23/12/2018 às 06h00min - Atualizada em 23/12/2018 às 06h00min

Rambo relembra tempo de boxeador

LUTADOR QUE ENFRENTOU MAGUILA, EM 1991, VIVE EM ARAGUARI ONDE DÁ AULAS DE MUAY THAY E BOXE EM ACADEMIA PRÓPRIA

Éder Soares
Maguila ao lado de Edmilson Rambo, antes de combate de 1991 em Araguari
Edmilson Tonácio, hoje com 52 anos, leva uma vida pacata e tranquila em Araguari, onde mora desde os 12 anos de idade. Ele nasceu em Rifaina (SP), mas se considera mineiro de coração. No boxe brasileiro, ficou conhecido como Rambo, em função dos cabelos longos e a semelhança com o personagem do ator Silvestre Stalone no cinema. Rambo foi considerado um dos grandes nomes do boxe brasileiro, na categoria peso pesado, entre as décadas de 1980 e 1990. Casado com Rosana e pai de Rafael e Giovanna, Edmilson é dono de uma academia de boxe e muay thay, na qual também é professor.

A carreira de Edmilson Rambo como boxeador durou praticamente uma década. Como amador ele jamais perdeu uma luta, conquistando os títulos dos Jogos Abertos de São Paulo, Gazeta Esportiva, Campeão dos Campeões e ainda foi campeão paulista e brasileiro.

Já no boxe profissional, o lutador de Araguari realizou 29 lutas, vencendo 27 delas até o terceiro round e por nocaute.
Uma vitória aconteceu por pontos. Rambo sofreu apenas uma derrota, esta para o lendário Adilson Rodrigues Maguila, em 1991, em combate realizado em Araguari. A extinta TV Manchete fez a transmissão ao vivo para todo o país, sob o comando de um dos maiores narradores da história da TV e do rádio brasileiro, Osmar Santos.

Rambo foi o primeiro colocado do ranking brasileiro, terceiro da América do Sul e 22º do mundo. Na época, Mike Tyson era o primeiro. O araguarino chegou a pesar 100 kg com os seus 1,86 de altura, considerada baixa para categoria. A aposentadoria do boxe veio em meados de 1994, aos 28 anos.

COMEÇO

A história de Edimilson Tonácio com as artes marciais, especialmente com o boxe, começou aos 18 anos. “Eu, com 20 anos, fui para São Paulo para aprender o boxe e muay thay, na Academia do Vitor Ribeiro, o mesmo que ensinou boxe ao Anderson Silva, que mais tarde se tornou o campeão do UFC. Mas na época, isso por volta de 1987, o que dava dinheiro era o boxe. Dentro de uns quatro meses, eu fui para os Jogos Abertos de São Paulo, fui campeão. Depois fui para o Gazeta Esportiva e fui campeão invicto, derrubando todos os oponentes no terceiro round”, disse Rambo, que continuou falando sobre a grande luta contra Maguila, realizada em Araguari.

“Tenho 29 lutas profissionais, só perdi para o Maguila. No ranking da minha carreira fui o terceiro sul-americano, o segundo brasileiro e 22º do mundo, na época de Mike Tyson, Evander Holyfield, James Baster Douglas, Jorge Foreman, entre outros. O peso pesado era uma categoria de ouro, só cara top de linha, e eu me sentia em condições de enfrentar os grandes da época”, afirmou.

RAMBO X MAGUILA

Em 1991 aconteceu a luta contra Maguila. Rambo era o primeiro do ranking brasileiro e desafiou o melhor do Brasil naquele momento. Ele precisou desembolsar U$ 25 mil, dinheiro que conseguiu uma parte pelo comércio de Araguari, outra parte pela arrecadação dos cerca de 15 mil torcedores que lotaram o evento, realizado no Campo do Araguari. “O Maguila era o sexto do ranking do Mundo, e eu o desafiei. Eu precisei correr atrás de tudo, pois eu mesmo era o meu empresário. Vieram pessoas de todo o Brasil para ver esta luta, sendo um evento que realmente marcou época em Araguari.”

O ex-boxeador afirma que, na contagem de pontos feito por especialistas como Newton Campos, durante a luta, venceu os quatro primeiros rounds e vencia também o quinto, quando acabou sendo surpreendido pela famosa e pesada direita de Maguila. “Na verdade, eu vacilei mesmo. A direita dele era pesada, tanto que, quando ele lutou com o Holyfield, você pode observar no vídeo da luta, que o Holyfield foi muito esperto e conseguiu sair da direita dele. O Maguila conseguiu acertar um golpe que o assustou. Se deixasse o Maguila bater com a direita era lona mesmo. Eu dei uma bobeada, pois é preciso ficar atento o tempo todo. No quinto round ele deu o golpe de direita e eu saí para o lado errado”, contou Rambo, admitindo que a falta de experiência em lutas com maior quantidade de rounds acabou fazendo falta.

“Dava até para eu voltar depois de sofrer a queda, mas como eu era acostumado a derrubar todos os meus adversários até o terceiro round, isso acabou me prejudicando, pois eu precisava ter mais lutas de seis ou oito rounds para pegar mais experiência. Você precisa saber o jeito de voltar depois de cair. Quando eu levantei e dei por mim, o juiz já tinha acabado a luta.”

APOSENTADORIA

Depois da luta contra Maguila, em 1991, Edmilson Tonácio garante que as portas se abriram para que ele pudesse fazer mais lutas, e principalmente passar a ganhar mais dinheiro. “Depois dessa luta, eu assinei com empresários de São Paulo e passei a fazer lutas para ganhar US$ 4 mil, US$ 8 mil, foi onde fiz outras lutas. Depois do Maguila fiz mais umas dez lutas e decidi encerrar a carreira. Parei com 28 anos de idade, por volta de 1994”, disse Rambo, que falou o motivo de parar a carreira no auge da forma física e técnica.

“O problema é que na época, no Brasil, era muito difícil arrumar patrocínio para lutador. Tinha a Federação Brasileira, que ao invés de fazer dois campeões e manda-los lutar fora do país, por exemplo, eu e o Maguila, queria mandar somente quem passasse pelo Maguila. Eu fui desafiar o Maguila mais uma vez, mas aí o Maguila me pediu U$ 50 mil para fazer uma nova luta, o dobro do valor da primeira luta, o que não tinha como eu conseguir. Foi quando eu decidi largar o boxe profissional, pois não dava para eu sair do país e expandir a minha carreira”, disse Rambo.

Na única vez em que Tonácio teria a oportunidade de fazer a sua primeira luta internacional, em Cancún (México), mais uma vez Maguila acabou sendo o entrave. “Teve um boxeador, se não estiver enganado o Trevor Berbick (Jamaica), que estava entre os dez melhores do mundo e chegou a lutar com o Mike Tyson, lançou um desafio para América do Sul.  Como eu era o primeiro do ranking, eles queriam fazer a luta comigo.  Mas aí o Maguila entrou no meio e foi uma briga dentro do Brasil entre nossos empresários. Foi tanta confusão que o cara marcou a luta contra outro adversário, e nem eu nem o Maguila fizemos a luta. O Maguila fechava tanto o Brasil, quanto a América do Sul e só ele lutava fora.  A única opção era ganhar dele, mas ele colocava o preço que queria nas lutas. Aí tive que parar.”

BOXE ATUAL

No Brasil, o MMA é a febre do momento em termos de esporte de artes marciais. O país conta, inclusive, com alguns campeões do UFC, maior franquia da categoria em todo o mundo. Mas dados econômicos comprovam que esse esporte ainda está muito longe das cifras do Boxe, que paga as bolsas mais caras do esporte mundial. Apenas um exemplo é o caso do campeão dos meio-médios, o norte-americano Floyd, já aposentado, que chegou a ganhar uma bolsa no valor de R$ 600 milhões para enfrentar o tailandês Manny, combate realizado em 2015 e vencido de forma polêmica pelo americano.

“O boxe é o esporte mais bem pago do mundo, existe o mais caro, caso da Fórmula 1, mas o mais bem pago é o boxe. No Estados Unidos, por exemplo, as pessoas gostam mais do boxe, que continua sendo uma escola fantástica de fabricar boxeadores. No Brasil, os holofotes estão sobre o MMA, que passa até na TV aberta, enquanto o boxe, com a morte de pessoas como o Luciano do Vale, que trouxe esse esporte para o Brasil, não tem mais apelo, mas repito que em termos de Estados Unidos e no mundo em geral, o boxe é muito superior em termos de cifras e público”, afirmou.
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