03/12/2018 às 09h15min - Atualizada em 03/12/2018 às 09h15min

Cada vez mais brasileira

Radicada há 18 anos na Itália, artista mineira Maria Helena Manzan busca novos desafios

ADREANA OLIVEIRA
Foto: Adreana Oliveira
Maria Helena Manzan vive e trabalha em um castelo em San Vicenzo, na Itália, um vilarejo antigo do qual ela tem uma vista inspiradora cada vez que olha pela janela da construção que data do ano de 1400. Porém, essa situação não leva a artista mineira nascida em Tupaciguara e que veio para Uberlândia ainda na infância a ostentar tal situação. Ela afirma que sua força está nas raízes brasileiras, na fazenda família em Tupaciguara onde passou a infância, correndo na terra com os pés descalços, passando horas à beira do córrego, cavalgando com o cavalo Baião, brincando com os bichos e contemplando a natureza em sua mais pura forma.

“Eu costumava subir nos pés de laranja. Minha mãe ficava louca com aquilo. Ela dizia para eu pegar as laranjas que estavam mais baixas, mas eu insistia em querer aquela que estava no galho mais alto. Quando lembro disso percebo que essa persistência, de buscar o que quero e não ter medo, me ajudou em muitos momentos difíceis na vida”, disse a artista em entrevista concedida ao Diário de Uberlândia durante uma breve passagem pela cidade. Até os 9 anos de idade a menina viveu nesse cenário. Não sabia, mas ao mexer com barro e argila e construir tijolinhos em caixas de fósforo, já dava vazão à sua arte. Também era uma “modista”. “Fazia penteado em bonecas feitas de espiga de milho, improvisava com roupas da minha mãe, costurava roupinhas para bonecas e comecei a desenhar. Reproduzia com perfeição vestidos de noiva. Acho que queira ser estilista de noiva”, brinca. E foi assim, devagar, que a arte foi se fazendo presente.
Aos 10 anos, já em Uberlândia, ingressou no Conservatório Estadual de Música Cora Pavan Capparelli. Adorava piano! Cursou alguns semestres enquanto se familiarizava com a cidade.

Na adolescência optou pela faculdade de Artes e ingressou na Universidade Federal de Uberlândia (UFU), onde se graduou. Começou a trabalhar aos 17 anos. Passou por empresas como Neon Uberlândia, Algar, TV Paranaíba, sempre colaborando com o departamento de artes. “Por volta dos 20 anos comecei a viajar. E isso ampliou a minha visão. Aos poucos Uberlândia ficou pequena, o Brasil ficou pequeno e de certa forma a Itália, onde já estou há 18 anos, também está ficando pequena”, conta a artista que não descarta, no futuro, uma mudança para outro país europeu.

“Só mandar a sua obra pra mim não resolve. Pode ser algo meu, mas pra mim o artista precisa conviver com diferentes lugares, sentir sua realidade e só aí retratar isso em suas obras. Apesar disso, sei que minha raiz brasileira é minha maior força, sou muito mais brasileira depois que saí daqui. Sempre que venho para Uberlândia é como se recarregasse as energias. Eu sou uma pessoa que gosta de sol, de natureza. Eu amo o inverno europeu, mas geralmente é quando internalizo o que está por vir nas produções que sempre têm lugar no verão”, contou Helena Manzan.

Entre 2000 e 2018 a artista soma aproximadamente 30 exposições em países como Brasil, Itália, Rússia e Estados Unidos.

AUTENTICIDADE

Helena Manzan não gosta muito de abordar política em suas entrevistas. Sente-se à vontade porém ao dizer que espera um Brasil melhor, assim como uma Itália melhor. Ela conviveu com períodos de crise aqui e lá e faz algumas ponderações. “Nós, brasileiros, sabemos melhor como lidar com as crises que os europeus. Na Itália neste momento a imigração está muito mal resolvida. Eu amo as duas culturas mas admiro a brasileira por sempre ser mais aberta à diversidade e a europeia por incluir a cultura no seu dia a dia como algo essencial”, disse.

Para Helena Manzan um artista que não se adapta ao seu tempo corre o risco de se repetir, de não contar com a sua obra algo sobre o período em que vive. “Tive várias fases na minha carreira, mas nenhuma igual a outra. Já tentaram impor padrões aos meus trabalhos, mas isso eu não aceito. Passei por dificuldades financeiras, ouvi galerista dizer que não gostou do que apresentei, tentar me impor um padrão, mas isso eu não aceito. E o tempo é o melhor remédio. Alguns que chegaram a torcer o nariz para o que eu fazia voltaram anos mais tarde com uma maior compreensão sobre o que faço. Eu aceito os riscos em nome de algo natural e autêntico. Minha arte tem alma”, explicou a artista que afirma que seu trabalho tem um direcionamento até certo ponto. Porém, chega a hora em que as coisas vão se conduzindo.

Em uma pasta sobre a mesa está um convite formal do Novosibirsk State Art Museum, na Rússia, para inclusão obras da artista mineira em seu acervo fixo, concretizada em setembro passado. “Depois de anos fazendo bienais na Rússia finalmente consegui ter minha obra inserida dentro do museu na área de gráfica digital. Fiz uma fotografia ao inverso de minhas obras da Bienal de Veneza, duas nas quais usei a equidise da jiboia do Araguaia que tinha como tema a Madre Terra e Floresta Amazônica”, conta Helena, em quem a preocupação com a ecologia sempre foi genuína.
Ao fotografar o inverso de sua obra ela se surpreendeu com o resultado. Impressa em papel algodão, pode durar por centenas de anos. “Me preocupa muito a reprodução. É tudo muito efêmera. Alguns artistas contemporâneos usam materiais de pouca durabilidade, essa é uma visão minha. Fica a mensagem, mas a obra
se vai”.

Helena trabalha em uma série iniciada em 2015 intitulada “O mundo na vertical”, que mostra o mundo em pedaços, como está agora. Entre os materiais usados está folha de flamboyant, árvore que não mais existe em frente ao prédio que nos recebeu, apesar de sua janela ainda oferecer uma bela vista panorâmica de
Uberlândia. Em 2020 deve confirmar mostras individuais no Brasil, Portugal, Finlândia e Japão.

MONTANHAS

Em julho passado o jornalista, alpinista e escritor Lino Zani, que foi amigo pessoal do Papa João Paulo II e o acompanhou por muitas caminhadas pelas montanhas visitou a região de Molise, de onde se tem uma vista única. Inserida no circuito turístico cultural da cidade, ela quis proporcionar uma experiência diferente a Zani. “Fiz um centeio na montanha com retalhos de plástico como fundo, fiz uma estrada composta com pedras para que ele pudesse caminhar pelos 27 painéis de 14 x 50 metros. Ali era como se contemplássemos a natureza sem o plástico. Escrevi o Pai Nosso e a Ave Maria em português e fiz uma
performance com a colaboração de 80 escoteiros”, relatou.

FAMÍLIA

Helena Manzan tem dois filhos, Camilla Manzan Martins e Gustavo Manzan Martins. Camilla mora em Siena onde faz doutorado na área de biologia molecular. Gustavo fez Engenharia, mas segundo a mãe, se quiser pode seguir carreira musical. Avó de Nicole e esperando mais um neto, ou neta, ela tem na família seu porto seguro. “Sempre foi assim, desde pequena. Mantenho aquele aconchego que tive dos meus pais, tios, primos, no fim é isso que vale a pena, não importa onde estejamos, estamos juntos”.
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