, de costas um pro outro, dão um recado bem claro, sem uma palavra a mais, no trecho “enquanto isso, na enfermaria/todos os doentes estão cantando/ sucessos populares”.

Quer versos mais poderosos do que “não deixe a guerra começar”, de “Plantas embaixo do aquário” em um momento em que o uso de armas está em debate? “Senhoras e senhores, agora, o hino nacional do Brasil”, anuncia Frateschi antes de “Perfeição”.

O público mandou também um recado de insatisfação bem direto ao presidente Jair Bolsonaro antes de “Fábrica”, um dos momentos mais “explosivos” do show de sábado. Também houve muita ternura como quando Bonfá cantou “Eduardo e Mônica” ou quando Dado cantou “Giz”, aquela música que Renato chegou a comentar que era uma das letras que mais se orgulhava de ter escrito. Se existe amor ainda existe uma chance.

Em entrevista ao Diário de Uberlândia publicada na véspera do show, Dado comentou sobre o primor da direção do espetáculo que ficou por conta do baixista Mauro Berman, e o público conferiu que ele não estava brincando. A disposição das músicas no setlist, a interatividade, a teatralidade possibilitada pela experiência de Frateschi como ator, todo esse combinado levou a um show que não tem a pretensão de ser perfeito, mas é real. Daqueles em que os músicos parecem encarar cada espectador olho no olho.

É um show orgânico, intenso e para se cantar a plenos pulmões músicas que mostram um Brasil que gostaríamos que estivesse diferente. Dado e Bonfá são impedidos judicialmente pelo filho de Renato Russo, Giuliano Manfredini, de usar o nome Legião Urbana, algo que desagrada grande parte dos fãs, uma injustiça àqueles que são também a essência da banda. Isso ainda é Legião Urbana, esse é o legado de Renato Russo, Renato Rocha, Dado e Bonfá.

INÉDITO


Foto: Rafael Besse Gold/Divulgação


Uberlândia viu em primeira mão a banda cantar “Índios” com participação de Humberto Gessinger, que abriu a noite com seu show “Ao vivo pra caramba”, que agradou aos fãs do Engenheiros presentes, e mais ainda aos que acompanham a trajetória solo de Gessinger. Antes do show os artistas se encontraram no camarim da Legião por alguns minutos, provavelmente falando dos detalhes do que estava por vir.

Por aqui, desejamos vida longa ao rock brasileiro, que venham mais motivos para que tenhamos orgulho do que é produzido aqui e de toda a história que vivenciamos.


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